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Dezembro 2000
Ano III - nº 28

O DIA DE DAR O NOME

Olhei o célebre pai-de-santo, cujas filhas são sem conta. Estava sentado à porta da camarinha, mas levantou-se logo, e a negra iniciada entrou, de camisola branca, com um leque de metal chocalhante. Fula, com uma extraordinária fadiga nos membros lassos, os seus olhos brilhavam satânicos sob o capacete de pinturas bizarras com que lhe tinham brochado o crânio. Diante do pai estirou-se a fio comprido, bateu com as faces no assoalho, ajoelhou-se e beijou-lhe a mão. Babaloxá fez um gesto de bênção e ela foi, rojou-se de novo diante de outras pessoas. O som do agogô arrastou no ar os primeiros batuques e os arranhados do xequeré. A negra ergueu-se e, estendendo as mãos para um e para outro lado, começou a traçar passos, sorrindo idiotamente. Só então notei que tinha na cabeça uma esquisita espécie de cone.

- É o adôchú, que faz vir o santo - explica Antônio. - É feito com sangue e ervas. Se o adôchú cai, santo não vem.

A negra parecia aos poucos animar-se, sacudindo o leque de metal chocalhante.

Em derredor, a música acompanhava as cantigas, que repetiam indefinidamente a mesma frase.

A dança dessas cerimônias é mais ou menos precipitada, mas sem os pulos satânicos dos cafres e a vertigem diabólica dos negros da Louisiana. É simples, contínua e insistente, horrendamente insistente. Os passos constantes são o alujá, em roda da casa, dando com as mãos para a direita e para a esquerda, e o jêquêdê, em que ao compasso dos atabaques, com os pés juntos, os corpos se quebram aos poucos em remexidos sinistros. Não sei se o enervante som da música destilando aos poucos desespero, se a cachaça, se o exercício, o fato é que, em pouco, a iaô parecia reanimar-se, perder a fadiga e a raiva louca. De cada xequexé-xequexé que a mão de um negro sacudia no ar, vinha um espicaçamento de urtiga, das bocas cusparinhentas dos assistentes escorria a alucinação. Aos poucos, outros negros, não podendo mais, saltaram também na dança, e foi então entre as vozes, as palmas e os instrumentos que repetiam no mesmo compasso o mesmo som, uma teoria de cara bêbedas cabriolando precedidas de uma cabeça colorida que esgareava lugubremente. A loucura propagou-se. No meio do pandemônio vejo surgir o babaloxá com um desses vasos furados em que se assam castanhas, cheio de brasas.

- Que vai ele fazer?

- Cala, cala... É o pai, é o pai grande - balbucia Antônio.

As cantigas redobram com um furor que não se apressa. São como uma ânsia de desesperado essas cantigas, como a agonia de um mesmo gesto arrancado dos olhos a mesma lâmina de faca, são atrozes! O babaloxá coloca o canjirão ardente na cabeça da iaô, que não cessa de dançar delirante, insensível, e, alterando o braço com um gesto dominador e um sorriso que lhe prende o beiço aos ouvidos, entorna nas brasas fumegantes um alguidar cheio de azeite-de-dendê.

Ouve-se o chiar do azeite nas chamas, a negra, bem no meio da sala, sacoleja-se num jêguêdê lancinante e pela sua cara suada, do canjirão ardente, e que não lhe queima a pele, escorrem fios amarelos de azeite...

Yemanjá atô K'awô - continuava a turba.

- Não queimou, não queimou, ele é grande - fez Antônio.

Eu abria os olhos para ver, para sentir bem o mistério da inaudita selvageria. Havia uma hora, a negra dançava sem parar; pela sua face o dendê quente escorria, benéfico aos santos. De repente, porém, ela estacou, caiu de joelhos, deu um grande grito.

- Emim oyá bonmin! - bradou.

- É o nome dela, o santo disse pela sua boca o nome que vai ter.

- A sala rebentou num delírio infernal. O babaloxá gritava, com os olhos arregalados, palavras guturais.

- Que diz ele?

- Que é grande, que vejam como é grande!

- Criaturas rojavam-se aos pés do pai, beijando-lhe os dedos; negras uivavam, como as mãos empoladas de bater palmas; dois ou três pretos, aos sons dos xequerês, sacudiam em danças com o santo e a iaô revirava os olhos, idiota, como se acordasse de uma e estranha moléstia.


(RIO, João do. In CARNEIRO, Edison. Antologia do negro brasileiro)

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