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Dezembro 2000
Ano III - nº 28

FESTAS DO CICLO DO NATAL

O ciclo do Natal, que vai de 24 de dezembro a 6 de janeiro, existe no estado de São Paulo, e possivelmente em outras partes do Brasil, em função da Festa de Reis de 6 de janeiro. O Natal propriamente dito desenvolve-se nos seus aspectos folclóricos em derredor da Missa do Galo, construção e visita aos presépios, preparação da árvore simbólica de velhas características mágicas (árvore de Natal), ceia e mais comumente almoços mais pobres e mais ricos, onde se bebe e come a valer, troca de presentes e principalmente oferecimento de presentes às crianças, na forma de presentes de Papai Noel. Estes elementos de comezaina e presentes podem-se repetir no Ano Novo, aliados a numerosos superstições e crendices, como aquelas relacionadas ao bater de latas, ferro, dar tiro e arrebentar bombas, ou da vigília, de finalidades exorcistas e mágico-terapêuticas contra os maus fados do ano que vai se iniciar. Para ser feliz o ano todo, dizem em São Paulo, deve-se à meia noite de 31 de dezembro, pôr uma uva na boca e o pé esquerdo na frente. A maior festa de características folclóricas do ciclo, porém, é a de Reis de 6 de janeiro, com a chegada das Folias, que foram angariar donativos, muitos comes e bebes e a consagração dos novos festeiros, que por vezes são coroados e possuem a categoria de rei e rainha, que estudamos no livro Folguedos populares do Brasil.

Inicialmente, comemorava-se o nascimento de Jesus Cristo em 5-6 de janeiro, na Epifania de Dionisos ou data de sua aparição. Só no século IV é que começaram as celebrações de 25 de dezembro, dia da antiga festa pagã do Sol, que acabou sendo reinterpretada pelos cristãos. Estes até então só costumavam festejar o aniversário da morte e ressurreição de Cristo, talvez pelas dificuldades que encontravam em situar a data do nascimento. Posteriormente, segundo cálculos de Hipólito, gravados em estátua da biblioteca de São João de Latrão, em Roma, esta ficou estabelecida como sendo o 2 de janeiro ou 2 de abril de 5.532. O mesmo Hipólito, depois em comentário sobre Daniel, corrigiu-a, esclarecendo que o nascimento se deu a 25 de dezembro de 5.500, depois de Adão.

Os cálculos, porém, não tiveram qualquer importância na escolha da data. Os cristãos orientais comemoravam o nascimento em 5-6 de janeiro, na Epifania de Dionisos, como é fácil imaginar, por influência de crença antiga. E no momento em que se fixou mesmo a data de 5-6 como sendo a das bodas de Caná, com o milagre da transformação da água em vinho, Cristo passou a ocupar o lugar de Dionisos. Lembre-se ainda que o milagre da água-e-vinho procede do culto desse deus grego e também de outros deuses pagãos, como o milagre da multiplicação dos pães, característicos de Epifânia, é observado em muitos cultos antigos.

Ainda no século IV, havia brilhantes festas de Epifania pelo nascimento de Cristo no Oriente. Há descrição desses festas por uma peregrina espanhola, que viveu três anos na Palestina, por volta do ano 380. Tal como a pagã, faziam-se com luminárias de tochas. Era, segundo Gregório de Nazianza, a festa das candelárias, celebrando o dia que iluminou a humanidade. Daí a razão das luzes variadas que ornamentam as festividades do ciclo, até hoje.

Na tradição cristã, o Deus Menino nasceu em uma gruta ou lapa - observar que lapinha, entre nós, significa presépio ou pelo menos, em Taubaté, o baldaquino de papel, no qual se colocam as principais figuras do presépio - e depois foi colocado em uma manjedoura. Essa tradição é do século II e tanto para Orígenes como para Santo Epifano remonta aos Evangelhos. Orígenes declara que a gruta de Belém é referida nesses livros e Epifano recorda que Lucas escreveu que, depois do nascimento, o menino foi enfaixado e depositado em uma manjedoura de uma gruta. A propósito, registra Justino: "Como José não tinha onde se hospedar, acomodou-se em uma gruta bem próxima de Belém, e foi enquanto lá estiveram, que Maria deu à luz o Cristo e colocou-o numa manjedoura."

O aparecimento do boi e do burro no ato do nascimento é mencionado na arte cristã do século IV e a ela se refere São Pedro Crisólogo em sermões do século V. Relacionados ao acontecimento, esses animais se acham em afrescos do túmulo de São Sebastião e em sarcófago de 343. O burro, a simbolizar os pagãos, e o boi, os judeus, ambos sujeitos ao jugo da lei.

O presépio, palavra originária do latim praesepium, que significa curral, estrebaria, cocheira, é obra de São Francisco ou pelo menos foi vulgarizado por ele, que concebeu o primeiro em 1223, nos bosques de Groccio, na Itália. Seu objetivo era difundir o culto ao Menino Deus, conforme narrativa dos Evangelhos. Nos séculos XIII e XIV, popularizaram-se os presépios, com a representação da cena do nascimento e a inclusão de tipos populares e diferentes aspectos da vida do campo e das cidades. Aos poucos, já eram dramas representados, verdadeiro teatro religioso, estimulado pelos jesuítas no século XVI. Assim o presépio feito ao vivo ou apenas com figuras, tornou-se tradição na igreja e no mundo católico em geral, chegando a dar nome a um dos nossos folguedos populares natalinos, mais conhecidos por Baile Pastoril, no estado de Alagoas.

Em São Paulo, a tradição do presépio, na sua expressão folclórica, prossegue principalmente no Vale do Paraíba, onde assim o descreve o professor Gentil Camargo, da Comissão Paulista de Folclore: "É armado na sala de entrada das casas. Para isso, encosta-se a um canto a mesa de jantar e apoiados no soalho e inclinados para a borda desta, de espaço a espaço, são fixados caibros, à maneira do limpa-trilhos. A seguir, no sentido transversal, colocam-se ripas, lascas de bambu, a formar um largo xadrez. Temos assim a base do presépio, a qual é revestida com ramos de café-bravo ou papel recoberto de barba-de-pau, ajustado com grude de farinha de trigo, e mesmo com papel amarfanhado, pintado de castanho, cinza e branco, a imitar terra e penhascos. O ângulo da parede tomado pelo presépio é enfeitado até à altura de metro e meio com papel de parede, debruado de barba-de-pau e de flores de papel. Na mesa desenha-se a paisagem: um campo de serragem colorida de verde, areia riscando os caminhos, montanhas de papel amassado e colorido, que se erguem e despencam, desfazendo-se em vales numerosos, lagos de espelhos, casinhas e igrejinhas de papelão.

A paisagem se anima com a colocação das figuras, geralmente adquiridas no mercado ou nas próprias casas dos artistas populares, folclóricos, que se situam, em Taubaté, no chamado Alto São João, rua Imaculada da Conceição. E na irrealidade histórica e geográfica, em que a imaginação se compraz, ergue-se a sagrada lapinha, que perdida a significação de "lapa", pedra, a lembrar a gruta, não é outra coisa senão um baldaquino, enfeitado de papel de seda e flores artificiais. No seu interior, encontram-se o Menino Jesus, tendo ao lado Maria e José e ainda a vaquinha fiel e o bondoso burrinho, que conduzirá a mãe e o menino na fuga para o Egito. Na direção da lapinha, caminham os Reis Magos, Belchior, Gaspar e Baltazar, nem sempre montados em camelos, mas em burros e cavalos mesmo."

A árvore de Natal, de recente introdução e vulgarização, entre nós, foi descrita primeiramente em Estrasburgo, pelo ano de 1605. No início, era um simples ramo de pinheiro, que servia para atrair boa sorte no Ano Novo. Mas não demorou usou-se o próprio pinheiro, enfeitado de papel colorido, maçãs, apitos, bombons, etc. Há uma estória alemã, que compara o mundo a uma árvore, na qual se acham suspensos o sol, a lua e as estrelas. Na festa dessa árvore, os alemães costumavam pendurar, em pinheiro verde e nevado, animais e homens em miniatura, a representar deuses da casa, da colheita, do trovão e da chuva. Desse velho uso, que a estória relata, procede o pinheirinho verde de Natal, com seus enfeites de estrelinhas, bolas coloridas, flocos de algodão e pequenas figuras de animais e de gente. Dando a árvore de Natal como originariamente alemã, alguns dizem que foi inventada por Lutero. Bastante popularizada em nosso país, a cada ano ela vai se tornando mais e mais uma expressão de nossa cultura espontânea.

Para uma explicação do Papai Noel, recordamos lenda russa medieval, que se refere à peste que assolou a Europa, matando milhares de crianças. Então, Noé da Bíblia pediu a Deus para descer à terra, no dia consagrado ao seu nascimento, a fim de divertir a criançada, com minúsculos bichos de sua famosa arca. Obtida a permissão e Noé transformado em São Nicolau ou Noel, deu-se o milagre e as crianças receberam presentes na forma dos bichinhos. O caricaturista Granville foi quem lhe deu a carapuça, o casaco e as botas de camponês russo, além da fisionomia risonha, emoldurada de cabeleira e barbas brancas. A seguir, colocou nas suas costas o saco de presentes e chamou-o de Papai Noel. Eis uma figura de recente criação que se integrou ao nosso folclore, freqüentando até a cerâmica figurativa do ciclo do Natal, no Vale do Paraíba, em São Paulo. Há muitas figureiras que fazem Papai Noel.

A missa do Galo, realizada à meia noite de 24 de dezembro, participa do nosso contexto folclórico, no seu aspecto de ponto de encontro no interior das igrejas ou na parte externa e vizinhanças, de quem espera a saída da missa. Afora o seu significado religioso católico, ir à missa do Galo é costume tradicional e folclórico de nossa gente. Símbolo da comunicação do nascimento de Jesus, essa missa foi instituída pelo papa São Telesforo, no ano 143. Ele ordenou que em todas as igrejas se rezasse missa à meia noite, hora do nascimento; outra de madrugada, hora da adoração dos pastores; e outra com o sol.

Na apresentação de folguedos populares, o ciclo no Brasil reveste-se de muita importância, principalmente no nordeste, onde se apresentam Reisados, Reiseiros, Guerreiros, Pastoris, Baile Pastoril ou Presépio, que podem funcionar como grupos que angariam donativos para as festas ou que homenageiam o nascimento através da visita aos presépios ou apenas em cantorias. Na Amazônia é assinalado, principalmente, pela presença da Pastorinhas ou Pastoril e no Sul pelas Folias de Reis ou Santos Reis. Todas essas expressões do nosso folclore foram estudadas no livro Folguedos Populares do Brasil, de minha autoria.


(LIMA, Rossini Tavares de. Folclore das festas cíclicas)

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