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Dezembro 2000
Ano III - nº 28

AS DOZE NOITES

O povo brasileiro celebra o nascimento de Cristo, não num único dia de dezembro, mas durante um período que os folcloristas chamam de as doze noites e que se conhece, nos países de língua portuguesa, como o ciclo da janeiras.

Quase todos os folguedos populares têm a sua oportunidade de apresentação nesse período, que se estende do Natal ao dia dos Reis - jogos e sortes, danças e bailes, desfiles e espetáculos (autos), o teatrinho de bonecos (mamulengos). Ficam de fora a folia do Divino e as cavalhadas de mouros e cristãos do Paraná, de Minas Gerais, de Goiás e do Amapá (das danças de Santa Cruz e de São Gonçalo, os cabocolinhos do Nordeste (mas não os seus irmãos gêmeos, os caiapós mineiros e paulistas), afoxés e maracatus, o boi-bumbá da região Norte. E até mesmo folguedos ligados ao Carnaval têm as suas origens remotas nos do Natal, como os ranchos cariocas, versão profana dos ranchos de Reis da Bahia, que serviram de modelo estrutural às escolas-de-samba.

O ambiente festivo em que transcorre a passagem do ano pode explicar esta concentração de folguedos durante as doze noites. Há, entretanto, como lembra Alexander Haggerty-Krappe, uma razão mais antiga, que remonta à era pagã. É que a Epifania (6 de janeiro) foi, até o século IV, o dia do Natal, só então recuado para 25 de dezembro, data do nascimento do Sol Invictus. Assim, o povo celebra o antigo e o novo Natal com uma lúdica que traz, não apenas a marca do passado, mas o sinal do presente e do futuro.

Vêm dos mistères e dos miracles do teatro religioso medieval os bailes pastoris. Escritos por anônimos beletristas, foram a princípio representados como autos sagrados, no adro, se não no interior dos templos católicos, como chegou a ocorrer e Pernambuco. São, agora, uma representação a bem dizer familiar, sobretudo na Bahia. Os bailes das Quatro Artes, da Graça Eficaz, do Filho Pródigo, entre outros recenseados por Melo Morais Filho, e os da Vizinha e da Horteleira, lembrados por Manuel Querino, apresentam uma trama simples, e mesmo ingênua, que termina pela chegada de alguém que traz a alvissareira notícia do nascimento de Cristo, com o que todo o elenco põe de lado as suas divergências para, em uníssono, conclamar a platéia a fazer peregrinação sagrada para adorá-lo. Dois desses autos se estabilizaram, na forma que haviam assumido no século passado, em Alagoas (o Presépio) e em Pernambuco (o presepe reconstituído pelos irmãos Valença), em que um grupo de pastoras, nas vizinhanças de Belém, derrota Lusbel.

Os Pastoris, de origem semi-erudita, deram dois rebentos populares - as pastorinhas, ainda vivas na Guanabara e no Pará, e os pastoris de jornadas soltas do Nordeste. Umas e outros, como os bailes, chamam os espectadores a Belém, para onde, supostamente, se dirigem. São crianças e adolescentes os componentes das pastorinhas. Figuram anjos e pastores, estrelas, as estações, as virtudes, as flores, a Terra, o Sol e a Lua, a noite, e em geral gente humilde, peixeira, florista, camponesa, baiana, caçador, jardineiro... Uma evocação da Idade de Ouro. Dispostas em semi-círculo, de frente para o público, as pastorinhas se movimentam nos seus respectivos lugares - meio passo a frente, meio passo para trás - enquanto uma delas avança para o proscênio e canta a sua parte, com o que declara a sua identidade e solicita a companhia dos presentes na sua visita ao Messias recém-nascido. Culmina o espetáculo com a cena da Pastora Perdida ou Libertina, tentada por Satanás mas salva pelo Arcanjo Gabriel. Se, idealmente, as pastorinhas constituem um desfile - um grupo heterogêneo de fiéis em romaria a Belém - o pastoril de jornadas soltas reparte os seus figurantes em dois cordões, o azul e o encarnado, que entre si disputam ruidosamente a preferência do público, apaziguados nos seus exageros pela moderadora Diana, metade azul, metade encarnado. A ação, nas primeiras jornadas, acompanha o modelo dos bailes pastoris - Lusbel, num acampamento das vizinhanças de Belém, em vão se esforça por tentar as pastoras; mas a grande atração do espetáculo, sobretudo em Pernambuco, são as jornadas cômicas, em que o Velho, também chamado Bedegüeba, figura que corresponde ao Velho Pastor das pastorinhas e de outras representações populares, dialoga maliciosa e mesmo obscenamente com o público, arvorando-se a conquistador e galã.

Ternos e ranchos de Reis - os primeiros constituídos de moças ou rapazes e trazendo nomes de flores, de astros e de pássaros, Bonina, Sol do Oriente, Arigofe, Cardeal, os segundos de composição mista quanto a sexo e idade, Rancho da Sereia, Rancho do Robalo, e carregando alegorias - celebravam a jornada do Magos, visitando presepes e casas de amigos na véspera dos Reis. Uns e outros têm a sua porta-estandarte, nos ternos protegida por uma guarda de honra feminina, nos ranchos acompanhada pelo mestre-sala, a abaná-la com o leque e a desenvolver em torno dela os passos mais extraordinários. Eram conhecidos, outrora, em Florianópolis e talvez no Rio Grande do Sul. Na Bahia, onde eram mais numerosos e de maior renome, como o famoso Terno de Arigofe, sofreram em eclipse por volta de 1930, mas oito ou dez deles já se apresentam de novo, com as suas pastoras e as suas ciganas a cantar e a dançar sob a vacilante luz das lanternas chinesas que pendem de grandes candelabros (cajados).

A tradição das cantatas e tocatas de Reis deu nascimento, na região centro-sul, a um desfile que não apenas assinala, mas reproduz a viagem dos Magos. É a folia de Reis, conhecida em Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Espírito Santo e, desde alguns anos, na Guanabara. No interior, os foliões saem no Natal e cumprem a peregrinação durante as doze noites, palmilhando incansavelmente as estradas, visitando fazendas e casas de amigos, conhecidos e devotos, comendo e dormindo onde podem; na Guanabara, e onde quer que os foliões tenham emprego regular, a companhia sai apenas nos dias de folga, domingos e feriados. Os grupos de penitentes têm a ligá-los a promessa formal, com que pagam favores celestiais recebidos na cura de doenças, de fazer a jornada durante sete anos. São poucos os seus efetivos no ambiente rural, mas nas cidades se formam com um mínimo de 12 homens, sob o comando do mestre (que organiza, custeia e dirige a folia) e entoam cânticos de inspiração bíblica (profecias) por ele compostos, segundo as suas leituras do Novo Testamento. Em marcha, rodeiam ou acompanham a bandeira, o estandarte da folia, um quadrado de madeira com a Adoração dos Magos ornada de flores e de espelhos, carregado pelo alferes. São todos músicos e cantores, violeiros, sanfoneiros, tocadores de triângulo, de caixa, de bumbo. Ao lado dos foliões, que se movimentam em marcha descansada, a dois de fundo, saracoteiam dois ou três palhaços, a cara coberta por máscaras de peles de animais, o corpo metido em camisolões ou lagartixas de cores vistosas, os pés nus, um porrete nas mãos. Acrobatas e declamadores, representariam os soldados de Herodes, perseguidos do Menino, e, em conseqüência, "têm parte com Cão". Toda a companhia reinterpreta, nas estradas do interior e nas calçadas urbanas, o Evangelho de São Mateus.

Não há época mais apropriada à execução de folguedos populares do que as doze noites. Esta preferência se torna mais evidente, no plano estadual, em Alagoas, onde mais de uma dezena deles se apresentam.

O reisado e, modernamente, o guerreiro, ligam-se ao Natal. Um e outro são rapsódias populares, reunião de cenas e episódios sem ligação entre si, alguns específicos da representação, outros tomados à vontade a outros autos, desfiles e diversões tradicionais. São, num e noutro caso, um bando de foliões que bate à porta dos amigos para brindá-los com um espetáculo que se constrói com "entremeios" cômicos, "peças" cantadas e "embaixadas" declamadas. O reisado, mais antigo, tem um rei e um secretário-de-sala, que se batem a espada com altivos embaixadores de um governante que se nomeia, e movimenta figuras reais e fantásticas, o Urso, o Jaraguá, o Cacunda, o Zabelê, o capitão-de-campo e os escravos fugidos, o Lobisomem, o Mandu, o diabo e o Arcanjo Gabriel a disputar a posse de uma alma recém-desencarnada... O guerreiro, versão modernizada do reisado, acrescenta novas cenas e novos personagens à ação, inspirados nos cabocolinhos e nos pastoris - o índio Peri, cercado e aprisionado após violento e obstinado combate a espada, e a Lira, assassinada e ressuscitada.

Outros folguedos tomaram o modelo dos pastoris, dividindo os seus figurantes em dois cordões, o azul e o encarnado, como as taieiras e as baianas e o torneio das cavalhadas. Únicas no Brasil, as taieiras de rainha, personagens do bumba-meu-boi como Mateus e Catirina e uma boneca, a Crioula, que lembra a dos maracatus. Uma procissão semelhante à das africanas de Alagoas, mas sem os cantos próprios das taieiras lembrados por Sílvio Romero e Melo Morais Filho, se realiza a 26, em Quatipuru e Bragança, Pará, quando, sob o comando da suas respectivas capitoas, os elementos femininos das Irmandades de São Benedito percorrem as duas cidades, em trajes especiais, de que se destacam os chapéus altos, de papelão, enfeitados com penas brancas de galinha, anunciando a dança do retumbão. As baianas dançam, em Alagoas, o samba-de-matuto ou baianal do sul de Pernambuco. Vestem um traje que se aproxima do da baiana, o azul ou o encarnado indicando os cordões a que pertencem, a refluíram do Carnaval para o Natal. As cavalhadas reúnem doze cavaleiros, chamados "pares" e nomeados segundo a versão portuguesa da estória dos Pares de França, que, a galope, disputam, dois a dois, um do cordão azul, outro do cordão encarnado, a sorte das argolinhas. Armados de compridas lanças de madeira, os cavaleiros - Roldão, Oliveiros e os demais barões da gesta de Carlos Magno - tentam retirar, da corda de que pende, uma pequena argola de ferro. Os êxitos (lanças) marcam pontos para cada cordão. Em seguida à carreira das argolinhas vêm as escaramuças, complicadas manobras eqüestres em que se desenvolvem figuras chamadas oito e noves, zeros e biscoitos. Estas cavalhadas, diversão de popular conhecida como esquenta-mulher em Alagoas e como zabumba, cabaçal e banda de couro em outros pontos do Nordeste.

Sem esta ligação com o pastoril apresentam-se ainda o quilombo, que tem similares no cacumbi do rio São Francisco e no lambe-sujo de Sergipe, a chegança e o fandango, os cabococlinhos e o bumba-meu-boi. O quilombo, em que muitos têm visto uma reminiscência das lutas nos armados de arco e flecha, os segundos de foices de madeira, enquanto a esquenta-mulher toca alternadamente o toré e "folga nego/branco não vem cá". A sorte dos combates é inconstante, mas afinal a rainha dos negros (uma menina branca) é raptada, salva e recapturada e os quilombolas se rendem e são vendidos, como presa de guerra, aos assistentes. Chegança e fandango têm acepções locais em Alagoas. Em todo o Nordeste, e mais exatamente da Bahia ao Ceará, chegança designa a representação que em Alagoas tem o nome de fandango, palavra que, por sua vez, denomina um conjunto de bailes rústicos na região centro-sul. Marujada, barca, Nau Catarineta, são alternativas nordestinas de chegança. Sílvio Romero propôs distinguir as cheganças de "de marujos" (de que o fandango é a versão alagoana) da chegança de "de mouros" (chamada simplesmente chegança em Alagoas). No fandango bailados e cenas cômicas (de que participam o Ração e o Vassoura) e dramáticas (a morte do gajeiro e a encenação da xácara da Nau Catarineta) têm lugar a bordo de um simulacro de barca ou navio - "o anau" em que os marujos, almirante ou capitão-general, mestre e contra-mestre, padre capelão,se regozijam pela chegança a porto seguro e relembram as durezas da vida do mar. Na chegança,que tem por palco um "anau" semelhante, a marujada - almirante, má-de-guerra, piloto, patrão, gageiro, calafate - dramatiza episódios da vida do mar, a tempestade e o contrabando, e uma luta de morte entre o patrão e o piloto, antes de avistar duas corvetas de guerra do rei da Turquia, que a intimam a aderir à lei de Mafona; travam-se combates a espada e os mouros, vencidos e postos a ferros, se redimem pelo batismo. Parece ser esta versão alagoana da chegança "de mouros" a última a sobreviver no Brasil. Os cabocolinhos, de que os guerreiros tomaram a Lira e o rei Catolé, rebatizado como índio Peri, apresentam rei, vassalos, mestre e contra-mestre, embaixadores, Mateus. Mais declamado do que dançado ou cantado, o folguedo parece uma vaga reminiscência da congadas ou congos, vigente no Ceará, no Rio Grande do Norte (congos de calções e congos de saiote), na Paraíba, no Espírito Santo (ticumbi), em Minas Gerais, como um incidente armado na fronteira de um Estado africano, entre patrulhas do rei (às vezes o rei Cariongo) e uma embaixada da rainha (às vezes a rainha Jinga), em que perde a vida o príncipe-herdeiro (às vezes chamado Suena) que pouco depois ressuscita, para alegria geral. Em alguns pontos, sobretudo em Minas Gerais, a congada se envolve na tradição da luta peninsular entre mouros e cristãos, participando do espetáculo o almirante Balão, Carlos Magno, Ferrabrás. Na versão alagoana os cabocolinhos diferem dos cabocolinhos do Nordeste, que se apresentam pelo Carnaval, e dos caiapós de Minas Gerais e de São Paulo, de exibição natalina - uma representação mínima de origem negra (na Paraíba os caboclos ainda se dizem "índios africanos") que cada dia mais se aproxima do modelo indígena convencional - em que se dá a morte e, por artes do feiteiro (ou pajé), a ressurreição do pequeno filho do chefe.

Finalmente, concorre nas celebrações populares do Natal o bumba-meu-boi.

Presepes e lapinhas, para que os artistas populares do barro e da madeira (como os do vale do Paraíba) contribuem com anjos, pastores, cordeiros, vacas e jumentos, manjedouras, a Estrela do Oriente, a Sagrada Família e a fuga para o Egito, dão a nota própria às comemorações tradicionais do Natal em todo o Brasil.


(CARNEIRO, Edison. Folguedos tradicionais.)

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