Ir para a página principalRetornar para Palhoça

Dezembro 2000
Ano III - nº 28

A MISSA DO GALO

O título desse folhetim transporta-me por encanto a uma época feliz da vida, em que tudo parecia sorrir-me, da qual conservo as mais saudosas reminiscências.

Tinha eu nova para dez anos.

Metido em uma jaquetinha à polka cor de papo de saracura e calças de presilhas, talhadas segundo o figurino de então, vivo e esperto como um camundongo, caminhava para o colégio acompanhado por uma negra, que era a personificação da prudência, e que às minhas inocentes travessuras opunha sempre esta terrível ameaça:

- Nhonhô, olhe que eu vou contar à senhora.

Quando à tarde voltava para casa, com os bolsos cheios de cocos, suando por todos os poros, as presilhas arrebentadas, os dedos e os punhos da camisa manchados de tinta, a minha santa avó punha as mãos na cabeça, e desfazia-se em exclamações:

- Que desgraça! Esse menino dá-me cabo da existência! Olhem só como está a camisa! E o boné! um boné que eu comprei ainda não há dois meses! O que é isso que tens na testa?

- Não é nada, vovó. Fui eu que caí. Estávamos brincando de chicote queimado... Vovó não sabe o que é chicote queimado? A gente agarra no lenço, dá uma porção de nós, muitos nós...

- Vai-te despir, pestinha. Deixa estar que para o ano hás de dormir no colégio e o mestre há de ensinar.

Meia hora depois, eu era objeto de afago e ternuras daquela que tão severa se mostrara para comigo.

E que a santa velha preenchia o vácuo imenso de uma mãe, que a fatalidade roubou-me no momento em que mais precisava de carinhos.

A lei das compensações é providencial; e no fim de contas este mundo não é tão feio como o pintam.

Eu era pequeno e rechonchudo como uma bola.

O nariz escondia-se-me entre as bochechas rosadas, e não havia mostrado ainda essa tendência para disparar pela cara, como aconteceu mais tarde.

As moças pediam-me beijos e diziam, segurando-me no queixo:

- Que menino bonito!

Não se riam, leitores, o belo sexo daqueles tempos não era lá dos mais exigentes.

O meu ideal sem ser republicano, era a liberdade sem limites.

No dia em que o grito de - férias - ecoava pelos quatro cantos do colégio, uma sensação inexprimível se apoderava de todo o meu ser.

Férias!

Nesta palavra mágica não se encerrava só a ausência da palmatória e o abandono dos livros, mas principalmente - a roça, com todos os seus prazeres e encantos.

Quinze dias a correr pelos campos, perseguir como um louco as borboletas azuis, virar cambalhotas na relva, adormecer extenuado à sombra do arvoredo, tudo isto bolia-me por tal forma com o sistema nervoso que eu sentia comichões em todo o corpo, e não podia estar cinco minutos sem dizer:

- Xi! Que belo! Vamos amanhã! Tomara que fosse já! Tra lá, tá, la, li, li!

E puxava o vestido das negras, trepava em cima das cadeiras, corria atrás dos cachorros, era um louquinho em suma.

E eis a razão por que a missa do Galo transporta-me à época saudosa da jaquetinha à polka, das calças de presilha e do boné de palhinha de Itália.

Foi na roça que recebi as primeiras impressões das cenas que vou descrever.

Consintam, pois, os leitores que eu invoque tão gratas recordações e que venha dizer-lhes o que é a missa do Galo, longe da corte.

Além disto, não é no cenário das grandes cidades, onde a política dos homens tudo avassala e domina, que deve ser estudada a festa singela e ao mesmo tempo grandiosa do nascimeno do Menino Deus.

Cristo viu a luz em um curral, para dar-nos o exemplo da humildade.

É portanto respirando o suave perfume das flores do campo, onde os homens não estão ainda contaminados pela atmosfera impura dos centros populosos, que deve ser celebrado aquele acontecimento, o maior do mundo.

O Natal é privilégio da roça.

Mas a roça de hoje é a mesma dos meus tempos?

O leitor que já tiver dobrado o cabo tormentoso dos quarenta, ou a leitora que parou nos trinta, que me respondam.

Não voltem o rosto e concordem comigo - que no dia em que o guincho da locomotiva ecoou nas floresras deste vasto torrão, lá se foi a roça dos nossos avós, e a poesia cobriu-se de luto.

O vigário de chapéu de três bicos, o juiz de paz revogando a constituição, o sub-delegado arbitrário, os tenentes coronéis, majores e capitães, o tropeiro, o rancho, a casinha de palha, tudo vai-se acabando!

Ora, como a poesia para mim é tudo, não há remédio senão retrogradar trinta anos, e pintar a roça da minha infância.

É noite.

Languidamente reclinada na fralda de uma colina, a vila de... espelha a sua graciosa cinta de casinhas alvas no cristal do rio que, murmurando aquelas sentidas endeixas, de que tanto abusam os romancistas líricos, vem submisso beijar-lhe as plantas.

Ao longe, destacada pelo fundo negro da capoeira, akveja o campanário, cujo sino convida os fiéis ao templo.

A vila pernoita em festa.

Quem percorrer o povoado encontrará em cada uma das casinhas um papel característico.

Aqui é uma família que se apronta para a missa.

Ouçamos o que dizem lá dentro:

- Nhá Tuca, ande, que já deu o premeiro toque.

- Arre lá, espere que eu não posso com este diabo desta saia.

- Mamãi, o vestido não abotoa.

- Encolhe a barriga, menina.

- Está encolhida.

- Encolhe mais.

- Assim também não posso. !

- Que diacho é que tu tens aqui?

- Eu sei lá, xentes! É aquela cousa que meu padrinho trouxe da cidade.

- O colete?

- É isso mesmo.

- Mas não é assim que se põe.

- O verdadeiro é tirar isto, que não estou para maçada.

- Seu Julião?

- O que é, sinhá Dona?

- A que horas começa a missa?

- À meia-noite, foi o que me disse o Chiquinho do Rio Fundo; mas eu sou capaz de apostá com sinhá Dona em como a missa não se diz sem chegá premeiro o sub-delegado.

Acolá, sob o teto de palha cheio de fendas, por onde espiam as estrelas, à luz amortecida de uma candeia, a viola desfaz-se nas volatas de rasgado cateretê.

À cadência do sapateado vêm juntar-se o tinir das esporas, as palmadas e os gritos entusiásticos, que são pouco mais ou menos assim:

- Aí, nhô Chico!!

- Esquenta, minha gente!!

- Bravo, sinhá Gramina!!

- Róda!

- Aferventa!

- Quebra!

- Machuca!

- Eta, mocinha sacudida!

- Rufa, esse pandeiro, seu Tiquinho!

E assim prolonga-se a dança duas e três horas, sem que os dançantes dêem parte de cansados.

O cateretê é o cotillon da roça.

Ao longe ouvem-se sons surdos de tambores, acompanhando umas cantigas monótonas, porém cheias de suave tristeza. É o batuque dos negros das fazendas circunzinhas.

Ali é a venda, onde os vadios em trajes domingueiros discutem os acontecimentos do dia, uns em pé, outros sentados na soleira da porta, e outros encostados ao balcão, por detrád o qual desenha-se um fundo negro de garrafas a figura risonha do taberneiro, brochado em alva camisa e com os pés metidos em lustrosos tamancos.

Na roça, como na cidade, a venda é o ponto de reunião dos ociosos.

A venda da roça, porém, tem uma esfera de atividade comercial mais larga que a dos grandes centros.

É assim que sob o nome de negócio fornece aos fregueses, presuntos, sabonetes, lingüiças, cortes de vestidos, bacalhau, escovas de dentes, carne seca, perfumarias, gravatas, sardinhas de Nantes, etc., etc.

Mais adiante, além do rio, que banha o povoado, pela senda tortuosa do caminho bordado de flores silvestres, desfila uma pequena caravana.

Na frente vem o chefe, trajando calça de riscado, vestuta sobrecasaca preta, colete de veludo cor de vinho com grossa cadeia de relógio, grande chapéu de palha e gravata de chita de salpicos, da qual surgem severos colarinhos, que cobrem-lhe toda a região cervical.

Atrás caminha a consorte.

Ostenta engomado vestido branco com tons anilados, como um pedaço de céu dos trópicos em tarde de trovoada.

O cabelo achata-se-lhe nos temporais, formando pastas, que era o penteado predileto d’então, e vai perder-se no occipital em uma espécie de rodilha, do centro da qual brota virente galho de arruda.

Completam-lhe a toilette vistoso lenço de seda de duas pontas, preso ao pescoço por um alfinete de ouro lavrado e luvas de retrós sem dedos.

Seguem após, três filhas vestidas, com pequenas modificações, pelo mesmo sistema, segurando cada uma o seu lencinho de crivo, dobrado em forma de beiju, e em cujas extremidades, marcados com linha encarnada, figuram versos alusivos e os clássicos corações em chamas, trespassados por duas setas.

O resto da caravana compõe-se de crianças e escravas, e outras pessoas pertencentes à famílias diversas.

Toda essa gente mora distante da vila duas léguas daquelas de beiço, como já não há hoje!

Vieram todos a pé, e, para maior comodidade, caminham descalços, empunhando cada um as meias e os sapatos.

Antes de chegarem à freguesia lavam os pés no rio, sentam-se no macio tapete que a natureza lhes oferece, calçam-se e lá vão para a igreja.

Outra cena, não menos importante, leitores, reclama a nossa atenção.

É aquele carro de boi, que vem acordando os ecos da mata com o seu chiar estridente e monótono seguido de uma fila de cavaleiros, que, a propósito do mais insignificante incidente, riem-se às gargalhadas.

Os que se acham naquele veículo anacrônico, uns de cócoras, outros com as pernas cruzadas, tombando para a frente e para trás, para a direita e para a esquerda, bem como os que montam as pacíficas cavalgaduras são, com pequenas exceções, cariocas do mais puro sangue, cortesãos até à raiz dos cabelos.

Ora, os nossos patrícios da rua do Ouvidor não representam na roça papel muito importante.

O cavalo o mais punga atira-os dentro de um atoleiro.

Basta um simples trote para fazê-los pular um palmo acima do selim, perder os estribos e plantar uma figueira.

Se passam encostados a uma cerca de espinhos, lá se vai o chapéu.

E alguns há até que montam pelo lado direito!

Eis a razão por que todos riem-se às gargalhadas.

Ouçamo-los:

- Ah! Ah! Ah! Ó Alves, tira o freio que o lá se vai o chapéu.

- Deixe-se de graças, tire o seu burro daqui.

- Han, han, han, anda Casaca.

- Ah! Ah! Ah! Promete-lhe dois vinténs, que ele talvez ande mais depressa.

Meus senhores, apertem o passo dos animais que ainda temos que andar légua e meia.

- Esperem, esperem.

- O que é?

- Perdi uma espora.

- E queres achá-la no meio desta escuridão!! Toquem, meus senhores.

- Cuidado com o carro na volta...

- Há perigo, seu Fagundes?

- Não senhora, é um pequeno barranco que há aí adiante.

- Manjericão! Barroso! Anda Pelintra!

- Jesus! Minha Nossa Senhora, Santa Barbara, São Jerônimo!

- Não é nada, mamãi!

- O carro está todo tombado.

- Ui! Ui! Ui!

- Segura-te, menina.

- Não posso, titia, estou escorregando.

- É melhor descermos, seu Fagundes. Desçam, desçam!

- Não é nada, minhas senhoras; fiquem quietas.

- Eu estou só pensando na volta.

- Quem me mandou sair de casa.

- Ah! Ah! Ah!

- Ah! Ah! Ah!

- Ah! Ah! Ah!

- O que foi?

- O que foi?

- O Machadinho foi se meter a galopar, perdeu o equilíbrio... ah! ah! ah! e saiu assim pela cabeça do burro - bufte. Ah! Ah! Ah! Ah!

- Machucou-se, seu Machadinho?

- Não, senhora. O diabo do burro é meio passarinheiro, eu não sabia...

- Ainda falta muito, se Fagundes?

- Daqui a um nadinha estamos lá, minha senhora. Toca esses bois do coice.

Daí a um nadinha com efeito chega o carro com o seu docel de esteiras velhas ao terreiro da matriz, onde o povo se aglomera no meio de cavalos e outros carros.

Os fiéis entram para o templo, cujo interior pintado de branco e todo iluminado, convidaria a alma ao mais religioso recolhimento, si não fora o sussurro que ali reina, e o ganir de quatro cães que andam aos ponta-pés de um lado para outro, provocando o mau humor das beatas.

Conversa-se à vontade.

- Agora é que você chegou?

- Agorinha mesmo.

- Às que horas começa a missa?

- Não tarda.

- Aqui não tem lugar, nhá Benvinda.

- Chegue-se para lá.

- Não chego.

- Xentes, como está você hoje?

- Ela, desde que se casou com um afilhado do sub-delegado, parece que tem o rei na barriga.

- É verdade. Em dantes não era assim.

- Que bem me importa lá o sub-delegado. Eu não como na casa dele!

- A rapaziada da corte, esquecida do papel ridículo que representou no caminho, posta-se na porta que me comunica o altar-mor com a sacristia, e começa a criticar tudo quanto vê e ouve.

- Olha o nariz daquela sirigaita.

- Onde é que ela foi buscar aquela touca de aparar facadas?

- Quanta gente feia, meu Deus!

- Quem será este marreco, que está aqui do lado?

- Tu falas tão alto! O homem pode ouvir!

- É o juiz de paz com toda a certeza.

- Lá chegou a família do Bernardino da chapada.

- A do meio é bem bonitinha.

- Mas é estúpida, como ela só!

Felizmente começa a missa, nuvens de incenso invadem o templo; e meia hora depois todo aquele povo sobe as escadas do altar principal para beijar o Menino Deus, que repousa em leito de rosas, deixando entrever no riso infantil a presciência das dores da cruz.

As luzes do arraial vão-se pouco a pouco apagando.

Ouvem-se apenas ao longe os sons plangentes do batuque, e as estrelas empalidecem no firmamento.

* * * *

O Natal na corte perde o cunho poético, que em ligeiros traços acabei de descrever, e transforma-se em uma festa de barriga.

Por toda a parte anúncios de sarrabulho, de papas à portuguesa, castanhas com vinho verde, e consoadas de bacalhau.

Assanham-se os cortiços.

Bandos de aguadeiros percorrem as ruas da cidade, cantando a cana verde; e o Rio de Janeiro, à semelhança de um verdadeiro boêmio, não se levanta como nos outros dias, porque não se deitou!


(FRANÇA JÚNIOR, Joaquim José da. Folhetins.)

Topo

Jangada Brasil © 2000