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Dezembro 2000
Ano III - nº 28

A ONÇA E O BODE

Ilustração de Marcos JardimExistia, né, naquele tempo da antigüidade, todo mundo falava, tudos bichos. Existia num lugá uma onça; existia noutro lado um bode, um bodinho, né, coitadinho, né. Agora, ele não tinha cômodo, nem um nem outro.

Diz o bode:

- ah, eu vô fazê uma casa. Ele tinha um cavanhaquezinho, né. Vô fazê uma casa. I, vortô, gavô o lugazinho. I a onça já tava uma pantera grande, né. Não tinha casa. I o bode feis e pá dexá prô otro dia i começá o trabaio.

A onça veio:

- Ê qual, eu também quiria uma casa. Dexô aqui uma tábua cortada; quem vai fazê sou eu. Quisso foi deixado e foi no mato i cortô os pau. - Ah, é Deus que ‘stá me ajudano. Ah, meu sinhô meu Deus é muito poderoso, eu vô cubri. Ripô e cubriu.

A onça veio, diz:

- Ó, a coisa é Deus mêmo qui ‘stá me ajudano, também né, não tem nada, eu agora vô cortá o barro pá barreá ela.

Aí, cortô o barro como hoje, o bode quando veio, achô o barro cortado. Mais um num s’incontrava cum o ôtro. Agó quando foi nôtro, ôtro dia, né, ajuntaro se os dois.

O bode quano viu a onça diz:

- Ah, tô perdido, tô cumido dessa veiz, né.

A onça:

- Ó você o que fais aqui, isso é meu.

- Num é, diz o bode, não, é meu porque eu fiz.

Antão diz a onça:

- Então, nóis vamo fazê camaradage. Nóis vamos fazê dois quarto, um prá mim, ôtro prá você, heim, mais ó, abra os olhos, prá nóis morá nóis dois junto, um dia um caça, ôtro dia ôtro caça.

Intão, a onça deu essa proposta:

- Olha, bode, você quano de manhã me vê e eu com treis rugas na testa, abre os olho, que eu ‘stô perigosa, ‘stô nervosa.

Diz o bode:

- Olha onça, olha onça, quano tu me vê, não é, também tremendo meus, meu cavanhaque e ispirrá, abre os olhos.

Ficaro os dois ali caçano, intão a onça foi no mato, foi assim numa floresta e achô um bodão, mais um bode, né, e diz

- ué, mete medo naquele caboclo, vô matá esse bode. Chegô, chegô, pegô o bode, matô e trouxe. Trouxe, chegô:

- Olá, bode, pá você endereitá, limpá este bicho, prá nóis passá a sumana, que dá prá nóis cumê a sumana.

O bode viu aquilo: Ah, num fá, tô perdido, tô morto. Pois eu qui sô um cabrito piqueno, ‘stou junto cum ela, ela matô esse meu companhêro gutarco, que dirá a mim. Ê ê, mais num tem nada, Deus é munto poderoso. Limpô.

Quano cabô aquele negócio, daquela carne, diz a onça:

- Bode, agora é você, heim, que vai caçá, prá nóis comê.

O bode:

- Vô.

E foi andano, passava por tudo quanto era bicho, não fazia caso, e foi indo, e foi indo. Chegô numa floresta, tava uma onça, maió do que aquela ainda. Olhô, disse, tá bom. E o bodinho, então puxa, puxa com as patazinhas, tinha uma rachada, engastava a unha naqueles cipó, puxava e cortava com o dente.

A onça:
- Ó bode, o que que tu tá fazêno aí. - Ah, vô me inforcá. - Mais porque, qual é o motivo qui vai se inforcá. - Vô mi inforcá porque o mundo vai se acabá, como é que eu não hei de me inforcá.

Diz a onça, diz:

- Eu tamem tenho tanto medo do acabamento do mundo; quem vai se inforcá sou eu. Pois qui inforcá, que eu tamem vô mi inforcá. Subiu num galho, cortô o cipó, cum fôrça, atirô-se lá em baxo, morreu.

O bode virificô, o bode virificô, que estava morta; diz:

- Agora atô feito. Chegô na cabana onde eles estava, né.

- Ó onça, olá, heim, eu não pude carregá, vai lá buscá uma caçada qui eu fiz, eu quero ela aqui hoje. A onça foi e chegô lá e incontrô aquele bichão, parcêra dela, morta.

- Ô, caramba, mais aquele bichinho, que dirá a mim. Ah, sô obrigada a levá. Feis ali todo jeito qui arrastô aquele bichão e poi-se a picá aquele negócio, mais cum medo do bode, olhando pra testa do bode.

Porque o bode diz:

- Quano tivé rusgas na testa e ispirrá, abre o olho, heim. E ia ispiano, com os olhos assim, na testa do bode, no cavanhaque, ah. Feiz o serviço, feiz o serviço. Intão, fecharo o quarto, tinha uma frestazinha que um olhava prô ôtro e comendo.

Chegava na hora da refeição deles, iam comê, um olhava prô ôtro. O bode olhava prá testa da onça se tinha rusga, não é, e a onça olhava pô bigode do bode se o cavanhaque estava tremendo.

Pá corrê, né. Jantaro, armoçaro, o bode encostô-se assim contra a porta e a onça lá. Nessa casião que o bode, tava adormeceno né, entra um amiguinha, um bichinho, um mosquito no nariz do bode, o bode repiô aquele bigode e fez: Bé, bé. Ah, bá, a onça intão meteu a cabeça pá fora e um tá correno atrais do ôtro até hoje.


(Estória de João Alfaias. In LIMA, Rossini Tavares de (e outros). O folclore do litoral norte de São Paulo)

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