Dezembro
2000
Ano III - nº 28 |
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O COMPADRE RICO E
O COMPADRE POBRE |
Um homem
era muito pobre, casado, com muitos filhos, tendo um compadre que era podre de rico.
Então o tal homem era preguiçoso, que uma cousa era ver e outra contar. A mulher
dizia-lhe:
- Marido, vá trabalhar. Vá pocurar a vida.
- Eu não. - respondia o sujeito.- O que tiver que ser meu às minhas mãos há de vir.
E ia pelas ruas malandrear, bebendo cachaça. Um dia, ele pegou na rede foi para omato,
arnou-a e deitou-se, a fim de dormir à vontade do corpo. Pegando no sono, sonhou que
Nossa Senhora chegou junto da rede e lhe deu um cacho de bananas, que quanto mais banana
se lhe tirava, mais banana nascia, recomendando:
- Não passe com esse cacho de bananas pela casa do compadre rico.
Aí, ele acordou, e, abrindo os olhos, viu um cacho de bananas perto da rede. Para
experimentar se era como Nossa Senhora lhe dissera no sonho, tirou uma banana e comeu.
Nasceu logo outra. Tirou uma porção d ebananas e outras foram nascendo imediatamente,
ficando o cacho perfeitinho. Muito contente, exclamou:
- Olhe! Eu não disse que o que for meu às minhas mãos há de vir?!...
desatou a rede mais que depressa e correu para casa. Passando pela do compadre rico, sem
se importar com a recomendação de Nossa Senhora, ao chegar-lhe à porta, gritou:
- Meu compadre, estou rico!
- Já vem você com as suas maluquices para cá, seu bêbedo, seu preguiçoso?
- Não é não, meu compadre. Quer ver? Olhe. Este cacho de bananasm quanto mais banana a
gente tira dele, mais banana nasce.
- Pois eu quero ver isso, tornou o compadre rico.
O homem tirou uma banana, nasceu outra; tirou uma, nasceu outra; tirou uma, nasceu outra.
Então o rico começou a conversar com ele e a dar-lhe bebida. Quando o pobre do homem
ficou tonto, que caiu no sono, ele pegou no cacho de bananas, guardou, e mandou ver outro
na despensa, botando no lugar. Quando acabou de curtir a cachaça, o sujeito apanhou o
cacho de bananas e foi-se embora. Chegando perto de casa, gritou:
- Minha mulher! Minha mulher! Estamos ricos!
- Venha, - respondeu-lhe ela zangada - venha para casa com as suas besteiras! Ainda bem
que eu hoje estou com os meus azeites...
- Olhe, - disse arriando o cacho, - a gente tira uma banana deste cacho e nasce outra
logo.
Os meninos aí caíram e comeram as bananas todinhas, não nascendo uma só. A mulher foi
em cima dele com um pau, que foi pancada de criar bicho.
No outro dia, o homem saiu, indo outra vez armar a rede no mato. Sonhou ter Nossa Senhora
lhe dado uma toalha, que quando se estendia na mesa, dizendo - pôe-te, mesa -, apareciam
comidas de todas as versidades. Tornou Nossa Senhora a lhe recomendar que não
passasse pela casa do compadre rico. Porém ele passou, fazendo a mesma presepada que fez
com o cacho de bananas. O compadre embriagou-o, trocou-lhe a toalha e ficou bem de seu.
Chegando em casa com um berreiro muito grande, estendeu a toalha da mesa começando: -
põe-te, mesa... põe-te, mesa... Qual põe-te, mesa, qual nada, meu senhor. Não apareceu
nem um carocinho de farinha. A mulher coou em cima dele, de cacete, que fez-lhe a festa.
Quando foi no terceiro dia, ele tornou a ir armar a sua rede no mato e Nossa Senhora
deu-lhe uma bolsa cheia de dinheiro. Quanto mais dinheiro se tirava, mais dinheiro
aparecia. Não se importou ainda com a recomendação de Nossa Senhora, passando pela casa
do compadre rico que lhe trocou a bolsa, como trocara o cacho de bananas e a toalha.
Chegando em casa, já se sabe, a bolsa estava limpinha, tornando a ir dormir.
Finalmente, no quarto dia, tornando a ir dormir no mato, não teve sonho. Quando acordou,
lamentando Nossa Senhora não ter lhe dado nada, levantou-se, espreguiçou-se, desatou a
rede, abaixou-se e apanhou o chapéu que estava no chão. Quando foi botando o chapéu na
cabeça, tinha um chicote de couro, bem fino e bem ensebado, enroladinho dentro, que foi
desenrolando-se e caindo em cima dele, dando-lhe lambroadas a torto e a direito, por todas
as partes do corpo. Quando já estava mole de tanto apanhar, lembrou-se de dizer:
- Bastam chicote!...
O chicote aí enrolou-se entrando para o fundo do chapéu. O homem correu mais que
depressa para a casa do compadre rico que, mal o bispou ao longe, foi logo gritando, já
muito alegre, pensando engzopá-lo mais uma vez:
- Oh, meu compadre, o que é que temos hoje de novo?
- Hoje, - respondeu-lhe o sujeito, - temos uma coisa muito boa, aqui dentro deste chapéu.
Foi dizendo isso e botando o chapéu na cabeça do compadre. O chicote desenrolou-se,
caindo na cacunda dele, que não brincou: - lépote, lépote, lépote... O
homem abriu o eco, berrando mais do que bode:
- Me acuda, compadre... me acuda...
E o chicote comendo-lhe o couro. Quando o pobre viu que o compadre estava bem esfregado,
disse-lhe que só mandava o chicote parar se ele botasse para ali, naquele momento, o seu
cacho de bananas, a sua toalha e a sua bolsa. Mais que depressa, o rico mandou buscar tudo
e entregou ao compadre. Então, este disse:
- Basta, chicote.
Foi que o chicote deixou o rico tomar fôlego. Também, ele estava com o corpo moído, que
fazia pena.
Chegando em casa sem dizer palavra, foi botando o chapéu na cabeça da mulher e o chicote
foi-se desenrolando e caindo-lhe do lombo com vontade. Ela botou a boca no mundo, - auê...
auê... - gritando pelo rei de França. O marido aí lhe disse:
- Isto é em paga das cacetadas que você me deu.
Quando viu que a mulher estava bem convidada, mandou o chicote parar. Então foi viver
descansado, com o seu cacho de bananas, a sua toalha e a sua bolsa.
(MAGALHÃES, Basílio de. O folclore no Brasil) |
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