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Dezembro 2000
Ano III - nº 28

O QUILOMBO

O quilombo ou dança do quilombos tem sido considerado como um auto característico das Alagoas e como sobrevivência do acontecimento histórico dos Quilombos dos Palmares que a partir dos meados do século XVII se estabeleceram em terras da comarca das Alagoas, então pertencente à capitania de Pernambuco, mais particularmente na serra da Barriga, no local onde hoje se situa a cidade de União dos Palmares.

A investigação dos últimos anos, todavia, tende a considerar o auto como uma adaptação local ou "re-interpretação", de origem branca e erudita, de autos similares do Brasil e do estrangeiro, como congadas, curumbis, mouriscadas, cabocolinhos, etc... nos quais se digladiam dois partidos: ora mouros e cristãos, ora negros, ora brancos e índios, etc. A verdade é que os brincantes, conquanto nomeiam o seu bringuedo de quilombo, de nenhum modo o legam ao acontecimento histórico da Tróia Negra. Demais, na ribeira do São Francisco, o folguedo tem o nome de cacumbi e em Sergipe é conhecido sob o nome de lambe-sujo, sem qualquer ligação com o sucesso dos Palmares.

Pode ser representado em qualquer época do ano por ocasião de festividades religiosas: festas de padroeiras, festas do Natal etc., mas igualmente como simples entretenimento isolado.

Suas instalações constam de barraca ou rancho de palha de coqueiro ou palmeira, enfeitada de bandeirolas, cercada pelo jardim ou sítio; bananeiras, mamoeiros ou outras árvores da região, transplantadas para o local. Às vezes se constroi, à certa distância, uma paliçada onde se escondem os índios.

Os negros vestem-se de calças curtas de mescla azul e camisetas brancas, sem manga, chapéus de palha de ouricuri (cocos coronata). Pintam o rosto e o corpo de fuligem e empunham foices de madeira como armas de guerra. Os índios vestem tangas, cocares, braceletes, perneiras de pena ou capim, pintam-se de ocre e carregam arcos e flechas. Os reis dos negros e dos caboclos usam trajes reais semelhantes aos dos outros folguedos natalinos (reisados, guerreiros, etc.): calções, manto, blusa de cetim de cor, meias compridas, guarda-peito de espelhos, coroa de ouropel, aljôfar e areia brilhante. Como armas, carregam os reis espadas da antiga Guarda Nacional. A rainha, meninota de dez anos, usa vestido branco, comprido, guarda-peito de espelhos, capa de cetim enfeitada de espiguilha e diadema de papelão pintado. Há ainda como personagens importantes: a Catarina (homem vestido de escrava negra, carregando um boneco nos braços); o Papai Velho, de barbas e cabeleira brancas, com cajado e foice nas mãos; o Espia dos Caboclos, num traje mais rico e vistoso de índio; e o Vigia dos Negros, com chapéu de palha enfeitado de espelhinhos e uma espingarda a tiracolo. O acompanhamento é feito com a orquestrinha típica denominada em Maceió de Esquenta-Mulher e no interior conhecida por este nome e pelos de Zabumba, Terno, ou Terno-de orêia, ou Banda de Pifes (caixa, bombo, pífanos e pratos). [1]

O auto ou dança realiza-se em três etapas ou partes; mas é a última - a Luta e a prisão dos negros, desenvolvida à tarde que constitui a parte espetacular do auto. Isto porque as duas primeiras - o Roubo e o Batuque, realizados na noite da véspera, e o Resgate, na manhã do dia da festa, são privativas dos brincantes ou apresentam menos que apreciar.

ORoubo é chamado da "liberdade" porque os negros têm a devida licença para o saque (confronte-se a tradição com a usança registrada por Luís da Câmara Cascudo - A noite do furto tradicional), permitido e fiscalizado pelas autoridades policiais da localidade. Carregam, então, de comum acordo com os próprios donos, para seu rancho de palha, os mais variados objetos que conservam em seu poder até o dia seguinte, quando serão resgatados.

Após o saque, os negros levam o resto da noite a batucar, ao som do "Esquenta-Mulher", cantando sobretudo as coplas tradicionais:

Folga negro,
Branca não vem cá;
Si viê,
Pau é de levá.

Tiririca,
Faca é de cortá;
Folga parente,
Caboco não é gente.

Já madrugada é que comem a panelada (cozido de carne de boi, com osso de tutano, verduras, etc., servido com pirão escaldado ou coberto, de farinha de mandioca) que levou toda a noite a cozinhar no rancho e adjacências.

O Resgate, pela manhã, consiste na devolução dos objetos roubados pelos negros, aos próprios donos, mediante pequena espórtula.

Uma vez terminado o resgate, o rei dos negros vai buscar a rainha ao som do "Esquenta-Mulher". E entre danças e flores é conduzida ao trono (cadeira colocada no fundo do Rancho dos negros), a cuja frente continuam as danças dos negros até hora do almoço, quando o grupo se dispersa. À tarde, voltam os negros, após haverem visitado (seguidos aliás pelos caboclos que lhes repetem as manobras) a capela ou igreja mais próxima onde se prosternam e fazem evoluções.

Em seguida dirigem-se os negros para o Sítio e os índios para sua paliçada.

Inicia-se, então, o episódio das Lutas e do Roubo da Rainha. Ao tempo em que, no rancho dos negros, recomeça o batuque, agora somente dançando, sem cantos, ao som do "Esquenta-Mulher", os caboclos começam sua marcha em busca dos negros, ora avançando, ora recuando, escondendo-se nas moitas de mato e na folhagem do "sítio", cheirando e escutando o chão, marchando na ponta dos pés, dançando o Toré que a orquestra de pífanos ataca alternadamente com o "Folga Negro".

Avisados por seu vigia, saem os negros de sua palhoça, em grande alarido, para enfrentar o inimigo. Trava-se, então, uma série de combates simulados, quase um bailado mímico, em que os reis negro e índio esgrimam espadas e os demais imitam a luta com seus arcos e flechas, suas foices de madeira, volteando, saltando, correndo, recuando, sempre ao ritmo das duas musiquetas.

Depois de vários embates, os caboclos são repelidos e debandam. Mas não desistem do intento de subjugar os negros. Mandam o Espia de Índio colocar em frente do rancho uma garrafa de jurema que é descoberta pelos negros e que por eles bebida, os faz cair ao chão adormecidos.

Aproveitam-se os caboclos da oportunidade e capturam a rainha que é levada ao seu abrigo ou paliçada.

Despertando no rancho, os negros dão pela falta de sua rainha e saem novamente a combater os caboclos que reaparecem em frente ao Sítio. Nesse meio tempo o Papai Velho e a Catirina, burlando a vigilância dos caboclos conseguem reaver a rainha que volta ao seu trono, no mocambo dos negros. Ao regressar do combate, sabe o rei do índios que a rainha branca foi recapturada. Volta imediatamente ao combate, cada vez mais encarniçado. E já quando vai caindo a tarde, os ataques do rei do caboclos se fazem mais insistentes e perigosos, ao passo que mais rápido se torna o andamento das músicas do Folga Negro e do Dá-lhe Toré. Como um leão acuado, o rei dos negros defende-se valentemente até que um golpe no peito esquerdo o fere de morte. O rei dos Caboclos enguiça-o, isto é, passa-lhe por cima do corpo, e os negros refugiam-se no reduto, enquanto a rainha sai a tirar esmola para o enterro do defunto marido.

Nesse ínterim, porém, o rei dos caboclos ressuscita o rei dos negros, fazendo-o cheirar uma folha de jurema (ou de qualquer outro mato em seu lugar) e logo reiniciam-se os combates que agora serão breves e terminam pela prisão do rei dos negros. Espoucam foguetes, fogem e debandam os negros, a meninada cobre de vaias os vencidos e os caboclos vitoriosos aprisionam e amarram os negros que são vendidos aos assistentes. Igualmente é presa a rainha que é geralmente vendida ou resgatada por um dos maiorais, presentes à festa.

E entre choros, súplicas, gaiatices e gatimônias dos cativos, especialmente do Papai Velho e da Catirina, termina o auto ou melhor o bailado dos quilombos.


[1]. A denominação de "Esquenta-Mulher" para a bandinha de pífanos foi dada pelo saudoso Major Bonifácio, de Bebedouro, devendo-se presumivelmente ao fato de agitar, de animar a bandinha, com suas marchas, tangos e chotes, o elenco feminino que participava ou assistia às festas de que era elemento indispensável.


(BRANDÃO, Theo. Folguedos natalinos de Alagoas.)

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