Dezembro
2000
Ano III - nº 28 |
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Noite de sábado.
O comércio a retalho fecha vagarosamente. Um negociante esperando que o vizinho cerre
também suas portas na ganância do último tostão para a gaveta. Ruas de Santo Antônio
entristecendo e lampiões sendo apagados. Caixeiros em grupos nas calçadas, alguns ainda
enfiando os paletós e pondo as gravatas, antegozam o dia de vadiação do próximo
domingo. E de um deles sai a pergunta costumada, infalível:
- Vocês vão hoje ao pastoril?
- De onde?
- Da Encruzilhada?
- Não. Eu vou ao da Torre.
- Pois eu, não. Prefiro o de Erotides. Dança Xanduzinha, de mestra.
- E no da Volta da Torre, Argentina é a contra.
- Isso é bom para você que é do azul.
- Está visto. Morro com ele...
- E eu com o encarnado.
- Não vão brigar logo daqui!
Tomam uns o bonde que lhe serve e que ao passo manso dos burros vem de dentro do Recife e
segue para o arrabalde. Outros rapazes dirigem-se à rua da Aurora para pegar o trem das
nove e meia para Olinda.
Na Recife de outrora, sem cinemas nem futebol, o pastoril constituía o divertimento do
gosto da gente nova. E da velha também. Pessoal fino e pessoal do pé no chão. Todos os
sábados, desde outubro a janeiro, havia funções animadíssimas. Em vários subúrbios,
destacando-se, porém, os da Torre e Encruzilhada, este sob a direção de um mulato
chamado Erotides que dançava de velho e era de famoso
renome.
Os pastoris davam que falar a semana inteira e provocavam tanto entusiasmo que degenerava
em desaforos, agressões, inimizades e taponas. Tal e qual como nos prélios esportivos da
atualidade.
Quer as maxambombas, quer os bondes tinham que fazer nas noites de sábados. E despejavam
aquela multidão às portas de uns barracões de lona ou de madeira enfeitados de
bandeiras e iluminados a acetilene. Em frente alinhavam-se tabuleiros de bolos, fogareiros
fritando peixes, barris com geladas de abacaxis, baús de empadas de camarão,
barraquinhas vendendo cervejas, café e aguardente. A fumaça do candeeiros a carbureto
invadia as narinas sufocando e cheirando mal. Na bilheteria os braços estendiam-se
portinhola a dentro pedido o ingresso.
Paravam carros trazendo famílias lordes ou moços de dinheiro. Corriam pelas bocas dos
assistentes os nomes famosos desses rapazes, quase sempre estróinas e rezingueiros. Eram
temidos pelos barulhos que provocavam, desafiando a polícia, quebrando cadeiras, puxando
pistolas, arrebatando pastoras e indo depois para casa muito tranqüilamente. Mesmo porque
os pais, no outro dia, pagavam os estragos. Houve alguns desses valentes célebres, na
época, com façanhas não menos famigeradas. E alguns acabaram como era natural que
acabassem.
O interior do barracões mostrava-se catita com os seus festões de palha de coqueiros,
galhardetes de papel de seda, folhas de canela no piso, balõezinhos de gomos coloridos. A
platéia era formada de cadeiras, bancos, tamboretes, mandados levar de casa ou oferecidos
pela empresa. Aos lados, divisões de chita para as famílias: os camarotes. Custavam
5$000 cada um. Arregaços de rosas de pano. Focos de acetilene no extremo de varas.
De quando em quando uma das pastoras botava a cabeça de fora. Um rostinho pintado, uns
tufos de tarlatana azul ou vermelha nos cabelos, uns dentes à mostra. A assistência,
reconhecendo-a, pronunciava-lhe o nome:
- É Albertina...
- A segunda do encarnado...
- Aquilo dança que faz gosto.
- E a voz! Tem uma graça quando canta o
Correi, pastorinhas,Vamos a Belém...
- Para você tudo do encarnado é uma beleza! Ela
está longe de ter o jeito da Libertina.
- Quem? Aquela lambisgóia, uma magricela! Parece uma vassoura...
Sai um muxoxo desdenhoso. Revidam com uma ironia:
- E a segunda um botijão...
- Uma terceira voz:
- Minha gente, deixem a arenga para quando começar o pastoril.
Casa cheia. Animação grossa em perspectiva. Mal se podia romper aquele povão.
Burburinho de vozes, de risos, de amuos, de queixas, de suspiros de calor, de vaias, de
protestos pela demora. Tosses espirros, choros, assovios. Os instrumentos da orquestra
afinavam-se. Notas estridentes de pistons, notas graves dos trombones, estardalhaços dos
ganzás, gemidos de um violino.
Via-se de tudo ali. Matronas e mocinhas em trajes leves, sem chapéus, vindas das
redondezas. Senhores de aspectos severos ou mansos, gostando de recordar os pastoris
"do seu tempo", desculpas para virem mirar as pernas das pastoras de agora.
Rapazes gamenhos, cheirando a Couer de Jeanete ou Trèfle incarnat, exibindo
o terno novo, de flor no peito; mulatinhas de vestidos de chita, falas dengosas, cabelos
lustrosos de Oriza ou de banha de jasmins; crioulas de gaforinhas sobrando dos chapéus
desabados e cacetes nas mãos; oficiais da Guarda Nacional irradiando marcialidade
enquanto não se formasse um anguzô qualquer com
tiros e tabicadas.
O subdelegado comparecia cedo, de feltro acabanado, andar gingador, olhar duro, bengala de
volta, seguido de duas ou três ordenanças de quepes de banda e compridos refles.
Quase dez horas. Impaciência geral. Reclamações, berros, sapateados.
- Essa joça não principeia, não?
- Está parecida com as obras do porto...
- Ou com o bonde elétrico para Olinda...
- Vai com isso!
- Eu já vou lá dentro meter o porrete nessas pastoras!
Uma velha surge no tablado e suplica:
- Aqueta minha gente. As meninas estão-se vestindo...
- Sai daí, Marocas Boca de Mulambo!
Por fim a orquestra rompe a primeira jornada. Os cordões aparecem em cena. Duas filas que
se defrontam de mulheres mais ou menos selecionadas pela boniteza, pelo bem-feito do
corpo, pela graça dos manejos, pela doçura da voz. Vêm todas de saias de cetim ou
cetineta, bem rodadas, pernas de fora, corpetes justos, braços nus, laços de fitas, uma
espécie de coroa nos cabelos e pandeiros nas mãos. De um lado, todas de azul; de outro
lado, todas de encarnado. No centro, a Diana, de traje metade azul metade vermelho.
Entram num passo de dança e cantam em coro:
Boa noite, meus senhores,
Viemos cumprimentar,
Que já é chegada a hora
Chegada a hora
Nós queremos
Nós queremos é vadiar...
Voltas e reviravoltas. Mesuras. Requebrados. Sorrisos. Olhares.
Quase todas eram morenas de pele cor de bolo tostado, pernas grossas, cabelos bem pretos,
olhos maliciosos.
Aplausos:
- Viva o azul!
- Bravos da segunda do encarnado!
- É sempre a Mestra!
- Meu coração é para a Diana...
- Ninguém pode com a Contra, minha gente!
A Mestra dirigia o partido rubro; a Contra-Mestra o azul. Há um intervalo. Reencetam as
jornadas. Agora entoam:
Oh! gentileza tão formosa e bela
Eu não sou lírio nem também jasmim...
Das pastorinhas sou a mais querida
Sou a princesa deste pastoril...
Crescia o entusiamo. Fervia. Espumava. Derramava-se por vezes. Provocações,
ameaças, ironias, cacetadas. E não raro uma detonação, uma facada.
- Minha Nossa Senhora, matou!
Ouvia-se o grito alarmante. Havia um homem no chão perdendo sangue e gemendo. Povo em
roda. O subdelegado acudia com as praças.
- Quem foi? Quem foi?
- Sei não... - respondiam quase todos, temendo ser testemunhas.
- Foi um rapaz que fugiu por ali... Um alourado, grangazá, de chapéu de palhinha...
A autoridade corre a vista em roda. Um mais afoito segreda-lhe:
- Eu maldo que quem deu a facada foi o filho mais velho do seu
coronel Totônio. Aquele do sangangu na festa do Poço.
O filho do coronel Totônio que era chefe político num arrabalde. O subdelegado
mudou de atitude e desistiu de perseguir o criminoso. Apenas ordenou às praças:
- Vão chamar a padiola.
Continuava o pastoril. As pastoras extremava-se em agradar, apurando as vozes, enfeitando
os gestos, mostrando os dentes e fazendo valer os contornos dos seus corpos. Uma delas cantara com brejeirice uma cançoneta muito apreciada na época:
Bi ri bi bi. Outra entoara uma valsa dos Sinos de Cornevile, erguendo a saia e
mostrando o começo da coxa:
Olhai... olhai...
Apreciai...
Como isto é bom...
É bom que dói...
Entrava em cena, já pela meia-noite, o pastor. De cajado na mão. Era o pardo Erotides.
Alto, jeitoso, de voz e maneiras efeminadas. Uma ruidosa salva de palmas. Os cordões
cantavam:
Oh que festa! Oh! que festa!
Oh! que festa de amô!
Que já vem chegando
O nosso bom pastô...
E o pastor se anunciava:
Sou pastor, sou fazendeiro,
Morador no Jequiá.
Vim do Rio de Janeiro
Ver meu povo como está...
Prosseguiam as jornadas. E os aplausos.
- O azul no seu palacete e o encarnado comendo cacete.
Réplica:
- O encarnado no meu jardim e o azul comendo capim.
Assim iniciavam-se as novas brigas.
Aparecia também o Velho que dizia graçolas, contava
anedotas, fazia palhaçadas e apregoava, em leilão, flores em favor das pastoras. Uma
rosa para a Mestra, um cravo para a Diana, uma angélica para a terceira do azul, uma
dália para a Libertina...
Os lances alcançavam às vezes preços altos. Bastava estar presente um moço rico
gostando de se mostrar. Iam para as mãos do velho as polegadas de cinqüenta e cem
mil réis, e vinham pelos olhos das homenageadas amorosos agradecimentos.
Depois de certa hora as famílias iam-se retirando. As pastoras, nos intervalos,
misturavam-se cá em baixo com os admiradores. Bebiam cerveja, comiam empadas, fumavam
cigarros. A madrugada vinha chegando.
Um arzinho mais frio. Bocejos, cansaço, saciedade.
No palco a derradeira jornada:
Já raiou a aurora
Resplandece o dia
Vamos companheiras
Com toda alegria...
Os pastoris, quando dançados em casas de famílias, por "mocinhas direitas"
eram denominados presepes ou lapinhas. Tinham outro aspecto, outro encanto, outro sabor.
Realizavam-se em palcos improvisados nos quintais ou em salões. Expediam-se convites:
vinham parentes, vizinhos, amigos.
Punham-se cadeiras como nos teatros diante do tablado que recebia caprichosa
ornamentação, às vezes mesmo com luxo e com arte. Ao fundo ficava a lapinha com o
Menino Jesus na manjedoura, os reis magos, os rebanhos, pastores... Um grande arco de
folhagem em armação de arame, enfeitado de flores naturais ou de papel. Balõezinhos,
velinhas de cores, miçangas.
As pastoras eram meninotas ou mesmo mocinhas dos seus 13 para 20 anos. Estas, aliás,
tinham mais apreciadores. Bem ensaiadas, bem vestidas, bem entoadas. E com um certo
requinte de graciosidade, de desembaraço, de chiste. Quando não fossem tipos de muita
beleza.
Esses presepes fizeram época. Alvoroçaram milhares de rapazes, ocasionaram infinitos
namoros, resultaram esplêndidos casamentos. Apaixonamentos por uma Mestra,
por uma "segunda do azul", por uma Borboleta, levaram essas lindas
pastoras ao Palácio do Bispo ou à capela do Pritaneu num vistoso cortejo de carros
cheirando a cravos... Os moços poetas escreviam versos para ser recitados ou cantados
pelas suas preferidas. Os partidos azul e encarnado despertavam entusiasmo, delírios
fascinações. E também amores desdenhados que faziam os corações sangrar...
As funções prolongavam-se por toda a época da Festa. Setembro a fevereiro. Aos
sábados. Depois da última jornada havia ceia. Na noite de Reis era o queima.
Noite bonita, emotiva, mas triste, mas saudosa.
Iam desfilando as jornadas. Entremeavam-se cançonetas. A Mestra, uma lourinha alvoroçada
e ágil, entoava o Pela janela:
Perto dos céus com os passarinhos
Habito um quarto alegremente;
Pela manhã com mil carinhos
Vem dar-me o sol um beijo ardente...
A Contra-Mestra, de um moreno-mel, menos esfuziante, porém, toda graça, cantava a
modinha sentimental Adalgisa:
Acorda Adalgisa
Que a noite desliza
Vem ver o luar...
E a Diana, uma endemoniada pequena da rua do Hospício, verdadeiro corropio de namoros,
punha a platéia em risos com os versos gaiatos do Meu bem estou cortado aí? ou do
Coió sem sorte.
Havia uma jornada de música mais movimentada, de uma gesticulacão ritmada, de uma
airosidade especial que, bem ensaiada, punha a assistência em fogo de entusiasmos. Quando
os cordões em coro entoavam:
Quá... quá... quá...
Tira o leque da cintura
Deixe a gente se abanar...
Todas as pastoras, num só gesto puxaram das faixas de seda uns leques de papel,
abriam-nos de golpe e prosseguiam na dança abanando-se com faceirice.
Era sempre um número de sucesso.
Já madrugada saía a lapinha para o queima. Senhoras da casa
destacavam do presepe o arco de folhagem já seco e ele era carregado pelas pastoras até
o pátio da igreja mais próxima. Um cortejo interessante, um acompanhamento vultoso.
O sereno também se incorporava. Pelas ruas desertas abriam-se janelas e surdiam
caras sonolentas. Ladravam cães de sítios, investindo as grades. E muitas vozes cantavam
melancólicas, saudosamente:
A nossa lapinha
Já vai se queimar
E nós, pastorinhas,
Estamos a chorar.
Queimemos, queimemos,
A nossa lapinha...
Levavam balõezinhos acesos de bojos multicores. A orquestra fechava o préstito
executando a conhecida toada do queima. E afinal no adro da igreja o fogo consumia a
lapinha. Estalidos de folhas secas. Linguados de chamas. Rolos de fumaça. E as pastoras,
dançando em volta:
A nossa lapinha
Já toda queimou
Até para o ano
Se nós vivas formos...
(SETTE, Mário. Maxambombas e maracatus) |
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