Dezembro
2000
Ano III - nº 28 |
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Em 22 de
dezembro tivemos de deambular por duas horas pela encosta de um longo dorso de montanha
coberta de velósias até acharmos um vau no riacho que nos separava dos campos monótonos
e das elevações montuosas, depois das quais fica o engenho de São Sebastião. Ali
chegamos tão exaustos do calor sufocante que uma bandeja com frutas e legumes que uma
negra me deu, em nome da proprietária, foi um presente tão agradável como jamais
julgava ter recebido em minha vida. Mais tarde, apareceu o dono da casa, capitão
Pasqualho e, com um prato de uvas na mão, me deu as boas-vindas. Fiquei sabendo, depois,
que não só era um homem hospitaleiro, como um dos mais esforçados agricultores da
região. O seu engenho de açúcar, embora não se compare com os maiores do país, como,
por exemplo, o das cercanias do Rio de Janeiro, da Bahia, etc., figura entre os maiores da
província de Goiás. Os pequenos, que surgiram em grande quantidade graças à isenção
de impostos por dez anos, desapareceram rapidamente, em grande parte, por falta de
escravos; e, apesar de serem simples povoados, continuam a ser chamados engenhos. É de
madeira, mas sólido e bem construído. As moendas são movimentadas por uma roda
dágua, a qual, quando não mói cana, serve para moer milho. Aqui fiquei conhecendo
bem como se cultiva e se beneficia tanto o milho como a mandioca.
Em todo o Brasil se cultiva com proveito o milho, pois que não só serve, em grão, para
forragem do gado como, moído, é utilizado na alimentação humana. No solo adubado de
carbone das matas queimadas dá boas colheitas e calcula-se, em muitas regiões, que
reproduz trezentas vezes a quantidade semeada. Contudo, isso se refere somente à colheita
do primeiro ano; no segundo já é menor e no terceiro o solo ordinariamente está em
parte esgotado e em parte tão estragado por uma erva compacta, gorda, e fétida, de
rápido crescimento (Melinis minutiflora, pal. de Beauv.) que a plantação é
desfeita e passa a chamar-se catingera. Entre as variedades de milho, distinguem-se
especialmente duas, uma precoce, que amadurece em, cinco meses, a outra, porém, em seis
meses.
Para transformar o milho em farinha, molha-se e descasca-se o grão, pila-se, com adição
de água, mexe-se a fogo lento numa frigideira de cobre ou (como é costume em Goiás)
sobre uma chapa de xisto quartzífero e passa-se pela peneira. Chama-se farinha de
milho a farinha grosseira que se obtém por esse processo e é usada, sem mais
preparo, em lugar do pão. A farinha mais fina, moída em moinho, chama-se fubá e,
escaldada em água quente, angu. De uma mistura de fubá e farinha de trigo se
prepara, especialmente no interior do país, uma espécie de pão que é quebradiço e
indigesto.
A mandioca, o segundo sucedâneo do pão neste país, é uma planta que deita, debaixo da
terra, tubérculos da grossura de um braço e de um pé de comprimento. Na minha opinião
é o Brasil, e não a África, como até agora se tem admitido, a pátria da mandioca. Ali
não ocorre uma só espécie em estado silvestre; e grande é o número de variedades de
mandioca que dei a conhecer em minha obra sobre botânica, ficando, entretanto, longe de
esgotá-las. Duas espécies, uma das quais com diversas variedades, são preferencialmente
cultivadas. São elas a mandioca (Manihot utilissima) e o aipim (Manihot aipi).
Os botânicos consideravam ambas como uma e mesma espécie, mas são tão diferentes,
que
qualquer selvagem as distingue imediatamente. Os sinais distintivos são, além das
folhas, o suco venenoso que é peculiar à Manihot utilissima. Ambas as espécies
são mais cultivadas no sul do que no norte. O plantio, embora se possa fazer em qualquer
estação do ano, ocorre ordinariamente de maio a junho, por meio de estacas que têm dois
a três olhos. Enfolham-se rapidamente, mas, para medrarem, requerem um solo forte e
cuidadosa monda. Quando a jovem planta atinge um pé de altura, são quebrados os renovos
laterais e, um ano depois ela alcança a altura de cinco pés, é cortada rente com a
terra e transplantada. Entretanto, os tubérculos para amadurecerem, necessitam ficar mais
dois meses debaixo da terra e então, como apodrecem facilmente, são arrancados, não
todos de uma vez, mas em quantidades que possam ser logo beneficiadas.
Prepara-se a farinha da maneira seguinte: as raízes, lavadas e raspadas, são raladas num
cilindro de quatro polegadas de comprimento coberto por um ralo de folha-de-flandres,
espremidas dentro de um saco numa prensa, para separar o suco venenoso e depois torradas
como o milho, ou mais ainda, se se deseja farinha inteiramente seca (farinha de pão
ou farinha de mandioca), que se conserva durante um ano. Come-se a farinha pura, em
lugar do pão, mas às vezes também se cozinha ou escalda e nesse caso se chama pirão.
Fabrica-se com ela, também, um mau pão (chamado beiju). Produto mais fino é a tapioca,
um artigo estimado, corrente, que se obtém com repetidos prensamentos, dissolução em
água fria e nova tostadura.
O capitão Pasqualho teve a amabilidade de informar-me sobre os demais ramos de sua
atividade. Para a clarificação do açúcar serve-se ele da cal tão pouco como qualquer
outro dono de engenho no Brasil, mas antes de cinza, em forma de barrela, que é deitada
no caldo de cana fervente. Muitas de suas manipulações deixam a desejar. Assim é que se
serve de enormes alambiques, que consomem lenha, para produzir a aguardente de cana (do
resíduo da cana de açúcar, chamado cachaça) e não sabe tirar o nauseante
ressaibo dessa bebida embriagante. - Ele também produz grande quantidade de carne seca,
cujo preparo dá pouco trabalho. Abate-se o animal e a carne, em mantas de uma polegada de
espessura, é salgada, e exposta por três dias, à ação do ar e do sol. Com isso está
o trabalho acabado e a carne em condições de conservar-se por vários meses. Esta carne
seca tem aparência desagradável e gosto insípido. Na horta do engenho encontrei couve e
alface, de folhas isoladas, pepinos, cebolas, aipo, salsa, flor-de-verão, balsâmica, Rosa
semper florens (a única roseira cultivada em todo o país). Diferentes variedades de
pimenta turca, Capsicum annuum (aqui chamada pimenta), ananás, bananas, laranjas,
limões, uvas, rícino, macela, cará (Dioscorea sativa), etc.
Despedi-me do capitão no dia seguinte, cerca de meio-dia, e observei com prazer que o seu
cuidado em desenvolver tudo o que é útil se estendia também para além da sua morada.
Uma bem construída ponte de madeira sobre o próximo riacho e uma larga estrada que,
sobre a serra limítrofe, levava a Santa Luzia, eram ambas obras suas e provavam o seu
interesse pela região. Durante certo trecho pode ser chamada de bela. Semelha, com os
seus arbustos, a um grande parque. E tanto mais desagradável e selvagem se mostra a
planície dos campos a seguir, embora aqui também não falte vegetação. Em toda parte
se avistam árvores baixas, quáleas, salvértias, cesalpinas, begônias, cássias,
gônfias, mimosas, voquisiáceas e ingás envoltas em plantas parasitas. No riacho raso
denominado Córrego Vermelho, que desce ao sul de Santa Luzia, descobrimos, em colinas
amontoadas de pedras e terra vermelha os restos de uma antiga exploração de ouro,
chamada Lavras, a qual, por improdutiva, não é mais trabalhada.
(POHL, Johann Emanuel. Viagem no interior do Brasil; empreendida nos anos de 1817 a
1821.) |
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