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Dezembro 2000
Ano III - nº 28

AUTO DA LAPINHA - SÉTIMA JORNADA

1º Canto
Morte da Contra-Mestra.


A Contra-Mestra vai à lapinha e retira Menino Deus.


Em seguida chega a Mestra com uma espada na mão e canta;


Por estes campos,
Por estes campos,
Por estes campos,
Venho brigar.


A Contra-Mestra, com o Menino nos braços, responde cantando:


Mas o Menino,
Mas o Menino,
Mas o Menino,
Não hei de entregar.


A Mestra diz para a Contra-Mestra:


Hermínia, sabes que morres?
Sabes que perdes a vida?


A Contra-Mestra responde:


A vida por Deus é dada,
Por ele mesmo é tirada.


A Mestra retruca:


Na ponta da minha espada?


Chega a Libertina que põe a mão no ombro da Contra-Mestra e diz:


Sou eu, a amiga leal
Que não vos quero faltar.
Com risco da própria vida
Eu vos quero acompanhar.


A Contra-Mestra responde:


Ide, ide, retirai-os já:


A Libertina replica:


Eu vou com muito pesar,
Pois não sei quem vencerá.


Chega a Camponesa e diz:


Eu não me importo com isto,
Já pode o sangue correr
Como não quero ser contra
Nem pra matar ou morrer,
Eu já me vou retirar.


A Mestra crava o punhal no peito da Contra-Mestra e esta diz:


Ai! Que grande dor!
Grande dor é a da morte!


A Diana aproxima-se e diz:


Florinda! Florinda! Cruel!
Mataste Hermínia
Uma pastora fiel!
Vinde, pastoras,
Vinde todas,
Ajudar Hermínia a morrer.


Chegam todas as pastoras com a mão direita na testa em sinal de dor e formam uma roda em torno da Contra-Mestra, cantando:


Companheiras, botem luto,
Botem luto
Que a Contra-Mestra morreu.
Enquanto ela foi viva,
A linda Mestra,
A linda Mestra,
Não venceu.


A Diana diz aproximando-se da Mestra:


Estou chegando espantada
Desta vil cena de horrores,
Que faz tremer céu e terra
Grande aflição nos pastores!


És tu, Florinda, a culpada
De tão cruel traição?
Cravaste o terrível ferro
De Hermínia no coração?


A Camponesa aproxima-se da Contra-Mestra, tira-lhe o pano tinto de sangue que está no seu peito e mostra-o aos circunstantes.


Em seguida a Camponesa canta:


Quem se acha presente
Que veja o sangue desta inocente,
Desta inocente
Que hoje foi derramado
Ai! por um Deus,
Ai! por um Deus,
Onipotente.


A Mestra, mostrando-se arrependida, ajoelha-se junto à lapinha e diz:


Jesus, Meu Deus,
Que fiz eu?
Matei aminha amiga
Nesta grande ocasião.
Mas foi pelo Deus Menino
Portador da redenção!


Aparece, então, o Anjo que pega nas mãos da Contra-Mestra e diz:


Eu sou o lindo Anjo
Que venho do Oriente,
Salvar a Contra-Mestra
Porque morreu inocente,
Pelo Deus Onipotente.
Levanta-te, Hermínia, e ora
Que já vem a luz da aurora.


A Contra-Mestra levanta-se e diz:


Lindo Anjo, eu não morri
Pois bem viva aqui estou!
Eu quero abraçar a Mestra
A quem Jesus perdoou.


Abraçam-se a Mestra e a Contra-Mestra.



2º Canto
Desafio dos Cordões

Todas as pastoras dançam e só o Cordão Azul canta:


Estrela do Norte,
Cruzeiro do Sul,
Viva quem dá bravos
Ao Cordão Azul,


O Cordão Encarnado canta:


Estrela do Norte,
O céu estrelado,
Viva quem dá bravos
Ao Cordão Encarnado.


O Cordão Azul canta:


O ligeiro vento
Perpassando ao Sul
Ouço dando bravos
Ao Cordão Azul.


O Cordão Encarnado canta:


Quando chega a tarde
E o sol desaparece,
Cordão Encarnado
É quem resplandece.


Canta o Azul:


O Cordão Azul
Quando vem surgindo,
Parece uma estrela
Que nos vem sorrindo.


Canta o Encarnado:


O gorjeio da ave
No seu vôo alado
Somente dá bravos
Ao cordão Encarnado.


Canta a Azul:


O Cordão Azul
Tão meigo e singelo,
Entre os mais cordões
Sempre é o mais belo.


Canta o Encarnado:


Lá dos céus a harpa,
Quando se dedilha
Diz que o Encarnado
É quem mais brilha.


Canta o Azul:


Nas formosas tardes,
Sempre perfumosas,
O Cordão Azul
Vale mais que as rosas.


Canta o Encarnado:


Nos encantos ledos
Das manhãs de abril
Cordão encarnado
Sempre é o mais gentil.


Canta o Azul:


O Cordão Azul,
Sempre alvissareiro,
É o cordão mais belo
Deste mundo inteiro.


Canta o Encarnado:


Nas formosas vestes
Que ornam o Senhor,
Cordão Encarnado
Tem mais esplendor.


Canta o Azul:


O Cordão Azul
É o formoso véu
Que cobre as belezas
Do esplendor do céu.


Canta o Encarnado:


Enquanto o Encarnado
De esplendores cresce,
O Cordão Azul
Mal nos aparece.


Canta o Azul:


As saudáveis brisas
Que vem lá do Sul.
Só chegam saudando
O Cordão Azul.


Canta o Encarnado:


Quando é de tarde
E o sol declina,
Cordão Encarnado
É quem ilumina.


Canta o Azul:


Belas companheiras,
Neste festival,
O Cordão Azul
Já não tem rival.


Canta o Encarnado:


Vejam a beleza
Do sol a raiar.
É o encarnado
Que está a dançar.


Canta o Azul:


Quando a aurora raia
Nas bandas do Sul,
Toda a natureza
Se veste de azul.


Canta o Encarnado:


As implumes aves,
Colibri divinos,
Tangem para enfeites
As coisas azuis.


Azul e Encarnado cantam juntos:


Azul e Encarnado
Podem ser rivais
Mas as pastorinhas
São todas iguais.



3º Canto
Todas a pastoras cantam, dançando e fazendo reverências diante do presépio:


Vivas ao Menino Deus,
Viva, os louvores são seus
Viva com muita alegria,
Viva José e Maria!
Viva a sagrada Família!


Este canto é repetido e entoado terceira vez.



4º Canto
Louvores ao menino.


A Mestra canta:


Louvem, pastorinhas,
Louvem com ternura.
Todo o seu corpinho
É uma formosura.


A Contra-Mestra canta:


Sua formosura
Eu vou descrever
Com letras de ouro
Para se entender.


A Camponesa canta:


Os seus cabelinhos
São flor de ouro
Bem mostra o que é:
Um rico tesouro.


A Libertina canta:


Que linda testinha
Em seu natural,
De um lado e do outro
Toda por igual.


Canta a Diana:


Vejam seus olhinhos
Como são azuis.
Mostram que Ele é
O Menino de Jesus.


A Borboleta canta:


A linda boquinha
Como está sorrindo!
Parece uma rosa
Quando vem abrindo.


O Colibri canta:


Que lindas facinhas!
São dois ramalhetes
Facinhas mimosas!
De jasmim e rosas.


A Pastorinha canta:


Todo o seu corpinho
É uma maravilha
Brilha mais que o sol,
Mais que os astros brilha.



5º Canto
(Este canto é o mesmo - 5º da Sexta jornada, e, como aquele, é executado por todas as pastoras):


Noite mais bela
Que o claro dia.
Nunca tivemos
Tanta alegria.


Fogem as aves
Dos quentes ninhos,
Todas cantando
Pelos caminhos.


O céu se veste
De várias cores,
Os astros brilham
Com mais fulgores.


De lindas cores
Se adorna o prado,
Abelhas chegam.
Retorna o gado.



6º Canto
Cantam todas as pastoras.


A luz divina,
A luz do céu
Vem clarear os passos meus,
Que hoje ao nascer da aurora,
Louvores! Louvores!
Jesus nasceu!


Cantemos, manas, cantemos,
Amigas e camaradas,
As flores mais perfumosas
São para nossas grinaldas.


Retiram-se as pastoras.

continua >>

(Por FURTADO, Maurício. Em Revista Brasileira de Folclore)


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