1º Canto
As pastoras vêm chegando, uma a uma, cantando:
(O Anjo)
Eu como sou o lindo Anjo,
Guiado por uma estrela
Como um cervo perseguido
Dos montes venho fugido.
Eu vou convidar
As minhas companheiras.
Para com elas
Formar as brincadeiras.
(O Guia)
Eu como sou o lindo Guia
Dos montes venho fugido etc.
(A Mestra)
Eu como sou a linda Mestra, etc.
(A Contra-Mestra)
Eu como sou a Contra-Mestra, etc.
(A Libertina)
Eu como sou a Libertina, etc.
(A Diana)
Eu como sou a linda Diana, etc.
(A Borboleta)
Eu como sou a Borboleta, etc.
(O Colibri)
Eu como sou o Colibri, etc.
(A Pastorinha)
Eu como sou a Pastorinha, etc.
(A Cigana)
Eu como sou a Ciganinha etc.
2º Canto
As pastoras dançam e cantam, até que a Cigana se
anuncie:
Que vós, divinas princesas,
Alegres festas tenhais,
Nestas noites tão bonitas,
Nestes campos festivais.
Oh lê lê lê vitória
Cantemos a glória.
A Cigana vem chegando, cantando:
Sou cigana do Egito.
De tão longe a Belém
Venho ver o Deus Menino
Que nasce para nosso bem.
Ai, ai, que dor na min'alma
De ver o Menino
Deitado nas palhas.
Oh lê lê lê vitória } bis
Cantemos a glória.
A Cigana aproxima-se da lapinha e recita:
Eis aqui a Ciganinha,
Ciganinha do Egito,
Vem pedir a mão Divina
Para ler a boa dira.
Se não chego tão depressa,
Nada podia alcançar,
Que do Egito a Belém
Há léguas a caminhar.
Eu vi pastoras com flautas,
Pastoras com seus tambores
Que vinham para adorar
A Jesus Rei dos Senhores.
Eu também, como Cigana,
Vou gozar desta alegria,
Por ter nascido o Messias
Filho da Virgem Maria.
A Cigana canta:
Sou Cigana do Egito
De tão longe a Belém
Para ver o Deus Menino
Que nasceu pra nosso bem.
Ai ai que dor na min'alma
De ver o Menino
Deitado nas palhas.
A Cigana recita junto da lapinha:
Eis aqui a Ciganinha,
Ciganinha do Egito
Vem pedir a mão Divina
Para ler a sua dita.
Minha adorada paisana,
Eu vos adoro com fé,
Porque sois mãe carinhosa
De Jesus de Nazaré.
A Cigana volta-se para o Menino Jesus e canta:
Me dá tua mão
Para nela eu ler
Verdades bem puras,
Verdades bem puras,
Verdades bem puras,
Eu já vou dizer.
Em seguida a Cigana recita:
Numa ceia majestosa,
Cheia de paz e de amor,
Um discípulo teu amado
Se tornará traidor.
Dar-te-á um frio beijo
Como sinal de traição.
Depois serás conduzido
Por infame multidão.
Serás também condenado
À morte, meu bom Jesus.
E para martírio lento
Te pregarão numa cruz.
A Cigana vira-se para o Anjo e canta:
Me dá tua mão
Para nela eu ler.
Verdades bem puras,
Verdade bem puras,
Verdade bem puras
Eu já vou dizer.
A Cigana pega a mão do Anjo e recita:
Como és o lindo Anjo
Que anunciaste a Maria
Terás o encanto da aurora,
Da natureza a magia.
A Cigana volta-se para a Mestra e canta:
Me dá tua mão
Para nela eu ler, etc.
A Cigana pega a mão da Mestra e recita:
Por seres tu a linda Mestra
Das discípulas mais amada,
Terás a sorte ditosa
Como o sorrir da alvorada.
A Cigana dirigi-se à Contra-Mestra; cantando:
Me dá tua mão
Para nela eu ler, etc.
A Cigana pega a mão da Contra-Mestra e recita:
Por seres a Contra-Mestra
Do lindo cordão azul
Terás a sorte fagueira
Das borboletas do Sul.
A Cigana dirigi-se à Camponsesa:
Me dá tua mão
Para nela eu ler, etc.
A Cigana pega a mão da Camponesa e recita:
Como és a camponesa
Filha do campo do amor
Serás a esposa querida
De um bendito pastor.
A Cigana dirige-se à Libertina, cantando:
Me dá tua mão
Para nela eu ler, etc.
A Cigana pega na mão da Libertina e recita:
Como és a Libertina
De volúvel coração,
Deverás seguir os dogmas
Da Santa Religião.
A Cigana dirige-se a Diana, cantando:
Me dá tua mão
Para nela eu ler, etc.
A Cigana pega a mão de Diana e recita:
Como és a Diana formosa
Do poeta a inspiração,
Terás o brilho dos astros
Que repele a solidão.
A Cigana pega na mão da Borboleta, cantando:
Me dá tua mão
Para nela eu ler, etc.
A Cigana recita:
Como és a Borboleta
Que esvoaça pelo espaço,
Terás do colo das virgens
O delicado regaço.
A Cigana dirigi-se ao Colibri, cantando:
Me dá tua mão
Para nela eu ler, etc.
A Cigana pega a mão do Colibri e recita:
És o Colibri dourado
Das florestas das campinas,
Terás os beijos rosados
Das virações matutinas.
A Cigana, levando uma bandeja, sai pelo meio do povo, cantando:
Dá-me uma esmola,
Pelo amor de Deus.
Que a pobre Cigana
Hoje não comeu.
Dá uma esmola
À pobre Cigana.
Pois vós bem sabeis
Que ela não engana.
Quem tiver dinheiro
Nesta ocasião,
Meta a mão no bolso
Faça a obrigação.
Não negueis esmola
Que vos peço agora.
A pobre Cigana
Já se vai embora.
Muito agradecida
Por tão nobre ação.
Da pobre Cigana
Toda a gratidão.
As pastoras todas cantam:
Acabai logo
Tanta alegria
Que já é nascido
O Filho de Maria.
A Cigana ajoelha-se em frente da lapinha e recita:
Ah meu Jesus Nazareno,
Encanto desta lapinha!
Aceite os votos sinceros
Desta pobre Ciganinha.
As pastoras cantam:
Acabai logo
Tanta alegria,
Que já é nascido
O Filho de Maria.
A Cigana canta:
Sou Cigana do Egito
De tão longe a Belém
Venho ver o Deus Menino
Que nasceu pra nosso bem.
Oh lê lê lê lê vitória
Cantemos a glória.
3º Canto
(As pastoras cantam)
Já deu meia-noite,
Já resplandeceu.
Que belo Menino
Na lapa nasceu.
Já deu meia-noite
O galo cantou.
O belo Menino
Com seu resplandor.
Já deu meia-noite,
Que santa alegria.
Nasceu o filho amado
Da Virgem Maria.
Já deu meia-noite,
O céu se abrilhanta,
Os anjos escutam,
A terra se encanta.
As pastoras retiram-se dançando.
continua
>>
(Por FURTADO, Maurício. Em Revista
Brasileira de Folclore) |