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Vitória-Régia
QUEBRANTO E MAU-OLHADO

É comum entre o povo, principalmente nos estados do Norte, atribuir a um olhar benévolo, amoroso, ou mau e odiento, certo mal-estar, quebrantamento do corpo, amofinação com estado febril e náuseas, que acomete as crianças e mesmo em pessoas adultas.

Quando a causa foi um olhar benigno, diz-se:

- Está com quebranto.

Quando um olhar perverso:

- Está com mau-olhado.

O que seja esse fato, não o podemos explicar, como a tantos outros mistérios da natureza, a menos que não queiramos atribuí-los a fluidos magnéticos, até hoje não bem determinados.

Uma dessas vendedoras ambulantes foi à casa de uma família respeitável. Enquanto fazia negócio, um menino de quatro anos brincava perto, tendo na mão um caroço de manga. Em certo momento, este caiu-lhe da mão e foi
enodoar uma peça de seda que estava perto. A vendedora teve um terrível ataque de raiva, lançou um olhar fulminante sobre o menino, injuriando-o com palavras acres. E, juntando violentamente as fazendas espalhadas, retirou-se, blasfemando, apesar dos protestos da dona da casa, que se prontificou a pagar o estrago.

Poucas horas depois, o menino apresentava sintomas de moléstia grave, sendo chamdo o médico e nenhum resultado produzindo os medicamentos.

Alguém, que assistira ao fato ocorrido entre a vendedora e o menino, aconselhou mandarem benzê-lo por estar, sem dúvida, com mau-olhado. Foi chamado o benzedor, manifestando-se logo melhoras na criança e pronto restabelecimento.

Algum tempo depois, a mulher voltou a negociar. A dona da casa faz-lhe ver que não queria mais negócios com ela:

- Você ia matando meu filho, que ficou muito mal.

– Não morreu? – replicou a mascate – pois admira; eu costumo matar quando olho com o ódio que eu tive.

Em nossa fazenda, no Acará, meu pai cultivava com esmero um lindo jardim, onde tinha plantas de grande beleza. Entre estas, porém, nenhuma tinha tomado maior viço, mais encanto do que um pé de arruda.

Indo uma senhora visitar-nos, meu pai levou-a ao jardim. Mostrou-lhe as mais bonitas flores.

– Agora – disse- vai ver o encanto do meu jardim, a mais bonita planta que cultivo.

– Oh! Que linda! – exclama a senhora – é uma beleza, um mimo! Ah! mas o senhor fez mal em mostrar-me a sua arruda.

– Por que?

- Infelizmente vai morrer; nada a pode salvar. Não posso olhar com amor, com gosto para uma planta: mato-a. E à crianças deixo-as doentes.

Com efeito, no dia seguinte pela manhã, a arruda estava completamente murcha e, à tarde, seca.

Os amantes de boas e saborosas frutas conhecem a fama de que gozam as mangas de Itamaracá, em Pernambuco.

O bispo de Olinda, dom José, se não me falha a memória, em visita pastoral, foi à Itamaracá.

Comeu e elogiou as saborosas mangas da ilha.

– Senhor bispo – diz o vigário – vou mostrar a V. Ex.ª a mais linda mangueira de Itamaracá e que produz os mais saborosos frutos.

O senhor bispo, foi, com prazer, ver a bela mangueira e durante muito tempo não cessou de fitá-la, lançando exclamações entusiásticas.

No dia seguinte, com espanto geral, as folhas estavam murchas e a morte invadira a glória das mangueiras de Itamaracá, secando-a em pouco tempo.

Como estes, inúmeros fatos incontestáveis poderia citar para provar a existência, em certas pessoas, de uma força desconhecida ou inexplicável, capaz de prostrar pela moléstia ou pela morte o ente amado ou odiado.

Que força é esta? Simplesmente uma força magnética, o hipnotismo?!

Tal se me afigura pela cura efetuada pelos benzedores.

Quando uma pessoa está ferida de quebranto ou de mau-olhado, é chamado o benzedor.

Este coloca-se em frente do doente e pronunciando, uns palavras cabalísticas, outros, orações, fazendo com a mão direita passes sobre a fronte e corpo do enfermo; si existe o quebranto ou o mau-olhado, o benzedor cobre-se de suor, enquanto o benzido vai melhorando. A benção repete-se duas ou três vezes, até produzir todo o seu efeito.

Não são as palavras cabalísticas que curam o enfermo, nem tão pouco as orações, a maior parte das vezes sem significação alguma, meras superstições.

Julgo, como no hipnotismo, serem os passes magnéticos a causa determinante da cura.

Era meu vizinho, na vila do Pinheiro, um negro
pernóstico, casado, vivendo pobremente, em sua casinha, do ofício de oleiro. Bom, só tinha o defeito de gostar da cachaça e, logo que podia, passava dois ou três dias embriagado. Voltava depois ao trabalho, muito respeitosos com todos, prestativo, pronto a acudir a todos os chamados, porque pai José – assim se chamava o negro – era um insígne benzedor de quebrantos e maus-olhados.

Os resultados por ele alcançados eram espantosos. Benzia também cobrelo, espinhela caída e outras coisas, mas estas últimas bençãos não tinham importância. Meras superstições, era evidente o nenhum resultado colhido.

Outro tanto não se dava com o quebranto e o mau-olhado. O pai José fazia milagres, era de um poder maravilhoso.

Quis por mim mesmo conhecer os efeitos, ou, antes, apalpar o fato.

Apresentando-se uma ocasião propícia, fui assistir ao homem em ação. Tratava-se de um menino gravemente enfermo.

Deitado nos braços da pobre mãe, sem ação, o corpo mole, a cabeça caída, pálido, lavado em suor frio, foi colocado em frente ao mestre José, que logo iniciou a benção.

Via-o mexer os lábios, sem ouvir as palavras por ele pronunciadas; tocava com os dedos a cabeça da criança, corria as mãos por todo o corpinho, afastando-as depois, como quem lança alguma coisa fora e assim durante uns dez minutos. O suor começou a gotejar-lhe da fronte: abria a boca, fechava os olhos, dando sinais de cansaço.

Um quarto de hora após, terminava a benção: o menino sentava-se no colo da mãe, mais esperto, com visíveis melhoras.

– Então, pai José? – perguntei.

– Ah! Esta foi de arromba! Estou com dor de cabeça. Mas não há dúvida; com mais duas benzeções o menino está bom.

– José, preciso falar-lhe; vá à nossa casa esta tarde.

À tardinha, o negro procurava-me, meio desconfiado.

Esforcei-me por desvanecer essas desconfianças pois desejava-lhe tirar-lhe as palavras da benção.

Mostrei-lhe a minha admiração pelo efeito rápido da benção, o meu desejo de aprender e que somente ele podia ensinar-me.

Após muita hesitação, resolveu-se a abrir a caixinha dos segredos.

Como suspeitava, as palavras não passavam de uma mescla de coisas sem nexo. Lembro-me ainda do início da benção:

"Com três te deram, com três te tiro, este quebranto ou este mau-olhado, este mal excomungado; se foi pela cabeça, São João Batista que te tire; se foi pela barriga, Santa Margarida que te tire; se foi pelas pernas, São José que te tire…" E ia por aí a fora, em um mundo de coisas sem nexo.

Para a benção do cobrelo era a mesma coisa. Tomando uma palha seca e uma faca velha, pergunta o benzedor ao doente:

- O que corto?

- Cobrelo.

- Corto a cabeça, corto o rabo, corto o corpo excomungado.

E enquanto pronuncia estas palavras, vai cortando a palha em três partes. Depois, com um ramo de alecrim, salpica água com sal sobre o cobrelo.

É crença entre o povo ser esta moléstica ocasionada por um lagarto que passa sobre a roupa, quando estendida no
quaradouro.

No entanto, vi também senhoras respeitáveis, piedosas, benzerem o quebranto ou o mau-olhado sem usarem da fórmula de mestre José, mas tão somente dos passes.

Conheci umas duas senhoras, de piedade incontestável, comungando semanalmente, e que na benção do quebranto usavam de seu terço, fazendo os passes com a Cruz do terço e rezando o Credo, o Padre Nosso, Ave Maria, etc.

E, no entanto, sentiam os mesmos incômodos de mestre José, durante a operação: suores abundantes, sono, peso na cabeça, etc.

Era, isto exclui uma intervenção diabólica e nos leva a acreditar em forças desconhecidas ou não bem estudadas pela ciência e que, talvez, para o futuro, possam prestar relevantes serviços à humanidade.

Os que viverem verão.

Não quero terminar esses fatos sem uma última nota.

Um dia, entrou-me em casa, aterrorizado, mestre José, para comunicar-me estar um pequeno pavilhão para músicos, levantado na praça da igreja, em frente à nossa casa, mal assombrado.

– Por que? – perguntei.

– Ah! Senhor, seu voltava ontem, à meia-noite, para casa, quando, passando perto do coreto, uma voz fanhosa, de alma do outro mundo, me disse:

- José, isto são horas de um pai de família voltar para casa? Toma cuidado, ou eu te agarro.

Meus cabelos se eriçaram, o meu corpo tremeu e eu dei uma carreira louca até minha casa.

– Veja o aviso, José – insinuei – não é bom você andar por esses bailes altas noites. Uma noite, as almas podem reunir-se e dar-lhe uma surra. Não é bom brincar com as almas. Às vezes elas vingam os vivos. Cuidado!

- Nunca mais, senhor, eu passo à meia-noite por aí.

Não sei se a cachaça lhe permitiu cumprir a promessa e se as almas não tiveram oportunidade de chamá-lo à ordem.


(OLIVEIRA, Hosaná, padre. Lendas e fatos de minha terra

Acres – Ásperas.

Amofinar – Tornar mofino, adoentar.

Enodoar – Manchar.

Insígne – Notável, célebre.

Pernóstico – Pedante, afetado, pretensioso.

Quaradouro – Lugar onde se pões roupa a corar; Coradouro.

 

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