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Vitória-Régia
MESA DE SANTA BÁRBARA

A mesa de Santa Bárbara se promove em terreiro próprio e especial, presentes pessoas de várias cestas, idades e sexos. É a mesa que só faz o bem, diferente, por exemplo, da Mesa de Santa Maria, que é para o mal cujo ritual se desenvolve no meio da mata.

Santa Bárbara é representada pela imagem de santa e por umas pedrinhas pretas que minam água – as chamadas pedras de Santa Bárbara. Mas, no altar, se põe outros santos: São Jorge, Santo Antônio e mais Abadô, o Babalô e Ogum, este último santo que tem um metro e pouco de altura, comparando o mal.

No terreiro há dois tambores: um grande, o Luano e outro pequenim, o Luana – um casal de tambores que os batedores cavalgam e, compassadamente batem com as mãos.

Das cerimônias da Mesa de Santa Bárbara – disse-nos o informante Lauro Santos – participam homens, mulheres, e até crianças sob direção de um Mestre. Todos dançam e cantam, repetindo interminavelmente pontos então tirados.

Destes, um ponto inicial – o ponto de abertura. É ponto piadoso e provoca até choro nos circunstantes:

Inhora Sant’Ana
Mãe de Deus amada,
Ela e a filha dela
Mariá chamada.
Mariá chamada,
Mãe de Deus amada (sic)
Ela me livra do inferno
Para sempre, amém.

Depois é que vai entoar o ponto para receber o santo, a hora em que todos os presentes cantam repetidamente e recebem, cada qual, o seu santo, caindo alguns esmaiados , em transe...

O ponto que nos foi, então, ditado pelo informante, diz assim:

Eu mandei pedir a Deus
Meu Jesus Cristo, meu São Salvadô
Que descesse dos céus a terra
O santos comunicadô
O santos comunicadô
Mas se eu lhe chamo
Você pode chegá
Mas com licença divina
Você pode comunicá...

Há muitos outros pontos como, por exemplo, este, de invocação à própria Santa Bárbara:

Santa Bárbara está cansada
Ôi de tanto fazê milagre.
Os filhos dela não paga
Os trabalho que mamãe faz.

Também há pontos assim, cantados em voz soturna, como ouvimos e gravamos do informante mateense:

Ôi Suberana Luz Divina,
Que pra nós nunca faltô
Ouvi a voz da Sinhora,
Meu anjo,
Debaixo do resplendô.
O Rusário de Maria,
De pesado esta tremendo.
Os anjos lá do céu
Que pro ele vem descendo...

Nas informações então colhidas em São Mateus, também se referiu Lauro Santos a Ogum e, entre os pontos que guardara ele em sua memória, este cantou:

Ogum,
Eu sô vaquêro da minha boiada,
Ogum é vaquêro das encruzilhada,
Saravá é quem disse,
Pruquê
Saravá é quem disse...

Pelo teor do último verso, Saravá pode parecer um ente ou divindade qualquer que diz ou informa que "Ogum é um vaquêro das encruzilhada". No entanto, como se sabe, e é lição geral dos entendidos, saravá é a forma estropiada do verbo salvar. Vamos saravá , ou seja, vamos salvar (saudar).

Artur Ramos, por exemplo, depois de transcrever os seguintes versos,

Saravá Ogum,
Ogum, meu pai,
Ó Jorge, ó Jorge
Vem de Loanda,

Diz, em nota do pé da página, acerca do Saravá: "Corruptela de salvar, saudar. Os negros usam muito dessa expressão – Salva Ogum! Umbanda, salva isto e aquilo. A expressão já nos chegou prontinha da África. Só salavando, dizem os angolenses".


(NEVES, Guilherme Santos. Folclore brasileiro: Espírito Santo.)

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