Sempre, ou quase sempre, em
pé-quebrado, são os Pelos sinais, Salve Rainhas e Ave Maria todas
satíricas. Aproveitam apenas um período da oração e orientam o verso para um sentido
irônico ou simplesmente crítico. Os Pelo sinais são abundantes e comuns em todo
o Brasil.
João Simões Lopes Neto recolheu-os no Rio Grande do Sul. Em todo o norte do Brasil eles
existem. O Pelo sinal da beata, dedicado ao general Junot, é evidentemente de
Portugal.
Em mais alta percentagem os Pelos sinais têm um tema único e se dirigem a uma só
entidade.
Esta família sacrílega
Autora da fradaria
Há de ser castigada um dia
Pelo sinal
Doutor Vicente Pereira
Do engenho Guaporé
Eu sei como você é
Pelo sinal
Um modelo raro é o que transcrevo. Não se dirige a ninguém e parece mais ser obra de um
desocupado neurastênico.
Sendo eu desconfiado
De bicho magro e tinguim
Pois conheço gente ruim
Pelo Sinal
Há gente de todo mal
E pra que seja primeiro
Carrega até o dinheiro
Da Santa Cruz
Guardai-me o bom Jesus
De faca, copo, atoleiro
De bala de cangaceiro
Livre-nos Deus
Miunça e roçados teus
Guarda bem no teu cantinho
Se não o leva mansinho
Nosso Senhor
Com delegado-doutor
Em negócio não se veja
Embora diga que seja
Dos nossos
Raspando carne dos ossos
Quebrando lenha nos matos
Sempre chamo aos carrapatos
Inimigos
Livra-te bem dos amigos
Corra de todo doutor
Quando fizer o favor
Em nome do Padre
Com bondade ou sem bondade
Tenha medo do escrivão
Ele diz que é ma-tenção
Do Filho
Seja homem dum só trilho
Desconfie do boi ladrão
Peça toda proteção
Do Espírito Santo
Aqui fico no meu canto
Rezando o Pelo Sinal
Pra quem me livre do mal
Amém!
Uma Ave Maria de Leandro Gomes de Barros, a Ave Maria da Eleição:
No dia da eleição
O povo todo corria
Gritava a oposição
Ave Maria!
Viam-se grupos de gente
Vendendo votos na praça
E a urna dos governistas
Cheia de graça
Uns a outros perguntavam:
- O senhor vota conosco? -
Um chaleira respondeu:
- Este O Senhor é convosco
Eu via duas panelas
Com miúdos de dez bois
Cumprimentei-a, dizendo:
Bendita sois
Os eleitores
Das espadas dos alferes
Chegavam a se esconderem
Entre as mulheres
Os candidatos andavam
Com um ameaço bruto
Pois um voto para eles
É bendito fruto
Um mesário do Governo
Pegava a urna contente
E dizia "Eu me gloreio
Do vosso ventre!"
Lenadro Gomes de Barros, o mais fecundo de todos os poetas sertanejos, não empregou nesse
pé-quebrado a disposição clássica. O vate popular
José Francisco de Lima escreveu uma Ave Maria, no modelo antigo e com a exceção
de não ser uma sátira. Aí deixo uma cópia fiel:
Oh! Deus de misericórdia
Que nos deseja amparar
Se vós não nos ajudá
Ave Maria
Seja sempre nossa guia
Maria, mãe de Jesus
Nos cubra com vossa luz
Cheia de graça
Sem vossa luz não se passa
Eu desejava seguir
Depois de morto sentir
O Senhor é convosco
Seu poder seja conosco
Oh! Mãe do Verbo Encarnado
Estamos certificado
Bendita sois vós
Nos socorra sem demora
Vós nos pode socorrer
Espalhando seu poder
Entre as mulheres
Sois a dona do mister
Pra com ele nos valer
Pois tivesses em seu poder
Bendito é o fruto
Não nos deixe absoluto
Sofrendo tanto rigor
Pos vos peço por amor
De vosso ventre
Vossa luz marche na frente
Nos levando ao criador
Seja sempre em meu favor
Jesus
(CASCUDO, Luís da Câmara. Vaqueiros e cantadores) |
 Mister Ofício,
incumbência;Ministério; Intuito, propósito,meta.
Miunça Miúça. Pequena porção ou
fragmento; Miuçalha.
Sacrílega Que cometeu sacrilégio.
Vate Poeta, versejador. |