Dançando,
maneiroso e gentil, entre as pastoras Leilão de um ramo de flores que acabou
mal
A aproximação da época de festas, ou seja do Natal, no Recife de outrora, coincidia com
o início dos presépios e dos pastoris, notadamente nos arrabaldes.
Irei tratar dos pastoris (dramas pastoris) um tanto diversos dos presépios (louvações
do Natal diante da lapinha onde estava o Menino Jesus).
Enquanto nos presépios as pastoras eram simples e ingênuas crianças ou mocinhas que
dançavam e cantavam as loas, as jornadas e demais canções
natalinas, nos pastoris figuravam moças feitas, - que nada tinham de ingênuas,
digamos entre parêntesis, havendo ainda outras figuras como o rei Herodes, os três
Magos, o Furia (Satanás), o Pastor e mais ainda outras personagens, sendo em ambos
presépios ou pastoris, - indispensável a figura do Velho, que era, em geral, um tipo
cômico, pilheriando com as pastoras, dialogando com os
espectadores a quem pedia dinheiro para comprar roscas, guloseimas de farinha de trigo e
açúcar em forma de anel, mais ou menos avantajadas.
Um pastor elegante
Entre os mais afamados pastoris do fim do século [assado e
princípio do atual citava-se o da Encruzilhada populoso arrabalde do Recife
do qual a principal figura era o Pastor, papel desempenhado pelo Erotides, mulato alto,
maneiroso, digamos logo: dengoso, com ademanes mais próprios
de pastora do que de pastor, no requebrar do corpo quando dançava e no revirar dos olhos
lânguidos quando cantava...
Diziam, entretanto, que, apesar dessa propensão para o sexo fraco, ele era forte e
valentão, não "enjeitando parada", nem levando desaforos para casa
Desmanchava logo "qualquer diferença" ali na hora.
Muito vaidoso, desgostava-o o colorido escuro da sua pele e, para o disfarçar, passava no
rosto e no pescoço alvaiade dissolvido em álcool,
clareando, assim, sua pigmentação que traía forte percentagem de sangue africano em
mistura com o seu. Acentuava, depois o rosado das faces passando nas bochechas e
nos beiços carnudos um arrebique, ou carmim, o que lhe dava ao conjunto facial uma
coloração arroxeada. As mãos trigueiras ficavam ocultas
dentro de luvas de pelica branca.
Sua indumentária era curiosa e anacrônica, pois, pretendendo ele representar um simples
pastor da Judéia na época do nascimento de Cristo, apresentava-se como um elegante
fidalgo do Renascimento, usando calções pelo joelho e gibão de veludo e cetim, finas
meias de seda, sapatos de verniz de salto altos, ostentando à cabeça largo chapéu de
feltro-cinza, adornado de ondeantes plumas multicolores e um bastão ou cajado na destra.
Grande concorrência
O pastoril de Erotides, como chamavam o da Encruzilhada, não era freqüentado somente
pela rapaziada alegre que ia aplaudir a cena, da Libertina (?!) e das demais pastoras do
cordão encarnado ou do azul. Muitas e aristocráticas famílias do Recife e de arrabaldes
próximos ou distantes da Encruzilhada, como Várzea, Caxangá, Casa Amarela, Torre,
Madalena, Espinheiro, etc., ali compareciam nas noites dos sábados para aplaudirem as
danças e cantorias do popular folguedo.
Sei de distinta senhora, irmã de conhecido clínico pernambucano ambos já
falecidos, que, alguns anos depois de extinto o afamado pastoril do Erotides, me confessou
comovida:
- Quanta saudade eu tenho ainda do pastoril da Encruzilhada! ia sempre lá com o meu
irmão, que era também apreciador da festa.
E, acrescentava ela, com ingênua sinceridade:
- Havia lá um pastor que dançava tão bem, requebrando-se todo
Era o Erotides
Cançonetas e modinhas
As pastoras, entre uma jornada ou outra propriamente de Natal, cantavam modinhas ou
cançonetas, algumas um tanto picantes, como uma paródia feita à cançoneta Pela
janela, e que recebeu o título de Pelo buraco, começando com estes dois
versinhos:
- Fiz um buraco no assoalho para espreitar minha vizinha
Outra cançoneta também muito cantada, durante certo tempo, nos pastoris, era a
intitulada Só de uma banda
, na qual a cantora se referia às pessoas que
estavam no auditório, dizendo:
Eu fui do Recife para Maceió
Encontrei sr. Fulano
De uma banda só
Só de uma banda, só de uma banda
Só de uma banda, de uma banda só
Uma outra canção e essa da minha autoria assassinada nos pastoris, era a Enfermeira,
que as pastoras matavam, vestidas com o uniforme da Cruz Vermelha esganiçando o estribilho, que assim dizia:
- Na Cruz Vermelha brasileira
Vou me alistar como enfermeira
Um leilão perigoso
Era comum tanto nos pastoris, como nos presépios, o leilão de prendas oferecidas às
pastoras. Havendo dois cordões ou partidos, o encarnado e o azul, respectivamente
correspondendo à Mestra e à Contramestra, seus partidários se esforçavam para lhes dar
o maior brilho. Um partidário do encarnado oferecia, por exemplo, um ramo de flores à
Mestra e o Velho propunha, entre pilhérias e graçolas, que se pusesse o ramo em leilão
em favor daquela a quem fora oferecido. Os partidários do azul faziam tudo para arrematar
as flores a fim de as oferecer à Contramestra. Algumas vezes essas prendas eram muito
disputadas elevando-se a centenas de mil réis um raminho de flores, ou apenas um simples
cravo!
Conta-se que, em um animado leilão de afamado pastoril, um partidário da Contramestra
lhe ofereceu um ramo de rosas que foi posto em leilão a seu favor. Os partidários da
Mestra começaram, então, a fazer lances sempre mais elevados do que os dos partidários
da Contramestra, com a intenção de arrematarem as flores para as oferecer à Mestra. O
Velho animava os contendores, desafiando-os a dobrarem os lances:
- Já tenho trinta mil réis pelo buquê para a Contramestra. Quem dá mais?
- Quarenta para a Mestra! grita um do cordão encarnado.
Fogo na canjica, rapaziada! Quero ver quem tem garrafas vazias para vender!
Quarenta?!
- Cinqüenta para a Contra! grita outro.
Bravo! Cinqüentão! Quem dá mais?
E assim, de lance em lance, venceu um dos partidários da Mestra, declarando, porém, com
espanto geral, que desejava oferecê-lo à própria dona das flores, à Contramestra, que
foi chamada à cena pelo Velho.
Uma quadrinha infeliz
Em presença da chefe do cordão azul e em meio do silêncio geral, o arrematante declarou
que iria dizer uma poesia. Pigarreou e com voz clara e forte, para ser ouvido por todos
começou solene:
- Pastora! Tu sois que nem
Essas frô resprandescente
Uma ruidosa salva de palmas interrompeu a declamação da quadra do poeta, que agrdeceu e
repetiu:
- Pastora! Tu sois que nem
Essas frô resprandecente
Que nasce nos pé dos muro
E pega nos pé da gente!
* * *
É desnecessário acrescentar que
fechou-se o tempo. Bengalas e guarda-chuvas
ergueram-se no ar, caindo, pesadamente na cabeça dos circunstantes
Às vezes os pastoris acabavam assim, em pancadaria grossa, antes das pastoras cantarem a
última jornada, ou o Velho contar sua última anedota. Brigavam os torcedores ou
partidários do cordão azul com os do cordão encarnado, e saíam da refrega sorrindo
amarelo, os que não pertenciam a nenhum dos dois cordões
litigantes, indo até, por vezes, parar no xadrez
Coisas dos antigos pastoris!
(WANDERLEY, Eustórgio. Tipos populares do Recife antigo) |
 Ademanes Movimentos,
gestos, acenos; Gestos afetados, trejeitos.
Afamados Famosos, célebres.
Alvaiade Pigmento branco, seja de carbonato
básico de chumbo, seja de óxido de zinco.
Estribilho Versos repetidos ao final de cada
estrofe de uma canção ou composição poética.
Litigantes Relativo a litígio (disputa ).
Loas Cantigas populares em louvor aos
santos; Discurso laudatório, apologia.
Pilheriando Dizendo pilhérias, gracejos.
Trigueiras Que tem a cor do trigo maduro.
Moreno, escuro. |