Quais são os enfeites
das mulheres
As mulheres pintam a metade inferior do rosto e todo o resto do corpo do mesmo modo que
já foi descrito a respeito dos homens. Todavia, elas deixam os cabelos compridos, como as
mulheres de outros lugares. Além disso, não têm nenhum enfeite especial; só nas
orelhas é que possuem furos para um tipo de brincos, os nambipais. Estes medem
cerca de um palmo de comprimento, são redondos e mais ou menos da grossura de um polegar,
produzidos a partir de caracóis marinhos.
Desde a infância elas têm apenas um nome, que tiram de pássaros, peixes e frutas. Se
forem casadas, recebem tantos nomes quantos forem os inimigos mortos por seus maridos.
Quando catam piolhos, elas os comem. Perguntei-lhes muitas vezes por que fazem isso e
elas responderam que os piolhos eram seus inimigos e devoravam alguma coisa das suas
cabeças, portanto queriam vingar-se deles.
Entre esses selvagens não há parteiras determinadas. Quando uma mulher deve dar à
luz quem estiver mais perto vem correndo, seja mulher ou homem. Vi mulheres que já
estavam passeando novamente no quarto dia após o parto.
Carregam seus filhos nas costas, seguros em panos de algodão. Desse modo, levam-nos
para o trabalho e as crianças ficam satisfeitas, dormindo, mesmo que a mãe se abaixe e
se movimente muito.
Como os homens se enfeitam e se
pintam e que tipo de nome têm
Eles raspam a cabeça, deixando apenas uma coroa de cabelo, semelhante à de um monge.
Perguntei-lhes diversas vezes como é que tinham chegado a esse tipo de cabelo e eles
contaram que seus antepassados tinham-no visto em um homem de nome Meire Humane,
que realizara muitas maravilhas entre eles. Era considerado um profeta ou apóstolo.
Continuei a perguntar, querendo saber o que eles usavam para cortar os cabelos antes da
vinda das naus com tesouras. Esclareceram que isso era feito com duas cunhas de pedra, batendo no cabelo uma por cima da outra, sendo a
parte do meio cortada com auxílio de uma lasca feita de cristal. Além disso, fazem um
enfeite de penas vermelhas chamado acangatara, que é amarrado em volta da cabeça.
No lábio inferior, eles têm um furo grande, desde a juventude. Quando são ainda jovens,
perfuram o lábio com uma ponta de chifre de cervo, colocam no furo uma pedrinha ou
pedaços de madeira e untam-no com um de seus ungüentos. O pequeno furo permanece aberto
assim. Depois, quando ficam maiores ou capazes de feitos de bravura, a abertura é
aumentada e o jovem coloca através dela uma grande pedra verde. A parte superior da
pedra, que tem uma forma especial, mais estreita, fica voltada para dentro e a parte
grossa para fora. Seu peso faz o lábio inferior pender para baixo o tempo todo. Também
usam duas pedras pequenas atravessadas nas bochechas, nos dois lados da boca.
Alguns, em vez de pedras, usam cristais longos e delgados. Um
outro enfeite é produzido a partir do casulo de grandes caracóis marinhos, os matapus.
Chama-se bojeci e tem a forma de uma meia-lua, branco como a neve, sendo usado em
volta do pescoço.
Ainda a partir do casulo de caracóis marinhos, fazem disquinhos brancos, mais ou menos da
grossura de uma haste de palha, que penduram no pescoço. A feitura desses disquinhos é
muito cansativa.
Também se enfeitam com feixes de penas amarradas em torno dos braços e pintam-se de
preto. Penas vermelhas e brancas são coladas ao corpo, misturando as cores. A cola para
isso é retirada de árvores. Esfregam-na nos pontos que querem emplumar, depois apertam
as penas por cima. Costumam pintar um braço de preto e o outro de vermelho, fazendo o
mesmo com as pernas e o tronco.
Um outro enfeite é obtido de penas de ema. Trata-se de uma coisa grande e redonda, feita
de penas, chamada enduape. Quando vão para a guerra ou fazem uma grande festa,
amarram tais enfeites nas costas.
Seus nomes são escolhidos a partir dos animais selvagens. Dão-se muitos nomes, mas com
determinadas distinções: no nascimento, um menino recebe um nome que conservará até
crescer e mostrar-se um guerreiro valoroso, capaz de matar inimigos. Depois, cada um deles
recebe tantos nomes quantos forem os inimigos que tiver matado.
Meire Humane: um dos mitos históricos americanos; nome de misterioso personagem
que, segundo a tradição, teria aparecido entre os selvagens, servindo-lhes de legislador
e mestre.
Como as crianças recebem seu primeiro nome
A mulher de um dos selvagens que me capturaram dera à luz um filho.
Alguns dias depois, o pai estava discutindo na cabana com os vizinhos mais próximos a
respeito do nome que devia dar a seu filho, um nome que soasse corajoso e amedrontador.
Sugeriram muitos nomes que não o agradaram, então ele disse que pretendia dar ao filho o
nome de um de seus quatro antepassados. Crianças com tais nomes são prósperas e bem
sucedidas na captura de escravos, segundo disse, pronunciando em seguida os quatro nomes.
O primeiro chamava-se Kirima, o segundo Eiramita, o terceiro Coema,
e o nome do quarto eu não guardei. Quando ele disse Coema, pensei que podia ser Cham dou
Ham, mas Coema significa manhã na língua deles. Sugeri que desse ao filho aquele
nome, pois certamente pertencia a um de seus antepassados. A criança recebeu um dos
quatro nomes mencionados por ele, o que acontece sem batismo ou circuncisão.
Kirima "corajoso"
Eiramita "abelha menina"
Coema "manhã"
Quais são os enfeites das mulheres
As mulheres pintam a metade inferior do rosto e todo o resto do corpo do
mesmo modo que já foi descrito a respeito dos homens. Todavia, elas deixam os cabelos
compridos, como as mulheres de outros lugares. Além disso, não têm nenhum enfeite
especial; só nas orelhas é que possuem furos para um tipo de brincos, os nambipais.
Estes medem cerca de um palmo de comprimento, são redondos e mais ou menos da grossura de
um polegar, produzidos a partir de caracóis marinhos.
Desde a infância elas têm apenas um nome, que tiram de pássaros, peixes e frutas. Se
forem casadas, recebem tantos nomes quantos forem os inimigos mortos por seus maridos.
Quando catam piolhos, elas os comem. Perguntei-lhes muitas vezes por que fazem isso e elas
responderam que os piolhos eram seus inimigos e devoravam alguma coisa das suas cabeças,
portanto queriam vingar-se deles.
Entre esses selvagens não há parteiras determinadas. Quando uma mulher deve dar à luz
quem estiver mais perto vem correndo, seja mulher ou homem. Vi mulheres que já estavam
passeando novamente no quarto dia após o parto.
Carregam seus filhos nas costas, seguros em panos de algodão. Desse modo, levam-nos para
o trabalho e as crianças ficam satisfeitas, dormindo, mesmo que a mãe se abaixe e se
movimente muito.
(STADEN, Hans. A verdadeira história dos
selvagens nus e ferozes devoradores de homens, encontrados no novo mundo, a América...)