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Retornar para Palhoça
Vitória-Régia
PASSADORES DE FESTAS

- Aonde se vai passar a festa, este ano, meu pai?

A pergunta saía já no fim do jantar. O velho chefe de família, de palito na boca, metido no paletó de seda-palha, de chinelos cara de gato, fazia a digestão perto do alpendre. A esposa, ao lado, para agradar à filha testemunhava:

- Tem feito um calor nesta casa! O verão começou brabo.

- É mesmo, meu pai. Estou com o corpo cheio de brotoejas.

O açucareiro, lembrando-se de uma boa venda de açúcar feita naquela manhã quando estivera na praça, à sombra das gameleiras da Lingüeta, recordou-se também de um oferecimento que tivera.

- É verdade. O Antunes me disse hoje que se eu quisesse ir passar a festa no Monteiro me cedia uma casinha que alugara. Não pode ir porque tenciona embarcar para Lisboa em novembro. Até razoável o preço: 500$000 pela temporada.

- Ora, no Monteiro! Esse arrabalde já passou da moda. Tão triste! Eu preferia Olinda. Tem mais graça... Tia Sunça vai para lá com as meninas.

- Lilica precisa mesmo de banhos salgados, Sinhô. Ela anda anêmica, se queixando de tonturas... A Quinta Labarraque não faz mais efeito.

O velho cede depressa. A ele tanto faz um lugar como outro. Contando que obtenha parceiros para o lu. Nessa tarde mesmo combinam as cousas: alugarão uma das casas da estação do Carmo. Souberam existir duas ainda vagas. Levariam os trastes indispensáveis em canoa, porque no ano passado no carroção da maxambomba tinham-se quebrado vários móveis; precisavam comprar baeta azul e galões vermelhos para as roupas de banho.

- Bem compridas. Nada de escândalos – recomenda o açucareiro.

Uma semana depois a mudança. Camas de vento, cadeiras, mesa de pinho, baús de flandres, armário, panelas, o cachorro e o louro. Aboletam-se, como é possível, na improvisada residência de "passar festa". A tia Sunça está quase vizinha, na rua do Sol. Inicia-se sem demora o desadoro. Risadas, tagarelices, correrias. E projetos.

No dia seguinte, bem cedinho, ainda escuro, como de costume na época, o banho de mar. Estreitam-se os trajes de baeta azul com os galões vermelhos. Casacões folgados e compridos; calças pelos tornozelos. Os homens também usavam calções do mesmo tecido com camisetas de listras. Rara a moça que entrava no mar sozinha. As mãos dos banhistas eram obrigatórias, por precaução. E formavam-se então cordões. Acontecia, por vezes, que uma vaga mais forte e menos polida levava a todos na praia de roldão. Gargalhadas, assobios, sustos e muito rosto feminino corado porque na queda mostrara-se um pedaço de perna...

Ao longo da praia ficavam os banheiros feitos de palhas de coqueiros, formando entre uns e outros verdadeiras ruas. Cada família mandava construir o seu, com um ou dois compartimentos para a divisão dos sexos. E as pessoas que não usavam os banhos ou se compraziam em apreciá-los, sentavam-se às portas, acompanhavam com a vista os entes queridos que se atiravam aquele contacto com as ondas crespas.

Esses banhos constituíam um ruído mundano. Desde que se inaugurara o trem para Olinda. Davam que falar. Namoros dentro d’água, embora à distância, olhares dissimulados de rapazes, frasezinhas de raro a raro trocadas.

- Vai à partida na casa do doutor Simões?

- E eu sei...

Os papais viviam de olhos arregalados e as mamães punham toda astúcia em descobrir se as meninas ligavam atenção a "gente que não prestasse". A filha do comendador Raposo não teimara em se casar com um homem de "cabelo mal com Deus"...

Os jornais antigos agitavam os encantos olindenses:

Banheiros à beira-mar
Não tem conta, é caso raro.
Inda o dia não é claro
Já lá vão por Carmo afora
Pai, irmão, marido e nora.

Vê-se Iaiá tão nervosa
De fofinhas de flanela
Cor-de-rosa ou amarela;
Com seu fraque bem bordado
Fugindo do mar irado.

Vê-se pisando sestrosa
Sinhazinha nas areias.
Sem botinas e sem meias.
Correndo de vez em quando
Pras ondas que vêm rolando.

Que lindo quadro na praia!
Como é belo ver-se a volta
De Iaiázinha que solta
Os cabelos anelados
Das verdes ondas molhados!...


Durante dos dias, enquanto os pais e maridos ganhavam dinheiro no Recife, as famílias viviam da casa de uma para outra, em conversas, ouvindo piano, discutindo modas, queixando-se da criadagem. À tarde, mudavam roupas e iam para a estação do Carmo ou dos Milagres esperar as maxambombas que lhes traziam da Capital as pessoas que as interessavam. Umas vinham logo no trem de 3 e meia; outras no expresso das 5; muitas nos trens de 6 ou 7 e meia, porque trabalhassem no comércio. Geralmente, após o jantar iam todos se sentar na praia e ali se fazia um pouco de sociedade, de maledicências, de namoro, de cochichos...

Aos domingos uma música tocava no coreto do Pátio do Carmo e tomava-se sorvete na barraca da Liberdade. Fora disso, havia os passeios, em grupos, pela cidade alta, visitando as velhas igrejas, atravessando as silenciosas ruas coloniais, indo-se até o terraço da Sé admirar o panorama do Recife e do mar, ou até o Monte. Realizavam-se também excursões pela praia, em trajes caseiros, pés descalços, levando balaios, para trazer cajus das matas dos Boltrins.

Nas proximidades do Natal intensificavam-se partidas. Na casa de um, na casa de outro. Dançava-se a noite inteira. Essas danças constituíam o encanto das moças, embora se estivesse ainda no tempo da valsa, da polca, do pas-de-quatre, todos cerimoniosos, os pares bem distanciados com as mesuras do consentimento e do agradecimento, sob a vigilância paterna. Mas eram daí mesmo que saíam os noivados e os casamentos.

Enquanto as filhas valsavam, as matronas em roda tesouravam os vestidos alheios ou lastimavam-se da carestia de tudo. Carne verde de 800 réis, carvão de 400 réis a barrica, queijo do reino a 5$000 um!

- E um par de botinas com cano de veludo a 9$000!

- As fazendas, minha negra, nem se fala. Não tiveram o desaforo de me pedir ontem, no Paradis des Dames, 1$500 por um côvado de seda-palha francesa?

- Ah! Eu é que sei bem o amargo desses preços. Estou fazendo o enxoval de Fininha. Quem já viu madapolão de 6$000 e cambraia vitória de 2$800 a peça hein? Quem já viu?

- E meu marido me disse que as cousas ainda vão para pior. O câmbio continua a descer...

- Fizeram a república para endireitar e tudo ficou pior, minha gente.

- Foi mesmo.

O piano tocava a polca Chora Pitanga, muito em voga.

As dificuldades de vida traíam-se nos versinhos das folhas:

- Oh! que vista, caro amigo!
Hoje aqui tudo é brincar...
Se quiser banhos tomar
Me diga para alugar
Casa fresca em bom lugar.

Mas, lembre-se que esta terra
Já não é qual dantes era;
Só, aqui, o luxo impera.
Só vejo rendas e fitas
Fivelinhas esquisitas.

Assim, se D. Quitéria
Quiser banhos vir tomar
Que não venha se embrulhar
No seu xale costumeiro
Gaste mais algum dinheiro...


A afluência de veranistas, todavia, longe de arrefecer mais aumentava. Não somente para Olinda, porém, igualmente, para Monteiro, Poço da Panela, Apipucos, Tijipió, Caxangá. Os aluguéis das casas triplicavam-se. De ano a ano pior. Novos prédios surdiam. A praia de Olinda ia sendo aproveitada para moradias de passar festa desde Milagres até São Francisco. A capelinha dos Milagres já não tinha por vizinhos coqueiros e jurubebas apenas. Era notável o luxo: cambraias bordadas, brincos de brilhantes, voltas lapidadas, luvas de pelica, capotas de plumas, braceletes de esmeraldas, capas de vidrilhos, faixas de seda, pentes de ouro nos coques, leques de madrepérola.

Aos domingos aumentavam-se as mesas, emendavam-se atoalhados por causa dos parentes e amigos que vinham passar o dia. Compravam-se cavalas e siobas inteiras chegadinhas na jangada e trazidas por "Seu Mano".

Um morrer de gastar dinheiro. E o câmbio a cair....

Corriam assim os meses de setembro a fevereiro. Meses em que, às ventanias de agosto, se sucediam os dias límpidos, suaves, bonitos do céu pernambucano. O mar despira-se da faixa barrenta do inverno e agora todo ele tomara uma assinatura de verde. As estradas enxugavam. As mangueiras sustentavam os frutos e os cajueiros pontilhavam-se de vermelho e amarelo. Tudo toma um ar de quem veste roupa nova e anda contente com a sorte. Dias em que há sol que queima, mas nunca matou ninguém. Noites em que há enxames de estrelas no céu e uma frescura deliciosa na terra.

O período agudo das festas era de Natal a Reis. Bumba-meu-boi, pastoris, mamulengos, fandangos, barraquinhas, tivolis, retretas.

Novenário do Bonfim. E, ao romper do Ano-Novo, fogos de vista, salvas de um navio de madapolão, combate com uma fortaleza de sarrafos, pombos pelos ares, repiques das igrejas, estralejar de foguetes, o Hino Nacional.

E abraços, e felicitações, e bênçãos, e beijos. E sorrisos de longe que parecem indagar:

- Será este ano?

Ao cair das primeiras chuvas, o regresso.

Partem do Carmo os trens com carroções cheios de móveis. Visitas de despedidas, oferecimentos, saudades. Uns voltavam ao palacete da Madalena, outros ao sobrado da rua Nova, tantos à casinha térrea da Ponte Velha, da Soledade, do Mondego.

E a esperança do carnaval na boca das moças:

- Eu vou ver da casa de minha tia, na pracinha.

- E eu da rua da Imperatriz.

- Tomara que já chegue!

- Tomara mesmo!


(SETTE, Mário. Maxambombas e maracatus)

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