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O TRAJE DO VAQUEIRO
O mais antigo registo da
indumentária do vaqueiro nordestino fê-lo Henry Koster em dezembro de 1810, nos sertões
do Rio Grande do Norte, entre Açu e Mossoró:
"Vou dar a descrição do meu amigo que se afastou da estrada para indicar-me o
poço. É a figura comum do sertanejo em viagem. Montava um pequeno cavalo com cauda e
crinas compridas. A sela era um tanto elevada adiante e atrás. Os estribos eram de ferro
ferrugento e os freios, a mesma forma. As rédeas eram duas correias estreitas longas.
Sua roupa consistia em grandes calções ou polainas de couro taninado mas não preparado,
de cor suja de ferrugem, amarrados da cinta e por baixo víamos as ceroulas de algodão
onde o couro não protegia. Sobre o peito havia uma pele de cabrito, ligada por detrás
com quatro tiras, e uma jaqueta, também feita de couro, a qual é geralmente atirada num
dos ombros. Seu chapéu, de couro, tinha a forma muito baixa e com as abas curtas. Tinha
calçados os chinelos da mesma cor e as esporas de ferro eram sustidas nos seus pés nus
por umas correias que prendiam os chinelas e as esporas. Na mão direita empunhava um
longo chicote e, ao lado, uma espada, metida num boldrié que lhe descia da espádua. No
cinto, uma faca, e um cachimbo curto e sujo na boca. Na parte posterior da sela estava
amarrado um pedaço de fazenda vermelha, enrolada em forma de manto, que habitualmente
contém a rede e uma muda de roupa, isto é, uma camisa, ceroulas e, às vezes, umas
calças de Nanquim. Nas boroacas que pendiam de cada lado da sela conduzem
geralmente farinha e a carne assada no outro lado, e o isqueiro de pedra (as folhas servem
de mecha), fumo e outro cachimbo sobressalente. A todo este equipamento, o sertanejo junta
ainda uma pistola, cujo longo cano desce pela coxa esquerda, e tudo seguro" (Viagens
ao nordeste do Brasil, p. 133-134, Brasiliana, São Paulo, 1942)
Este sertanejo em viagem é o mesmo vaqueiro em jornada longa, seguindo murruá fujão,
dias e dias.
O príncipe de Wied-Neuwied, em janeiro de 1817, descreve os vaqueiros italianos da Barra
da Vareda, próxima aos limites de Minas Gerais:
Já aqui pude também travar conhecimento com os homens encarregados de guardar o gado;
são os vaqueiros ou campistas, como os chamam em Minas Gerais, vestidos de
couro de veado da cabeça aos pés. Essa vestimenta parece extravagante à primeira vista,
mas é muito adequada, pois esses homens têm muitas vezes de correr atrás do gado, que
foge através dos arbustos espinhosos e das caatingas, ou então são obrigados a fazer
passar o gado por aí, para reuni-lo. A sua vestimenta consta de sete peças feitas de
couro de veado; o chapéu, pequeno e arredondado com abas estreitas, que se alarga e
alonga para trás para formar uma pala que abriga o pescoço; o gibão ou jaqueta,
aberto na frente, por baixo do qual está o guarda-peito, largo pedaço de couro
que desce até à barriga; as perneiras ou calções, por debaixo das quais estão
as botas munidas de esporas. Uma vestimenta desse gênero dura muito tempo, é fresca,
leve e defende-os dos espinhos e das pontas dos galhos. O vaqueiro, montado num bom
cavalo sobre uma sela acolchoada, leva na mão uma longa vara cuja extremidade é
guarnecida por uma ponta de ferro rombuda, com que abate ou afasta os bois furiosos; às
vezes, leva também um laço para pegar os animais mais bravios" (Viagem ao Brasil,
376)
Von Martius, em meados de 1817, viu no interior de São Paulo o uso da roupa de couro,
diária e comum: "Os paulistas do povo, os peões sobretudo, costumam usar uma sela
pequena, chata, de madeira, que nem sempre é forrada de couro (selim), com estribos tão
pequenos que neles só cabe o dedo grande do pé. As esporas são adaptadas ao pé
descalço. No mais, consiste a roupa do peão em um curto gibão, perneiras justas e um
chapéu em forma de prato, preso ao pescoço com uma correia, tudo de couro pardo de veado
ou de capivara, e este vestuário protege-o muito eficazmente contra as cercas de
espinheiro, que tem de atravessar na perseguição aos animais" (Viagem pelo
Brasil, I, 255)
Euclides da Cunha (Os sertões, 12ª edição, 118-119) desenha o vaqueiro das
caatingas baianas: "O seu aspecto recorda, vagamente, à primeira vista, o do
guerreiro antigo exausto da refrega. As vestes são uma armadura. Envolto no gibão de
couro curtido, de bode ou de vaqueta; apertado no colete também de couro; calçando as perneiras,
de couro curtido ainda, muito justas, cosidas às pernas e subindo até às virilhas,
articuladas em joelheiras de sola, e resguardados os pés e as mãos pelas luvas
e guarda-pés de veado é como a forma grosseira de um campeador medieval
desgarrado em nosso tempo. Esta armadura, porém, de um vermelho pardo, como se fosse de
bronze flexível, não tem cintilações, não rebrilha ferida pelo sol. É fosca e
poenta. Envolve ao combatente de uma batalha sem vitórias
A sela da montaria, feita
por ele mesmo, imita o lombilho rio-grandense, mas é mais curta e cavada, sem os
apetrechos luxuosos daquele. São acessórios uma manta de pele de bode, um couro
resistente cobrindo as ancas do animal, peirorais que lhes resguardam o peito, e as
joelheiras apresilhadas à juntas. Este equipamento do homem e do cavalo talha-se
à feição do meio. Vestidos doutro modo não romperiam, incólumes, as caatingas e os
pedregais cortantes".
Dizemos a roupa do vaqueiro véstia. O chapéu, chato e redondo não guarda para o
nordeste a proteção do cobre-nuca que Wied-Nieuwied fixou no alto sertão baiano,
na fronteira com Minas Gerais e Rugendas desenhou em Goiás. É preso ao queixo pelo barbicaxo,
espécie de jugular. Mantém-se o gibão, curto, antigo ou cobrindo o assento, de certo
tempo para cá; as perneiras, que são calças; o guarda-peito, colete solto, duma só
peça, bordado a retrós, os guantes, luvas que apenas defendem o dorso das mãos,
e os sapatões de couro cru, durando uma existência.
É uma raridade encontrar-se o peitoral no cavalo, larga faixa de couro
guardando-lhe o peito. É ainda comum nos sertões pernambucanos, para o sul. Para o
norte, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, quase desapareceu.
(CASCUDO, Luís da Câmara. Tradições populares da
pecuária nordestina) |
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