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Vitória-Régia
A VITÓRIA-RÉGIA

No mistério das águas profundas dos rios e dos lagos amazônicos há sempre uma estória a contar. Não há quem, tendo visto uma vitória-régia em toda sua plenitude, adornando um lago ou enfeitando um rio, possa esquecer aquele cenário de verdadeiro encantamento. O remanso dos rios ou o lago que é seu viveiro, são espelhos onde Iaci – a lua – vaidosa e sedutora, reflete-se para chamar a atenção das caboclas que a têm como visão inspiradora do amor.

No cimo das colinas as cunhãs esperavam o aparecimento de Iaci, acreditando que ela trouxesse o bem do amor, pois seu beijo tornava-as iluminadas, desmaterializando-as e transformando-as em estrelas.

Contam que, certa vez, uma linda cunhã, levada pelo amor, querendo, transformar-se em estrela pelo contato selênico, procurou as grandes elevações, montes, colinas e serras, na esperança de ver seu sonho realizado, naquele momento de magia e felicidade. Naquela noite de luar, quando as estrelas do céu pareciam entoar cânticos à beleza da terra, a linda jovem querendo tocar na lua, que se banhava no lago, lançou-se às águas misteriosas, desaparecendo em seguida. Iaci, a lua, num instante de reflexão apiedou-se dela, que era tão bonita e encantadora, e, como régio prêmio à sua beleza, resolveu imortalizá-la na terra por ser impossível levá-la consigo para o reino astral, e transformou-a em vitória-régia – estrela das águas - , tão formosa como as estrelas do céu, com o perfume inconfundível, que jamais foi dado a outra flor. "Depois, dilatando tão justo prêmio, estirou-lhe, quanto pode, a palma das folhas, para maior receptáculo dos afagos de sua luz, amorosamente reconhecida".

Ainda hoje vive a vitória-régia o esplendor que recebeu naquela noite de luar, quando Iaci, soberana da noite, imortalizou-a com o beijo de luz que ainda perdura, e que teve o destino de transformá-la em estrela das águas.


(MELO, Anísio. Estórias e lendas da Amazônia)
Ilustração de Marcos Jardim

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