Fandango para o norte e nordeste do Brasil
é um auto denominado Marujada pelo sul. Barca na Paraíba. Pelo Rio Grande do Suil, Santa
Catarina, Paraná, São Paulo, é baile, festa, função onde executam várias danças
regionais. É a acepção dos países do Prata, fiesta gauchesca con baile, na
definição de Eleutério F. Tiscornia (Poetas gauchescos, Buenos Aires, 1940). É
a voz espanhola: Fandango, cierto baile muy antigo y común en España. Estendeu-se
o fandango-baile pela América Espanhola, da Argentina ao México, conservando-se nas
regiões dos Estados Unidos que outrora foram castelhanas, Califórnia, Texas, Novo
México, onde fandango is applied to a ball or dance of any sort, regista o
dicionário de americanismos de John Russel Bartlett; amusement, frolie, merrymaking,
no Novo Michaelis. Na Espanha baile é a dança e la reunión para bailar,
esta a versão mais comum no Brasil. Sílvio Romero regista o Baile da Lavadeira (Sergipe),
que não é dança mas auto com danças.
O número das danças incluídas no fandango-baile é interminável. Cada uma delas possui
coreografia, letra e solfa, originando-se em Portugal, vindas através dos Açores, Cabo
Verde ou diretamente; da Espanha, pelos países lindeiros, e de procedência
nacional, adaptando fauna e flora, tatu, anu, balaio, cará
Fandango-dança, no
ritmo ternário, com castanholas, lembrando os velhos boleros, existe no
norte de Portugal sem que houvesse sido transplantada para o Brasil. Manuel Ambrósio
descreve um fandango em Januária, rio São Francisco, onde duas filas de oito homens
sapateiam e dão voltas, cantando versos que o coro responde: - Fandangô!
O fandango, auto de marujos, tem maior área de função, e pertence ao ciclo do
Natal. No Rio Grande do Norte, onde é representado desde 1812-1816, vindo de Pernambuco,
e jamais interrompido, diz-se fandango, no singular. Personagens vestindo fardas da
Marinha de Guerra, dançando e cantando ao som de instrumentos de corda, em vinte e quatro
jornadas, como se usava no século XVI, ou partes. Em alguns fandangos (Ceará,
Paraíba, Bahia) intervêm os mouros, vestidos de vermelho, assaltantes, vencidos e
batizados. Noutras regiões esse episódio constitui um auto independente, a chegança,
ou chegança de mouros, que apareceu em Natal em dezembro de 1926 mas ficou sendo
anualmente levada ao público. No Rio Grande do Norte e Pernambuco não há mouros e
nenhuma figura feminina aparece, como a Saloia, na barca na Paraíba.
Figuram: Mar-e-Guerra, Imediato (Não existia nos velhos fandangos), Médico (recente e
dispensável), Capitão (comanda a nau), Piloto, Mestre, Contramestre, dirigindo estes as
alas de marujos, Calafate e Gajeiro, e os dois cômicos, Ração e Vassoura, declamando versos,
distribuindo pilhérias, contando anedotas, animando a função. São os centros
indispensáveis para manter a assistência durante horas e horas à espera da Missa do
Galo. No Literatura Oral (Cap. X, Rio de Janeiro, 1952) transcrevi todo o auto,
integralmente, com exaustiva informação no assunto dos principais autos, fandangos,
cheganças, congos, bumba-meu-bois.
O fandango-auto ;e uma reunião de cantigas portuguesas e brasileiras, em vários gêneros
poéticos, constituindo jornadas. O auto é todo cantando, dançado, declamado.
São portuguesas típicas as xácaras, a Nau Catarineta na 16ª jornada, e Sua
Alteza a quem Deus Guarde, 21ª jornada, tradicionais e conhecidíssimas na terra de
origem. Cantam muitas chulas, Adeus, ó bela menina, Passarinho preso canta, Adeus,
meu lindo amor, outrora divulgadíssimas e entoadas ao violão, distante do fandango-auto.
O fio dramático decorre da secular xácara da Nau Catarineta, que tantos estudos
tem merecido (Bibliografia no Cantos populares do Brasil, de Sílvio Romero, I,
104, Rio de Janeiro, 1954; Augusto Meyer, Guia do folclore gaúcho, Rio de Janeiro,
1951, e A Nau Catarineta, de Fernando de Castro Pires de Lima, Porto, 1954). O
Gajeiro é o Diabo e tenta o Mar-e-Guerra que o repele, salvando-se todos da calmaria.
Outrora o gajeiro pulava no mar. Hoje preocupa, simplesmente, seu lugar na fila dos
marinheiros. As demais partes referem-se às peripécias da vida maruja, e outras são
canções líricas ou chistosas.
A orquestra é invariavelmente de pau-e-corda. Não há instrumentos de sopro. O fandango
se inicia pela chegada da Barca, miniatura de navio a velas, puxado pela tripulação que
vem cantando a primeira jornada, o Tiruléu, léu, léu, até a praça onde está
armado o tablado. Encostam a Barca, entoando a segunda jornada: Marinheiros somos!
Marujos do Mar! Galgam a escada, na terceira: Saltemos todos em terra!
Seguem-se as restantes em três ou mais horas de apresentação, fora o intervalo para a
refeição, constante do auto, intercortada pelas graças, com pimenta e sal, do Vassoura
e do Ração. É um auto acentuadamente português, exaltação aos navegantes lusitanos,
mas não existe em Portugal.
Chegança, como o fandango, denominava dança portuguesa, de par solto, saracoteada
e lasciva, que Dom João V proibiu em maio de 1745 por indecente. Nenhuma relação com o
auto brasileiro do mesmo nome, tendo por motivo a luta de Cristãos e Mouros, no interior
de uma nau de guerra, com intermináveis encontros a espada, arma única. É dividido em
partes e não há acompanhamento musical ao canto que decorre ritmado pelos tambores,
caixas-de-guerra, em rufos incessantes. Surge como uma série de cenas marítimas, com a
intercorrência guerreira do assalto dos Mouros, a cena essencial, longa batalha que
finaliza pela rendição e batismo dos assaltantes pagãos. Inclusive a princesa moura.
Outras cenas evocam o contrabando dos guardas-marinhas, presos, condenados e perdoados, as
brigas entre oficiais, a tempestade, através de ampla concorrência de quadrilhas
populares. O Padre Capelão faz as despesas do bom-humor, plebeu e contagiante.
Alcança do Ceará a Minas Gerais, através da Bahia.
A luta entre Cristãos e Mouros sempre constituiu na Península Ibérica um vivo
centro de interesse sentimental e mesmo patriótico. Vivem na Espanha e Portugal as
batalhas entre infiéis e cristãos, desafiados ou assaltando castelos para livrar
princesas prisioneiras, mouras ou cristãs, escaramuças e volteios com a inevitável
derrota agarena. Alimento constante para a emulação prestava a História de
Carlos Magno e dos Doze Pares de França, a contar do século XVIII e que, nas
primeiras décadas do XIX, já se representava no Brasil Central como Pohl assistiu em
1814, em Itamaracá, à beira-mar, entre castelos armados sobre tablados. Por todo o
continente o motivo reapareceu nos dramas, como na instalação da Igreja de San Juan de
los Caballeros, Novo México, já em 1598, encenava-se o drama Moros y Cristianos,
informa o professor John E. Englekirk. Nieves de Hoyos Sancho compendiou larga
informação no seu ensaio Las Luchas de Moros y Cristianos en el Brasil (Revista
de Indias, nºs 57-58, Madri, 1954), com excelente bibliografia brasileira.
O aspecto mais popular do Cristãos e Mouros não será o auto mas a cavalgata, o desfile
de cavaleiros, vestindo azul ou encarnado, empenhando-se em duelos singulares ou coletivos
de espada, partindo de castelos ou fortalezas, com ou seu motivo sentimental de donzelas
aprisionadas. Essas cavalgatas galopam quase todo o Brasil, desde o Rio Grande do Sul,
como von Martius presenciou no Tijuco, na festa comemorativa da aclamação de João VI,
1818, e no janeiro do ano seguinte em Ilhéus. Identicamente Sait-Hillaire em São
Domingos, Minas Gerais. Alta escola de equitação, volteiros e entrechoque de espada, do
alto de cavalos ricamente arreados e de cavaleiros vestidos espetacularmente. Essas Cavalhadas,
com o jogo da argolinha, já mencionado por Fernão Cardim em 1583, mesmo que não debatam
entre si, conservam os trajes e cores clássicas do azul e do vermelho, como na do
Bebedouro, arredores de Maceió, guiadas as alas por Roldão e Oliveros.
Possivelmente a chegança valeria a chegada, ação de chegar, dos elementos
agentes no auto. Guilherme de Melo dividia a chegança em Chegança de Marujos, o
fandango-auto, e chegança de mouros, a chegança propriamente dita. A música da chegança
é a mais harmoniosa e bonita em seu conjunto. Segue-se a do fandango-auto.
Salvam-se algumas do bumba-meu-boi e raras dos congos. Da popularidade
desses autos em que figuram capitães ousados e mouros atrevidos lembro Quevedo informando
que alguém habia salido capitán en una comedia, y combatido com moros en una danza.
Os combates continuam
(CASCUDO, Luís da Câmara. Folclore
do Brasil) |
 Agarena - Muçulmana.
Descendente de Agar, escrava egípcia de Abraão e mãe de Ismael.
Chistosas Que tem graça, espirituosas.
Emulação Imitar por emulação.
Gajeiro Marinheiro encarregado de vigiar no
cesto da gávea as embarcações ou a terra.
Lindeiros Relavtivo à linda ou
limite;Limítrofe.
Solfa Música escrita, solfejo.
Ternário Relativo ao número três,
dividido em grupos de três. |