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FESTAS DO NATAL, ANO NOVO E SANTOS REIS

A propósito deste capítulo do presente livro, capítulo que havíamos enviado, como contribuição, ao I Congresso Brasileiro de Folclore, realizado no Rio de Janeiro, em agosto de 1951, o senhor professor Basílio de Magalhães, como relator, deu o seguinte parecer que aqui transcrevemos, data vênia, com os nossos agradecimentos ao ilustre folclorólogo brasileiro:

Tal é a epígrafe escolhida por Walter Spalding para sua interessante contribuição ao I Congresso Brasileiro de Folclore. Muito me desvaneceu o ter sido designado para relator do parecer sobre a mesma, pois considero o seu autor e Dante de Laytano como vanguardeiros do atual e imponente movimento em prol da nossa demopsicologia na terra gaúcha, baluarte da nacionalidade e repositório de tão patrióticas tradições.

Creio ter sido Melo Moras Filho quem, em nosso país, mais e melhor coligiu, passante de meio século, os costumes e produções em verso do nosso povo a propósito da comemoração do nascimento de Cristo, fixado pela Igreja no dia 25 de Dezembro, e da Epifania, celebrada a 6 de Janeiro. Dera a lume os trabalhos intitulados: Festas populares do Brasil – Tradicionalismo (1888), Costumes e tradições do Brasil – Festas do Natal (1895), assuntos de que tornou a tratar em artigos do Arquivo do Distrito Federal (tomos I, II, e IV, 1894 a 1897), reunindo posteriormente todos esses seus escritos no suculento e hoje raro volume denominado Festas e Tradições Populares do Brasil. Das suas produções desse gênero, duas há, primeiramente aparecidas no Arquivo do Estado que mais de perto interessam à tese agora lucubrada por Walter Spalding: A noite de Natal no Rio de Janeiro e A véspera de Reis. Na primeira o que ele considera peculiaridade carioca existia já desde muito nos costumes de todo o país; o dia 24 de dezembro destinava-se então (parece que outrora era mais desenvolvida a nossa sociabilidade) à troca de presentes de doces e guloseimas entre famílias consangüíneas ou amigas, que geralmente os saboreavam em comum, donde o nome de consoadas, que tomou esse hábito social que era como que obrigatório por parte dos que tinham laços de parentesco ou de íntima estima. O outro, A véspera de Reis, sintetizou a maneira popular da comemoração da Epifania no maior centro urbano do Brasil, deixando a outros observadores, que não tardaram aparecer, a apreciação dos reisados e pastoris regionais, com as respectivas cantorias.

O intelectual gaúcho aproveitou muito apropositadamente o trecho de As mulheres de mantilha, em que Joaquim Manuel de Macedo descreveu as festividades cariocas do Natal e Reis, no vicerreinado de conde da Cunha (1763-1767). E, mercê da autoridade do nosso grande romancista e dos adminículos colhidos no velho Soropita (que Camilo Castelo Branco exumou de injusto olvido) e de modernos folcloristas portugueses, pode traçar um quadro geral, sobremaneira valioso, do presepe e das pastoris que nos transmitiu o populário lusitano. Em meu Estado (Minas Gerais), vi de que modo se ligavam e encompridavam as usanças populares entre 25 de dezembro e de 6 de janeiro. Lá, os presepes, verdadeiras obras de arte, nem sempre acordes com a tradição evangélica, eram inaugurados desde a meia noite das consoadas e ficavam expostos à visita dos fiéis até o meio dia de Reis, quando não chegavam até às proximidades da Semana Santa. Seria realmente de causar pena durasse só uma noite ou unicamente uma semana a representação dada ali pela arte popular à mangedoura onde nasceu o Messias. Em certa casa de família abastada, ensejou-se-me ver (há mais de 50 anos), na cidade de São João del Rei, um presepe que muito dera que fazer a hábeis mãos femininas, entendidas em pintura e escultura, embora com alguma falta de respeito à narração deixada pelos evangelistas, sobretudo São Mateus e São Lucas, os mais minudentes dos autores tidos em conta de autênticos. Ocupava o presepe a terça parte de vasto salão e era disposto em forma de palco; serpenteava em meio dele um regato, em cujas margens se ostentava, do lado da frente, um pequeno moinho, e, do lado oposto, verdejavam pastagens, cheias de animais arrebanháveis e de outros que nunca existiriam na Palestina; ao alto, brilhava uma estrela, que iluminava o berço de Jesus, sobre o qual se debruçavam Maria e José, enquanto os reis magos ofereciam presentes ao recém-nado Redentor, circundado por uma chusma de pastores ajoelhados, em postura de adoração.

É bem de ver que, quando menino, oriundo de pais católicos, eu me limitava a aplaudir, que não a censurar, os desconchavos que se me defrontavam nas festividades populares do Natal e da Epifania. Ensinaram-me, naquela época, terem vindo do oriente três reis magos, Melchior, Gaspar, e Baltasar, um deles africano, o de nome Gaspar (corruptela de Kaspar), e que, sendo abexim ou mourisco, não podia ser negro (como o vi representado), da mesma forma que São Benedito nunca foi preto (como pretendem fazer acreditar os seus veneradores), porquanto era de origem sarracena e nascido em Filadelfo, na pérola do Mediterrâneo (Sicília). E só muito mais tarde foi que pude estranhar a confusão entre as festas de Reis e do Divino. Muito houvera eu de dizer aqui, se ousasse penetrar nesse aranhol de comemorações populares de fundo religioso.

Não posso, entretanto, furtar-me ao dever de assinalar a lamentável falta de um santo ibérico (os povos americanos pouco têm contribuindo para o aumento dos celícolas), que desempenhe, pela noite do Natal, o encantador papel de São Nicolau ou Papai Noel – (explicando eu, certa vez, a uma de minhas alunas que Noel era corruptela de Natal, notei-lhe nos olhos inteligentes a suspicácia de uma injusta dúvida). Eu não hesitarei em votar a favor da adoção do Vovô Índio, lembrado pelo ilustre escritor patrício Cristóvão Camargo, tanto mais que me desagrada assistir à representação de um velho barbudo e encapotado, palmilhando campos e tetos recobertos de neve, quando no Brasil, a 25 de dezembro, nos bastava um tamoio pudicamente vestido de singela tanga, para a distribuição de presentes às crianças mal dormidas no quase-forno com que as castiga o calor senegalesco da noite de Natal.

Tenho louvado a paciência de folcloristas portugueses e platinos, entregues à pesquisas e colecionamento de tudo quanto respeita à mitografia de fundo cristão. No Brasil, todavia não apareceu ainda um repositório completo, qual o que Walter Spalding é capaz de realizar no tocante às três festas que se estendem do Natal à Epifania. E penso que o nosso patrício houvera de demonstrar a influência de tão importantes comemorações do calendário católico em nossa onomástica geográfica-histórica.

Indigitar-lhe-ei aqui, apenas os pontos seguintes em que se perpetuou semelhante influência. A do nascimento de Cristo, repontada na Bahia de Todos os Santos, onde se fundou a capital denominada Cidade do Salvador, o batismo da capital do Rio Grande do Norte, - Natal, - o chamamento de Presépio, dado ao forte junto ao qual ergueu Francisco Caldeira de Castelo Branco, em 25 de dezembro de 1615, se é que não foi em tal data a sua partida de São Luiz do Maranhão para a embocadura do nosso rio-mar, onde a 16 do mês seguinte fundou ele Belém do Pará.

A baía de Guanabara recebeu a visita dos portugueses a 19 de Janeiro de 1502. Devia ter sido batizada baía da Circuncisão. Mas, não tendo sido percorrida interiormente pelo chefe da expedição inicial, destinada oficialmente ao conhecimento da nossa orla atlântica, foi confundida com a larga foz de uma corrente fluvial e rotulada como – Rio de Janeiro. Evitou-se, desse modo, a necessidade de explicar às crianças e jovens curiosas a ritualidade judaica, imposta aos recém-nascidos (só os do sexo masculino), com derramamento de sangue, no começo da segunda semana após sua vinda ao mundo.

Já a Epifania teve uma dupla consagração em nosso litoral. A primeira ainda coroa o belo porto fluminense de Angra dos Reis, avistado pela referida expedição exploradora a 6 de Janeiro de 1502. Os nossos antepassados tinham predileção por certas vozes que aplicavam a acidentes geográficos, tirando-as do latim ou da língua tudesca, angra (que se supõe oriunda de ánchora e abra que, consoante o seu étimo, melhor se grafaria habra), por exemplo. Em Portugal ainda se encontra Angra do Heroísmo, e à foz do nosso Gurupi foi dado por um membro da expedição dos irmãos Sousas o batismo de Abra de Diogo Leite. A outra consagração da Epifania ocorreu quase um século depois, quando se principiou a colonização da terra do jerimum. Para que surgisse Natal (inaugurada a 25 de dezembro de 1599), foi preciso que se construísse à foz do Rio Grande do Norte a fortaleza dos Três Reis Magos (por ter sido levantada a 6 de janeiro de 1597), topônimo que, em documentos antigos, também se encontra encurtado para Reis Magos. O nosso povo, nas solenidades com que começa a Epifania vai mais longe e diz apenas Festa de Reis.

Tais informações, sucintamente expostas, não passam de elementos que podem ser um dia aproveitados por Walter Spalding ou outro dos nossos folcloristas que tomem o bom alvitre de aprofundar tão interessantes investigações, que demandam simultaneamente conhecimentos agiológicos, corográficos e históricos.

Como quer que seja a pequena contribuição do intelectual gaúcho constitui uma grande promessa de obra de fôlego, da qual é capaz a sua brilhante mentalidade. E o meu parecer é que o I Congresso Brasileiro de Folclore se digne aprová-la, praticando não só um ato de lídima justiça, como de estímulo aos cultores das nossas tradições, aos estudiosos da nossa demopsicologia, inserindo-a nos Anais.

(MAGALHÃES, Basílio de, in SPALDING, Walter. Tradições e superstições do Brasil Sul)

Adminículo – Ajuda, auxílio, contribuição.

Alvitre – Opinião, proposta, conselho.

Celícola – Habitante do céu.

Corográfico – Estudo geográfico de um país ou de uma de suas regiões.

Data vênia – Com a devida vênia. Emprega-se respeitosamente quando, numa argumentação,se vai discordar de alguém.

Desconchavos – Tolices, disparates.

Epifania – Aparição ou manifestação divina ou uma festividade religiosa que celebra essa aparição.

Epígrafe – Título ou frase que serve de tema a um assunto. Mote.

Étimo – Vocábulo que é a origem de outro.

Lídima – Legítima, autêntica.

Lucubrada – Meditação,cogitação.

Lume – Luz, fulgor, brilho.

Olvido – Esquecido.

Onomástica – Estudo da etimologia,morfologia, etc. dos nomes próprios de pessoas ou lugares.

Regato – Riacho.

Tudesca – Diz-se dos antigos germanos. Tedesco.

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