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A MULINHA DE OURO

Ligada aos folguedos natalinos, a mulinha-de-ouro era alegria, todos os anos, em Januária, até começo do segundo quartel deste século. Sobrepujada, talvez, pelo boi, de lá para cá seus organizadores foram de desertando. Hoje, ela ocorre com pouca freqüência no norte de Minas, sobretudo na orla mais setentrional, limítrofe com a Bahia. Aliás, aqui sobrevive, no município de Santo Amaro, sob a denominação de burrinha. Tais nomes resultam da principal atração do grupo, a mula, no lombo da qual está um vaqueiro.

Como toda folia do ciclo, o bando é precatório. Cada exibição, à porta de alguém, dura cerca de oito a dez minutos, ao som de música ruidosa, podendo repetir-se, quando a esmola é gorda.

Verdade, ninguém está montado, apenas impressão. A estrutura que representa o animal é feita de cipó. Quem segura a rédea, fazendo as vezes de cavaleiro, tem os pés no chão, sendo visto da cintura para cima, em traje de couro, conforme o uso da terra. Um pano marrom cobre a grade e desce ao nível do solo, por isso esconde-lhe o corpo da cintura para baixo.

Não se omitem detalhes: rabo de crina, cabeça de papelão, tipo máscara, articulada, móvel à ação da rédea. Para disfarçar ainda mais, faz-se de papel a sela, e em cada aba desta prende-se uma perna artificial, com sapato e espora, e penduram-se loro e estribo.

Em volta, durante o espetáculo, enquanto a mula corcoveia indômita aos gritos da assistência, moças e rapazes cantam versos assim:

Eu fui na serra
Buscar vovó
Fui na mulinha
De ouro só

A mulinha é de ouro
É de ouro só
Eu também sou de ouro
De ouro só

A mula puxava
E acochava o nó
Eu lhe sentava a taca
De ouro só

A mula rinchava
De fazer dó
Eu lhe chegava as esporas
De ouro só

A mula assoprava
Que subia pó
Eu esticava a brida
De ouro só

O rabo da mula?
–É de ouro só!

A barriga da mula?
– É de ouro só!

O pescoço da mula?

- É de ouro só!

A mulinha é de ouro
É de ouro só
Eu também sou de ouro
De ouro só


(MARTINS, Saul. Folclore em Minas Gerais)

Sapateia, mulinha
É ouro só
Dá pinote, mulinha
É ouro só
Faceira mulinha
É ouro só

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Brida - Parte do arreio de um cavalo que compreende o freio e as rédeas.

Indômita – Indomada, não amansada.

Limítrofe – Fronteiriço.

Loro – Fita comprida e estreita de couro usada para fixar os arreios no animal de sela.

Precatório – Em que se pede algo;rogatório.

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