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Vitória-Régia
ETIQUETA NOS BANQUETES DO BRASIL DOS SÉCULOS XVIII E XIX

Dom João de Nossa Senhora da Porta Siqueira, na sua Escola de Política ou Tratado Prático de Civilidade Portuguesa, impresso em Lisboa, edição de 1786, saído das oficinas de Antônio Álvares Ribeiro – com licença da Real Mesa Censoria, livro que era para nós o oráculo da civilidade do tempo, pela simples razão de não existir outro oráculo, dizia que, convidada para algum jantar ou banquete de cerimônia, a pessoa devia apresentar-se cheia de agrado e de alegria, de sorte que o vestido o desse a conhecer.

Riso, portanto, à flor dos lábios cor-de-rosa, casaca verde cor de pensamento, véstia amarela manteiga nova e calção cor de alecrim, que eram as cores mais frescas e alegres da época.

Em caso de luto pesado, devia-se aliviá-lo. O de luto aliviado podia apresentar-se de roupa preta, mas que fosse de veludo ou seda, e com os cabos brancos.

Era assim, dando provas de contentamento e louçania, que um convidado devia penetrar a intimidade da casa que se preparasse para um bródio.

Não diz Siqueira o momento protocolar dessa entrada, como não diz, ainda, mas sabe-se, que na hora de ir à mesa, quando o convidado chegava ao lugar da refeição, via sempre três negros vestidos dos mais imprevistos uniformes, indefectivelmente descalços, apresentando: um, uma bacia de pau cheia d’água; outro, a tigela de sabão, e un terceiro, mostrando, no cabide do ante-braço, uma toalha de linho de Guimarães, bordada ou toda aberta em renda.

As abluções faziam-se, entretanto, rapidamente. As abluções do tempo. Mais etiqueta que asseio. É bom não esquecermos a frase dolorosa que está no diário de Rose Freycinet, quando ela nos fala do Brasil que viu no começo do século XIX: a sujeira é geral, e levada ao cúmulo onde há nobres. A sujeira de punhos de renda e de espadim dourado.

O que faltava, porém, em matéria de asseio, sobrava em matéria de religião. Antes de sentar-se à mesa: - sinal da cruz – benedice do pão, várias e tocantes orações, antes e depois da comida, tudo para provar mais aos circunstantes que a Deus, a pureza das alminhas incapazes de malícia e pecado.

As senhoras ficavam todas de uma banda, na mesa; os cavalheiros de outra.

Quando os convivas se sentavam, já estava posta, para ser servida, toda a primeira coberta. Depois de sentados, mais uma vez: - Em nome do Padre, do Filho, do Espírito Santo…

De muitas cobertas compunha-se um repasto por um dia de festa. A coberta era uma reunião de numerosos pratos mais ou menos do mesmo gênero, postos à mesa de uma só vez. Uma coberta podia contar até de trinta ou quarenta recipientes com iguarias todas diversas.

O melhor deles vinha sempre como um grande astro, no sopeirão de maior etiqueta, mostrando, em redor, os menores, todos com as suas tampas. Em última linha é que ficavam, então, os pratos dos convivas, muito bem cobertos com o guardanapo dobrado por cima, quando havia guardanapo. Não esquecer a sarabanda de moscas em torno, furiosas todas pelas medidas de defesa tomadas e que as impediam de gozar as primícias das suculentas iguarias.

O número de cobertas variava de acordo com as necessidades de momento.

Domingos Rodrigues, na sua Arte da Cozinha, organiza desta forma um banquete com três cobertas:

"Primeira coberta – Três pratos grandes de perdizes lardeadas, guarnecidas com lombo de porco de conserva. Coelhos de celada, guarnecidos com paios. Frangos assados, sobre sopa de camoezes. Perusas assadas, com salsa real. Pombos assados, guarnecidos com lingüiça e pão ralado. Peitos de vitela recheados sobre fatias alabardadas. Plegares de vitela assados à francesa. Lombo de porco assado com tordos, e galinhola sobre sopa de amêndoa.

Segunda coberta – Três pratos grandes de perdizes de peito picado, guarnecidas com salsichas. Coelhos de gigote, guarnecidos de natas. Galinhas de Fernão de Souza, guarnecidas com pastelinhos de galinha, falsos, sem massa. Perus recheados, guarnecidos com mãos de porco alabardadas. Aves extraordinárias sobre sopas de peros camoezes. Frangões fritos de conserva. Trouxas de carneiro e ovos, guarnecidos com línguas de carneiro. Pernas de porco estofadas em vinho branco com pexirril e alcaparras, guarnecidos com achar de cabeça de porco". Vinha porém, ainda uma terceira.

"Terceira coberta – Três pratos grandes com três pastelões de todas as carnes. Covilhete de folhado. Três tortas de massa tenra de presunto agro e doce. Empadas inglesas. Empadas de vitela salsichadas. Pastelinhos de galinha, fritos. Empadas de espeto ao lombo de porco. Torta de fruta e ovos de folhado francês. Pastelinhos de vaca de dama, manjar real. Fruta de manjar branco".

Ficava no lugar de honra da mesa o senhor da casa encarregado da tarefa de servir os convidados, bem como de dar, com bonhomia, os maiores informes sobre a composição e precedência do que estivesse a servir.

– Esta olha levou dois arratéis de toucinho de porco, afora outras gorduras apreciáveis, mas sintam como ficou ótima…

De ver a volúpia que uma notícia dessas causava à assistência… As narinas ansiosas reniflavam, como as moscas…

Mandava o bom tom que todo aquele que recebesse do dono da casa o prato que lhe era destinado, fizesse uma leve inclinação de cabeça, uma leve menção de beijá-lo.

Siqueira da Porta é quem melhor nos orienta sobre todas essas etiquetas da mesa. É assim, por exemplo, que ele lembra que não se faz, ao comer, saco com a boca, nem se mastiga com estrepito, nem se estão mexendo muito os queixos. Proibição expressa de pitada ou cheirada de rapé. Era de bom tom, com o guardanapo, alimpar antes de beber e não deixar vinho no copo. Quanto ao manejo de colher, informa o autor da famosa Política: é grosseria lambê-la, deixar nela caldo ou o molho do prato ou da tigela.

Maneira de comer: nunca estejamos enxugando com o miolo do pão, apanhando até a última gota do molho, que mostra gulodice, antes é política deixar nele alguma coisa do manjar que se tirou, que não digam, depois, que o alimpamos.

Quanto ao palito, diz o mestre de etiquetas: não parece muito grave palitar à mesa. As dentuças, portanto podiam ser podiam ser esgaravatadas à vontade. A ordem era de Siqueira da Porta, único professor de etiqueta com que contava a raça.

O que se achava de mau tom era, depois de palitar, se o palito era de pau, guardá-lo para as refeições seguintes no cabelo, atrás da orelha ou espetado na casaca.

Parece que se achava, pelo tempo, Porta da Siqueira muito exigente, com todo o seu livrinho e com toda aquela cortesia de que no prólogo fez ele menção, dizendo dela depender a paz da república e a boa harmonia da sociedade.

O fato é que boas maneiras não as tínhamos. As vocações da época, pelo menos, não foram bem aproveitadas. Nem podiam. Francamente. Veja-se, por exemplo, Melo Moraes Pai, o probo e meticuloso historiador, documentando o que narra. Herói do caso – o conde de Anadia, fidalgo da melhor estirpe e que, de Portugal, veio com o príncipe dom João, que dele fez seu ministro de Marinha e Ultramar. Por sinal que bom ministro.

Certa vez, o doutor Francisco Leal, médico do primeiro hospital militar do Rio, e que na cidade mantinha uma posição de alta elegância social e relevo, convidou o conde para uma merenda em sua casa. Lá foi o conde.

Seja dito de passagem: esse fidalgo, que muito aparece nas Memórias de Laura Junot, na sua qualidade de homem de espírito, que o foi e de verdade, detestava, muito naturalmente, a choldra que isso por aqui era. Detestava a morrer. Detestava sofrendo. Pobre conde de Anadia! A América sufocava-o. Tudo aqui lhe era hostil: a terra, o céu, o sol, o clima, a gente. Gente, então, bárbara, mescla de branco arrogante, de mulato pernóstico, de índio rude e negro selvático. Mil vezes, portanto, a Lisboa usurpada por Junot, com o Joânico falando em francês, e outras humilhações bem menores, certo, que a de viver em rincão tão ingrato, a reboque uma corte de papelão dourado, ao lado de um rei que era a vergonha de uma monarquia. Mil vezes! O conde de Anadia, era, na realidade, um homem de espírito. O conde tinha, depois disso, justas e naturais ternuras pelo seu estômago, víscera nacionalista, e naturalmente idiosincrata dos produtos da nossa terra.

O ódio com que ele fulminava todos os fubás e mingaus da cozinha silvícola, comida de caboclo repelente e chambão! Na sua casa, o cozinheiro era vindo de Lisboa. E só quase de conservas portuguesas se nutria, pois muito pouco das coisas do Brasil queria, enfim, saber.

Por isso, não ia ele comer à casa de qualquer. Resguardava a víscera. Defendia-se desses repastos bárbaros, cheirando a cubata ou a taba. Não ia a bródio caboclo. Ficava em família, empanturrando-se de pescada em salga e bacalhau seco, vindos de lá, esmoendo a sua raiva, rafinando as suas bílis, esperando, de punho fechado contra o Pão-de-Açúcar, que Junot voltasse de novo a Paris, desentupindo o beco lisboeta onde morava.

Era um homem assim.

Não se sabe, portanto, por que razões foi Anadia à casa de Francisco Leal, que era brasileiro, e mais, sentar-se à sua mesa, a menos que nela houvesse em sua honra olhas especialíssimas à moda lisboeta, salpicões recém-chegados do Porto, uma pescada portuguesa de escabeche ou algum prato de bacalhau em chamusco.

Ora, o que se sabe é que o senhor conde de Anadia, um tanto empanturrado e feliz, pelo fim do repasto, achou-se, de repente, diante de um prato completamente novo.

Era um bolo esquisito, de um azulado vago e de um aspecto excelente.

– Que isto é? – indaga ele, entre curioso e glutão.

– Prove V. Ex., - diz uma senhora, a do doutor Leal, que de outras senhoras ainda se enchiam vários lugares da mesa.

O conde meteu um pedação de bolo naquela boca que só falava mal do Brasil e gostou.

– Bom, excelência? – indaga outra senhora, conhecedora da brasilosofobia sistemática do conde.

O fidalgo não pode responder porque comia, entalava-se, mas fez, com a cabeça, um sinal que queria dizer – sim, muito bom e, com os olhos, arregalando-os, outro sinal que queria dizer: Ótimo! Não podia ser melhor!

Foi quando alguém, ao lado, com todo o respeito, informou:

- Pois V. Ex. goza um doce feito de goma de mandioca, produto desta América…

E ia acrescentar:

- Folgamos todos por ver, tão sinceramente, V. Ex. reconciliar-se com as cousas do Brasil, - quando o fidalgo se ergueu numa rajada impetuosaa, o olho congestionado, cheio de uma bravura que, certamente, não foi a de suas maiores e… (transcreve-se, agora, palavra por palavra, o texto do historiador Melo Morais): para mostrar a sua repugnância, fez jogo do resto do bolo que comia pela janela, mostrando-se arrependido de o haver comido, a cuspir, como enjoado.

Entreolharam-se os presentes, estupefatos. As senhoras, ante o gesto de nova e alta cortesia do fidalgo de mais alta linhagem, quedaram-se imóveis, petrificadas. Só se ouvia o voar de moscas coloniais.

O doutor Francisco Leal, embora filho de uma das melhores e mais ricas famílias da terra, era um simples médico do exército d’El-Rei, sem pergaminhos e sem escudos. Parece que, como resposta de maior conveniência e propósito, sorriu. Sorriu e quedou silencioso. Sorriu também a dona da casa. Sorriram os convidados. Todos enfim, sorriram e trataram de esquecer, naturalmente, os destemperos do fidalgo.

Nesse instante, porém, o bolo do conde de Anadia tinha penetrado a história…


(EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis)

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