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CAFEZINHO

Oferecer um cafezinho a uma visita é costume profundamente enraizado nos hábitos locais e segue um ritual prescrito. Além de ser a expressão cafezinho a forma diminutiva de café, é, nesse caso, também um meio de rebaixar o valor do oferecimento do dono da casa, constituindo, assim, um gesto de cortesia para com os hóspede. Pode estar longe, entretanto, de constituir um pequeno oferecimento: embora o tamanho da xícara varie com as acomodações da casa, pode chegar até a conter ¼ de litro. O cafézinho é servido a qualquer hora do dia ou da noite, sempre que, por qualquer razão, chegue uma visita. Se essa tem pressa e levanta-se para sair antes que tenha servido o cafezinho, o dono da casa dirá usualmente: "Não senhor, espere o cafezinho. Já tá passando. Onde se viu tanta pressa? Espere o cafezinho, depois o senhor vai."

O hóspede nunca é consultado se deseja um cafezinho; sempre se supõe que deseje. É servido pela esposa ou pelas filhas do dono da casa a quem visita, e no caso de ser homem, a menos que seja íntimo da família, usualmente não as vê, até que o dono da casa as chame para trazer o café. Este tem que vir nos melhores recipientes que haja na casa. Pode ser em xícaras de chá, xícaras pequenas, ou latinhas, em boas condições ou mesmo desbeiçadas, rachadas ou amassadas; mas devem ser melhores que se possuem. O café é servido como o dono da casa está acostumado a tomar, isto é, fraco ou forte, quente ou morno, a menos que seja conhecida a preferência da visita, quando então o dono da casa pode dizer, por exemplo, como sinal de especial cortesia: "Pus mais pó do que costumo proquê sei que mecê gosta de café mais forte".

Quando a visita terminou sua xícara, o dono da casa diz: "Tome mais! Se gostô, tome mais!" A cortesia exige que ele insista sobre esse ponto, e, se a visita deseja agradar especialmente o dono da casa, aceita uma segunda xícara. Ao mesmo tempo, se a visita, depois de tomar um gole da primeira ou segunda xícara, observar: "Eh, cafézinho bão, tá memo no tempero que eu gosto!", está implícito que deseja outra xícara. Do contrário, dirá, ante a insistência do dono da casa: "Munto obrigado, seu café tá munto bão, mais eu tô sasfeito".

O cafezinho simboliza a hospitalidade do dono da casa. É uma forma de cumprir uma obrigação que tem o homem de dar alimento e abrigo a todo hóspede que recebe em casa. O cafezinho é conseqüentemente oferecido mesmo quando se trata de visita rápida de modo que na realidade ninguém deixa uma casa sem ter recebido pelo menos alguma coisa que lhe tenha sido dada com prazer.

Oferecer um cafezinho serve também para sondar as atitudes e as intenções do hóspede que o dono da casa não conhece. Ele põe a visita em contato com seu café, seus utensílios e sua família que o vem servir. Observando cuidadosamente a maneira com que a visita aceita o cafezinho e toma a primeira xícara e as seguintes, ele pode avaliar-lhe melhor as intenções.

Se uma é recebida e não lhe oferecem um cafezinho, é claro que é persona non grata nessa casa ou o hospedeiro é muito mal-educado ou muito miserável. O oferecimento de um cafezinho simboliza a tal ponto a cortesia do dono da casa, que para se referir desrespeitosamente a uma pessoa é comum dizer-se, "Ele nem oferece um cafezinho pra gente".

Entretanto, é raro que se deixe de fazer esta cortesia. Mesmo que uma pessoa seja extremamente pobre, quase nunca é desprovida de boas maneiras a ponto de omitir o cafezinho, exceto em circunstâncias especiais. Quando o cafezinho é oferecido por uma ocasião de uma primeira visita, é usualmente porque o hóspede é pessoa cujas feições, trajes ou comportamento despertaram suspeitas. A uma pessoa assim, antes mesmo que tenha entrado na casa, o caipira pode dizer, com frieza: "Entre pra drento, bamo chegá", o que, para quem esteja familiarizado com as expectativas locais, quer dizer claramente: "Vá andano que eu tenho mais o que fazê". Ao passo que as mesmas palavras, ditas em tom diferente de voz e acompanhadas por gestos diferentes, indicariam alto grau de boa vontade, no sentido de que a casa da pessoa está sendo posta à disposição do hóspede.

Por outro lado, recusar o estranho um cafezinho que lhe tenha sido oferecido é ofensa grave. Numa comunidade em que beber café é costume generalizado, ninguém pode acreditar que a recusa seja devida a aversão real pelo café. Só pode ser gesto de pouco caso. O fato pode ser depois comentado em toda a comunidade com as seguintes palavras:

"Ele acha que as nossa vasia era munto grossero pra levá na boca".

"Ele tá custumado com coisa mió e despreza o que o gente tem pra oferecê".

"Se é tão mió que a gente ansim, num percisa vim aqui em casa."

Não aceitar um cafezinho, entretanto, é desculpável em determinadas circunstâncias: quando, por exemplo, o dono da casa sabe que a visita foi proibida pelo médico de tomar café; quando é noite, e a visita pode dizer: "O café me tira o sono", ou quando se sabe que a visita há pouco tomou alguma coisa fria, como água ou cerveja, que, como disse um informante, "tudo mundo sabe que não se deve misturá com uma bebida quente como o café". Mesmo em tais casos, entretanto, a recusa deve ser feita com tato; deve ser acompanhada de palavras e outros gestos que não deixem dúvidas no espírito do dono da casa sobre o verdadeiro motivo da recusa. A visita, em geral, diz: "Eu fico munto obrigado; mais... desculpe, fica pra outra veis."

Se uma mosca ou coisa estranha cai no cafezinho, a visita não deve chamar a atenção para o fato, nem por palavras, nem por gestos. Deve a todo custo evitar embaraços para o dono da casa. "Se ela num toma café", observou um informante, "o dono da casa vai perguntá o que aconteceu. Vai examiná a xícra e descobri o que hove. E isso ele num havia de gostá". Comportamento semelhante é esperado no caso de a visita descobrir que falta açúcar no café; abre-se exceção, nesses casos, somente quando há um alto grau de intimidade entre a visita e o dono da casa.

Entretanto, o comportamento esperado com referência ao cafezinho varia em certas circunstâncias. Se a visita é parente ou amigo chegado, o dono da casa pode dizer: "O café tá lá no fogão, quando quisé, já sabe..." Se a visita chega pouco antes de uma das principais refeições do dia, o dono da casa não oferecerá um cafezinho, pois isso poderia ser interpretado como significando que está evitando convidar a visita para a refeição. Se o dono da casa quer bem impressionar uma visita, oferece não somente um cafezinho, mais também bolo ou outras gulodices, estende uma toalha na mesa e de outras maneiras mostra-lhe consideração especial. Esse comportamento, entretanto, pode também ser empregado como maneira indireta e sutil de criticar a visita que, tendo recebido o dono da casa em sua própria casa, não o tratou como este pensava merecer.

(PIERSON, Donald. Cruz das Almas.)

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