Cena
I
(O Cavalo-Marinho a dançar, e o coro)
Coro:
Cavalo-Marinho
Vem se apresentar
A pedir licença
Para dançar
Cavalo-Marinho
Por tua atenção
Faz uma mesura
A teu capitão
Cavalo-Marinho
Dança muito bem
Pode-se chamar
Maricas meu bem
Cavalo-Marinho
Dança bem baiano
Bem parecer ser
Um pernambucano
Cavalo-Marinho
Vai para a escola
Aprender a ler
E a tocar viola
Cavalo-Marinho
Sabe conviver
Dança o teu balanço
Que eu quero ver
Cavalo-Marinho
Dança no terreiro
Que o dono da casa
Tem muito dinheiro
Cavalo-Marinho
Dança na calçada
Que o dono da casa
Tem galinha assada
Cavalo-Marinho
Você já dançou:
Mas porém lá vai
Tome que eu lhe dou
Cavalo-Marinho
Vamo-nos embora
Faze uma mesura
À tua senhora
Cavalo-Marinho
Por tua mercê
Manda vir o boi
Para o povo ver
Cena II
(O Amo, O Arlequim, o Mateus, O Boi, O Coro, O Sebastião e o Fidelis)
Amo:
O Arlequim
O pecados meus
Vai chamar Fidelis
E tanbém Mateus
O meu Arlequim
Vai chamar Mateus
Venha com o boi
E os companheiros seus
Arlequim:
O Mateus, vem cá
Sinhô está chamando
Traze o teu boi
E venhas dançando
Só achei Mateus
Não achei Fidelis
Bem se diz que negro
Não tem dó da pele
Amo:
O Mateus, cadê o boi?
Mateus:
Olá, olá, olá
Boio tá pra cá
Boio tá pra cá
Se minha boio chegou
Eu tá aqui
E que foi esse
Pur aqui?O meu sinhô
Cadê-lo o Bastião
Cadê-lo o Fidere?
Para onde foro?
Venham cá vocês (para o Coro)
E também o boio
Coro:
Vem, meu boi lavrado
Vem fazer bravura
Vem dançar bonito
Vem fazer mesura
Vem fazer mistérios
Vem fazer beleza
Vem mostrar o que sabes
Pela natureza
Vem dançar, meu boi
Brinca no terreiro
Que o dono da casa
Tem muito dinheiro
Este boi bonito
Não deve morrer
Porque só nasceu
Para conviver
Mateus:
O boio, dare da banda
Xipaia esse gente
Dare pra trage
E dare pra frente
Vem mai pra baxo
Roxando no chão
E dá no pai Fidere
Xipanta Bastião
Vem pra meu banda
Bem difacarinha
Vai metendo a testa
No Cavalo-Marinha
Ô, ô, meu boio
Desce desse casa
Dança bem bonito
No meio da praça
Toca essa viola
Pondo bem miúdo
Minha boio sabe
Dança bem graúdo
Coro:
Toca bem essa viola
No baiano gemedô
Que o Mateus e o Fidelis
São dois cabras dançadô
No passo da juriti
Tico-tico, rouxinó
Se Fidelis dança bem
O Mateus dança milhó
O tocadô de viola
Parece-me um céu aberto
Eu quero boa viola
Para fazer toda a festa
O bom pandeiro concerta
O samba na floresta
Eu fui dos que nasci
Na maré dos caranguejos
Quanto mais carinhos faço
Mais desprezado me vejo
Como sou filho do povo
Tenho o dom da natureza
Não sou feliz, mas bem passo
Com toda a minha pobreza
Dança o boi, dança o Mateus
Dançam todos os vaqueiros
Dançam que hoje nós temos
Grande festa no terreiro
Mateus:
Para, para, para!
Quero dizer um recado
Boi dançou, dançou
Mai agora tá deitado!
Sebastião:
Ah! Pracêro meu
Boio de sinhô morreu
Mateus:
A tembora, bobo
O boio divertiu muito
Agora ficou cansado
Toca bico do ferrão
Pra tu vê como arrevira
E te dá no chão
Cena III
(Os mesmos, o Doutor, Capitão do Mato, Dona Frigideira, Catarina, e o Padre; caído o
boi, foge Fidelis, chama-se um capitão do campo para prender e um Doutor para curar o
Boi; aparece um Padre para fazer o casamento de Catarina)
Mateus:
Minha boio morreu!
Que será de mim?
Manda buscá outro
Lá no Piauí
Amo:
O Mateus, cadê o boi?
Mateus:
Sinhô, o boio morreu
(Sai o Mateus espancado pelo amo)
Amo:
O Mateus, vá chamar
O doutor para curar
O meu rico boi:
Quero saber do Fidelis
Para onde foi
O Sebastião, vá a toda a pressa
Chame o Capitão do Mato
Dê as providência
Que traga o Fidelis
Na minha presença
(Chegando o Doutor, ajusta com o Amo a cura do Boi; chegam Dona Frigideira e Catarina,
e Sebastião quer casar com esta; aparece o Padre para este fim)
Padre:
Quem me ver estar dançando
Não julgue que estou louco
Não sou padre, não sou nada
Singular sou como os outros
Coro:
O xente, que quer dizer
Um padre nesta função?
É sinal de casamento
Ou alguma confissão
Padre:
Bula bem na prima
Bata no bordão
Arribo a função
Não se acabe não
Doutor para Mateus:
O negro, teu desaforo
Já chegou aonde foi
Quando tu me chamares
É pra gente e não pra boi
Mateus:
Ah! uê, ah! uê!
Troco miúdo
Tu vai recebê
(O Capitão do Campo dá com o Fidelis e vai prendê-lo)
Capitão:
Eu te atiro, negro
Eu te amarro, ladrão
Eu te acabo, cão
(O Fidelis vai sobre o Capitão e o amarra)
Coro:
Capitão de campo
Veja que o mundo virou
Foi ao mato pegar negro
Mas o negro lhe amarrou
Capitão:
Sou valente afamado
Como eu pode não haver
Qualquer susto que me fazem
Logo me ponho a correr
(Finda-se aqui a função, saindo todos a cantar)
(ROMERO, Sílvio. Cantos populares do Brasil) |


A nota de Luís da Câmra Cascudo:
Para o estudo do Bumba-Meu-Boi, o bailado mais notável do Brasil, o folguedo
brasileiro de maior significação estética e social (Renato Almeida, História da
Música Brasileira, 253, ed. Briguiet, Rio de Janeiro, 1942) os documentos reunidos
por Sílvio Romero são preciosos porque evidenciam os reisados independentes, as figuras
contemporâneas e mesmo o dinamismo dos episódios sucessivos. Não há na península
ibérica folguedo que se compare, pela força dramática da expressão satírica, pela
espontaneidade dos motivos sociais, pela improvisação das falas, pela incessante
renovação das figuras que passam, exercendo sempre missão viva de exaltação ou de
crítica, ao Bumba-Meu-Boi. Suas variantes são incontáveis e o elenco tranforma-se de
região para região e mesmo de zona em zona, sertão, agreste, vales açucareiros,
arredores das cidades, brejos, etc. Henry Koster e Tollenare não o registaram em
Pernambuco entre os divertimentos populares assistidos por eles nos inícios do século
XIX. A mais antiga menção é um artigo feroz do padre Lopes Gama, no seu Carapuceiro,
datado de 11 de janeiro de 1840. Recife. É um ponto de referência para analisar a
distância e evolução do auto tradicional antigo e de seus elementos atuais. Escreve
Lopes Gama: - "De quantos recreios, folganças e desenfados populares há neste nosso
Pernambuco, eu não conheço um tão tolo, tão estúpido e destituído de graça, como o
aliás bem conhecido Bumba Meu Boi. Em tal brinco não se encontra um enredo, nem
verossimilhança, nem ligação: é um agregado de disparates.
Um negro metido debaixo de uma baeta é o boi; um capadócio, enfiado pelo fundo dum
panacu velho, chama-se o Cavalo Marinho; outro, alapardado, sob lençóis, denomina-se
Burrinha; um menino com duas saias, uma da cintura para baixo, outra da cintura para cima,
terminando para a cabeça com uma urubema, é o que se chama a Caipora; há além disto
outro capadócio que se chama o Pai Mateus. O sujeito do Cavalo Marinho é o senhor do
Boi, da Burrinha, do Caipora e do Mateus. Todo o divertimento cifra-se em o dono de toda
esta súcia fazer dançar ao som de violas, pandeiros e de uma infernal berraria, o tal
bêbado Mateus, a Burrinha, a Caipora e Boi, que com efeito é animal muito ligeirinho,
trêfego e bailarino. Além disso o Boi morre sempre, sem que nem para que, e ressuscita
por virtude de um clister, que pespega o Mateus, cousa mui agradável e divertida para os
judiciosos espectadores. Até aqui não passa o tal divertimento de um brinco popular e
grandemente desengraçado, mas de certos anos para cáo não há
Bumba Meu Boi que preste, se nele não aparece um sujeito vestido de clérigo, e algumas
vezes de roquete e estola, para servir de bobo da função. Quem faz ordinariamente o
papel de sacerdote bufo é um brejeirote despejado e escolhido para desempenhar a tarefa
até o mais nojento ridículo; e para complementar o escárnio, esse padre ouve de
confissão ao Mateus, o qual negro cativo faz cair de pernas para o ar o seu confessor, e
acaba, como é natural, dando muita chicotada no sacerdote.
Sobre o Bumba-Meu-Boi, Renato Almeida, História da Música Brasileira, 245;
Pereira da Costa, Folclore Pernambucano, 259; Mário de Andrade, 'As danças dramáticas do Brasil', Boletim
Latino Americano de Música, VI, 79, Rio de Janeiro, 1946; Oneyda Alvarenga, Música
Popular Brasileira, 41, ed. Globo, Porto Alegre, 1950; Gustavo Barroso, Ao Som da
Viola, 256, Rio de Janeiro, 1921; Manuel Querino, A Bahia de Outrora, 33,
Cidade do Salvador, 1943; Artur Ramos, O folclore negro do Brasil, 103, ed.
Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1935; Amadeu Amaral Júnior, 'Reisado,
Bumba-meu-boi e Pastoris', Revista do Arquivo Municipal, LXIV, 273, São Paulo,
1940; Edison Carneiro, Negros bantus, 167, ed. Civilização Brasileira, Rio de
Janeiro, 1937; Melo Moraes Filho, Festas e tradições populares do Brasil, 86,
etc., Guilherme Melo, 'A música no Brasil', Dicionário Histórico, Geográfico e
Etnográfico do Brasil, I, 1631, filia o Bumba-meu-boi ao Monólogo do Vaqueiro,
declamado por Gil Vicente na noite de 8 de junho de 1502, dois dias depois de nascer o
futuro dom João III. Já nessa época brincava-se em Portugal com os bois fingidos, as
tourinhas, novilhos de canastra, a touras que figuravam nas festas reais e que seriam
registadas por um amigo de Gil, o cronista Garcia de Resende na Miscelânea:
Vimos grandes judarias,
Judeus, guinolas, e touras,
Também mouras, mourarias,
Seus bailos, galantarias
De muito fermosas mouras.
Frei Domingos Vieira, Dicionário da língua portuguesa, Lisboa, 1874, edição
orientada por F. Adolfo Coelho, no verbete Tourinhas: "Jogo, espetáculo onde
se toureiam novilhas mansas, e talvez arremedo delas, fingindo-se de touros de canastras
com cabeças fingidas; os judeus costumavam dar estes divertimentos aos Reis, quando iam
às terras onde havia Judiarias: estes recebimentos eram com jogos, danças, e
festas".
O boi fingido ainda corre em Espanha, na Fiesta de la Vaca em San Pablo de los
Montes (Toledo), dando chifradas e espalhando gente; Ismael del Pan, 'Recuerdo Folclórico
de algumas Fiestas Tradicionales', Revista de Tradiciones Populares, tomo I, 194,
Madri, 1944. Determinando ainda a convergência de bailados ao redor da figura central do
Boi, a dança, o folguedo, transplantou-de para América Espanhola. É o divertimento do
Touro Guaque ou Huaco, que es una armazón en forma de toro, bajo la cual va un hombre,
acompaña siempre una gran mascarada en que se imitan faces de fieras y pájaros,
informa Pablo António Cuadra, 'Los Toros en La Arte Popular Nicaragueña', Cuaderno
del Taller Sn. Lucas, nº 4, 71, Granada, Nicarágua, 1944.
Da unidade, o boi fingido dançando, partiu a convergência irresistível para a
formação do onímodo Bumba-meu-boi, ainda vivo e incessantemente renovado pelo nordeste.
Monólogo do Vaqueiro, boi, Apis, Vaca, Isis, Boi Geroa, Bouef Gras são outros
temas. Fortis imaginatio generat casum.
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