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NATAL
Era uma noite de
Natal. A casa estava toda iluminada. Havia muitas visitas. Todos iriam à missa do galo à
meia noite.
Enquanto esperavam a hora, os meninos brincavam de anel, de chicotinho queimado, de
ciranda.
Era preciso espantar o sono. A meia-noite estava custando a chegar.
Eu tinha muito medo de dormir e perder a missa, a primeira missa do galo que eu ia ouvir.
De vez em quando eu corria à cozinha:
- Ih! Mãe Preta, está custando!
- Espere, Violeta, está quase na hora
Mãe Preta estava sentada num banquinho, ao pé do fogão. Já estava pronta, com o seu
xale listado de vermelho e preto. Com os olhos meio fechados, ela ia repassando entre os
dedos as contas de um longo rosário de lágrimas de Maria.
A água para o café fervia no fogão: Po-ró-ró
Po-ró-ró
Ela ia
suspendendo a tampa da chaleira, donde se escapava o vapor:
- Po-ró-ró
Po-ró-ró
Nós já estávamos cansados, com sono. Eu mesmo estava quase cochilando.
Zezé teve uma boa lembrança:
- Vamos pedir à Mãe Preta que conte uma história.
Vamos! Vamos!
Correram todos para a cozinha, onde Mãe Preta cochilava.
~.~.~.
JESUS
- Conte uma história, Mãe Preta
- Agora não é hora; daqui a pouco o sino dá a primeira chamada
Então Violeta, abraçando Mãe Preta, pediu-lhe baixinho, no ouvido:
- Uma só
Uma só
E ela principiou:
- Era uma vez
Nossa Senhora e São José saíram de Nazaré para Belém.
Coitados! Eram tão pobres que viajavam a pé. Quando chegaram a Belém, coitada de Nossa
Senhora! Estava com os pés tão machucados que fazia dó. A pobrezinha não podia mais
andar.
Havia muita gente na cidade. As hospedarias estavam cheias. São José bateu em algumas
casas pedindo pousada. Todas recusaram. Não havia mais lugar.
Então São José, vendo que Nossa Senhora não podia mais caminhar, disse:
- Vamos dormir naquela gruta, ali a entrada da cidade.
E foram indo, foram indo, Nossa Senhora encostada aos ombros de São José.
Quando chegaram lá, viram uma cama de palha, e um burrinho que dormia ao lado. Na entrada
da gruta um boi, um carneiro e um bode cochilavam.
Nossa Senhora estava tão cansada que dormiu logo sobre as palhas. São José encostou-se
ao fundo.
Quando chegou a meia-noite, uma estrela muito grande veio vindo, veio vindo, ficou parada
em cima da gruta, alumiando tudo em roda.
Um galo acordou, bateu as asas e cantou:
- Cristo nasceu! Cristo nasceu!
O boi levantou a cabeça e perguntou:
- Onde? Onde?
O carneiro respondeu logo:
- Em Belém! Em Belém!
Então o bode, que é muito teimoso, sacudiu a barbinha e espirrou:
- É mentira! É mentira!
Mas não era mentira, não. A luz da estrela era tão forte que parecia estar pegando fogo
no mundo. Os pastores que dormiam perto correram para ver o que era aquilo. Quando eles
entraram na gruta, que é que viram? Um menino muito bonito, deitado no meio da palha e
São José e Nossa Senhora ajoelhados ao lado dele.
Então todos se ajoelharam e a estrela foi sumindo, sumindo
Foi assim que Jesus nasceu, tal qual a gente vê no presépe.
Quando Mãe Preta acabou de contar, ouviram o sino:
- Dlim
Dlim
Dlão!
Dlão
Dlão
Dlim!
E correram todos, sem sono, para a igreja.
(FROTA, Zilá. O livro de Violeta) |
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