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A Flauta do pastor

Por não haver mais um lugar na hospedaria
A esposa virginal e o santo carpinteiro
Abrigaram-se os dois, numa baia, ao terreiro
E ali nasceu Jesus, o filho de Maria

E nascido que foi, aos rústicos pastores
Que guardam seu rebanho, às noites, ao relento,
Um bando de anjos foi contar seu nascimento
E ei-los a caminhar, da aurora aos resplendores

Vão levar a Jesus,
anhos novos, ovelhas
Uma pele de cabra, um queijo rescendente
Um potinho de leite, o mel
aurifulgente
Cheirando ao coração cheiroso das abelhas

Eis que chega um pastor de longa romaria
Que à virgem Mãe de Cristo, humilde, assim dizia
Num tom meigo, sereno, inocente, infantil:
"Sou pobre, eu sou tão pobre, ó Mãe de Deus, Maria,
Tão pobre, que só tenho este sonoro
hastil!
Nos matos em que andei nem uma flor se abria!
Mas nesta flautazinha uma ária eu tocaria,
Se Jesus me escutasse uma ária pastoril!"

Ia a Virgem a falar, sorrindo sob o véu
Quando vinham chegando os Magos Reis do Oriente
Prostrando-se ante Cristo, em prece reverente
Guiados pela estrela, a
perfulgir no céu!

Com um manto de
brocado, um manto purpurino
Tecido no ouro vivo em que transluz a aurora
A trindade real, ante Jesus o adora
Dando ouro, incenso e mirra ao Deus,
ao Deus Menino

Mas, depois dos três reis suas preces rezarem
E os presentes reais a Jesus ofertarem
Ao pastor, que por ver a pompa deslumbrante
Afastara-se a um canto, em atitude cauta
Disse a Virgem: "Pastor, por que estás tão distante?
Aproxima-te ao berço em canta em tua flauta"

Aos lábios achegando o instrumento odoroso
O
zagal foi andando, inocente, acanhado
Mas logo o fez carpir, gemer, cantar saudoso
Qual se estivesse à noite
apascentando o gado!
Qual se estivesse o gado alheio pascentando
Sob o pálio da lua azul,
pulcra e serena
Aos beijos musicais da suspirosa avena
Aos pés de Jesus Cristo a dor foi desfolhando

Os pastores, os Reis, os Magos Reis do Oriente
Ouviam em silêncio a música campestre!
E quando emudeceu o cálamo silvestre
Jesus, erguendo o olhar, sorriu divinamente!

(CEARENSE. Catulo da Paixão. Fábulas e alegorias. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1934)

Anhos – Cordeiros.

Apascentando – Alimentando, levando a pastar.

Aurifulgente – Que brilha como ouro.

Brocado – Estofo de seda lavrado com fios de ouro ou prata.

Hastil – Pequena haste.

Perfulgir – Resplandecer.

Pulcra – Gentil, bela, formosa.

Zagal – Pastor.

alest.gif (4142 bytes)

• Evite a vida sedentária, beba água
• Não sou detetive, mas vivo na pista
• Caminhão é como circo, tem sempre um palhaço dentro
• Falta de dinheiro é dor que só o dinheiro cura
• Jurei te esquecer, mas de tão esquecido esqueci de te esquecer
• Há pessoas que se casam em comunhão de males
• A estrada não informa ao viajante o que o espera na chegada
• A lei é igual para todos os esfarrapados
• Boa coisa é ter amigos, ruim é precisar deles
• Adoro a sogra da minha mulher

alpre.gif (3832 bytes)

Pega a enxada e leva o pito

(Entoado por trabalhadores da
roça de São João da Boa Vista (SP))

Pega a enxada e leva o pito
Vamo ino Sebastião
Vamo capiná o arrois,
Na bera do ribeirão,
Na bera do ribeirão.

Ó! Que o mato tá matano
O miará de grotão
No roçado da baxada
Na bera do ribeirão,
Na bera do ribeirão.

Manjedoura: De manjar ou, talvez antes, do italiano mangiatoia.

Natal: Do latim natãle-, de nascimento, natal

Pastor: Do latim pastõre-, mesmo sentido.

Presepe: Do latim praesëpe-, estábulo, cavalariço

Sagrado: Do latim sacrãtu-, p. p. do verbo sacrãre, consagrado, santificado, santo; augusto; sagrado, venerável.

Sino: Do latim signu-, divergente, portanto, de senho; o sino é o instrumento que dá o sinal da hora da oração



As selvagerias dos civilizados

Não bastante a sua intervenção constante junto aos tupinambás, seus aliados, para que não comessem os inimigos aprisionados em combate, Nicolau de Villegaignon adquiria esses prisioneiros em troca de espelhos e anzóis e, nos seus momentos de mau humor, infligia-lhes os mais duros suplícios.

Certa vez, foi um desses infelizes, já entregue aos franceses, submetido a um dos tormentos mais bárbaros que se podia imaginar: o da gordura fervendo, derramada nas nádegas. Estorcendo-se de dor, o desgraçado, amarrado a uma peça de artilharia, gemia, e bradava:

- Se soubéssemos que Paicolás nos ia tratar assim, teríamos deixado que os inimigos nos comessem!


(LERY, Jean de. In CAMPOS, Humberto de. O Brasil anedótico)

DE MANÍACO E DE LOUCO...

Na pacata Santa Maria do Tabuí, onde nada acontecia, um dos seus habitantes resolveu virar maníaco. Mas não um maniacozinho qualquer não. Era maníaco de matar. Matar na base do cacete. Sua tara era contra os bêbados da cidade. Bêbado tretou, relou, tava no pau. Dava a paulada e esperava prazeroso a careta do quase defunto para dar risada. Mas tudo na moita, debaixo dum quieto. Crime perfeito.

Primeiro bêbado apagado o maníaco encafuou-o no porão escuro da igreja do Padre Anacleto, que ficava bem perto do rio Sorongo. O segundo, mesma coisa, um dia depois. O terceiro também.

Foi aí que os bêbados da cidade, em reunião de sindicato, após descobrirem o sumiço dos três colegas, confabularam, confabularam e resolveram maneirar a mão dando um tempo à cachaça. A partir daquele dia Tabuí não tinha mais bêbado. Ninguém nem agüentava mais o cheiro da canjebrina. Davam até vômito se vissem, mesmo que fosse de longe, um litro da Providência, a preferida de todos.

Enquanto isso, o maníaco lá do começo da história, já com três defuntos armazenados, estava meio preocupado, - maníaco também tem suas preocupações -, sem saber o que fazer com tanto presunto. Mas como ele só era maníaco e não era bobo, arranjou uma solução fácil, fácil. Chamou Dejalma. O doido da cidade.

- Dejalma, tem uns bêbados ali. Vamo carregá eles e jogá no rio pra curarem a bebedeira?!... Vamo que depois te dô uns trocado!

Dejalma foi. Pegou os defuntos, cada qual mais fedido que o outro e pinchou tudo no rio.

Pensando que a brincadeira continuava, voltou a procurar outro bêbado mas não achou mais nenhum. Ficou embaixo da escada da igreja esperando aparecer o home que prometera os trocados, conforme o combinado. Mas o maníaco tinha, bem misturadas numa lata, urina e fezes. Lá do alto da escada despejou toda aquela gororoba na cabeça do doido do Dejalma. Este, apavorado com a fedentina, caiu no mundo, sem nem olhar de onde vinha aquela chuva repentina.

Quando a cidade achou os corpos dos três bêbados boiando no rio, foi um bafafá danado. Quem-foi, quem-não-foi, meu-Deus-do-céu e por aí adiante.

O delegado, sem nenhuma testemunha, não sabia a quem apelar. Até que a boataria chegou no ouvido do Dejalma.

- Sô delega! Otro dia eu pinchei treis bebo no rio pr'ês tomá banho!...

O maluco terminou a frase com uma risadona, daquelas de doido varrido. E o delegado, querendo mais informações, passa a especular o Dejalma de tudo quanto é forma, com todo tipo de questionamento. Até que perguntou:

- Que dia foi isso Dejalma?

O nosso simpático doido pensou, pensou, deu mais umas gaitadas, mas só conseguiu se lembrar de uma coisa. E simplesmente respondeu:

- Foi naquele dia que choveu merda!

 

NOVIDADE QUE CHEGA NO SERTÃO...

Aparício ganhou uma cabra. Novinha ainda. E a bichinha foi crescendo, comendo, do bom e do melhor, do que sobrava de comida do Hotel Familiar. Resto de frango frito, maionese, macarronada, couve e tutu com torresmo... cabrinha não perdoava nada. Traçava tudo. Menos capim, porque capim ela nem via. De vez em quando lá ia o Aparício e sua cabra rua a fora para um passeio, assim como as madames fazem com seus cãozinhos perfumosos. Mas coisa inocente, sem malícias. De jeito nenhum Aparício tinha más intenções com sua cabra e a recíproca devia ser verdadeira. Amanda era o nome dela.

- Paríço, pruquê ocê não dá capim pr'essa cabra?

- Não. Quero caçá moda não, sô! Capim é muito dificultoso aqui na cidade. Quero acostumá a bichinha malacostumada não.

E toca-lhe frango frito, maionese, macarronada, couve e tutu com torresmo...

Num certo dia aparece em Tabuí um caminhão do governo. Carregadinho de fardos de capim pangola, ainda verdolengo, para ser distribuído aos fazendeiros. Novidade na região. Quem aprovasse ganhava sementes do dito cujo. Aparício resolveu fazer a cabrinha provar do capim. E Amanda não se fez de rogada. Botou pra quebrar. Comeu um fardo inteirinho da novidade. Mas teve uma reação estranha para sua mansidão cabral tão conhecida. Começou a pular e a berrar que ninguém segurava a danadinha. Nem seu dono, com todo o carinho do mundo, acariciando-a até nos cantinhos mais indiscretos, conseguia acalmar a bichinha.

- Dá água prela, Paríço! Água ajuda. Água relaxa...

E trouxe o Aparício um balde com dez litros d'água que Amanda sorveu duma golada só. Depois de muito pulo e berro a danadinha ficou mais calma e, embora com a barrigona grande, deixou o pessoal passar a noite no sossego. Mas tristeza maior do Aparício não tinha acontecido ainda. Aconteceu de manhãzinha. Amiguinha não mais acordou. Morreu empanzinada. Estourada de tantos gases provocados pela desgraça da novidade chamada capim pangola.

(Eurico de Andrade é autor do livro Nós Sofre Mais Goza - Causos de Minas, e colabora com a Jangada Brasil)

  Filho
 
  ...alheio, brasa no seio.
  ...de avarento sai pródigo.
  ...de gato é gatinho.
  ...de gato mata o rato
  ...de peixe, peixinho é.
  ...de tigre é pintado.
  ...de vaqueiro nasce aboiando.
  ...de viúva, ou é malcriado ou mal acostumado
  ...és, pai serás: - o que fizeres, encontrarás.
  ...feio não tem pai.

No mundo

Filhos criados, trabalhos dobrados.

• Grandadaevi nati, labores duplicati.
• Hijos criados, duelos dobrados.
• Figli piccoli, guai piccoli.
• Figli grandi, guai grandi.

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