
Já estava posta a mesa da merenda. Ia chegando a hora da
missa do galo; todos os filhos e filhas haviam chegado, menos a Doninha. E o velho não
teve mão em si, que não dissesse:
- Também a gente nem pode contar dereito com aqueles
dois: amó que andam noivando a vida inteira; é um derretimento em demasiado que um tem
pr o outro. A gente cuida que tão nargum trabalho macota,
narguna jurema louca, vá ver: tão cumbersando bem
sussegado...
Tinha razão o velho: dês que a Doninha pôs na cabeça
doirada o véu de flores de laranjeira, quase não botava o pé fora de casa.
Alguns novidadeiros diziam que aquilo era feito do
Valério, que, por muito lhe querer, não a queira andeja nem
muito vista: outros murmuravam que era tudo ciumagem louca da mocinha clara, que não
tinha vontade de saber que o marido ficava só, naquele mambembe
soturno onde havia umas roxas desencaminhadeiras dos homens
casados.
Nem isto, nem de estar constrangidos entre estranhos.
Bastava-lhes o tempo (e grande tempo) em que a sorte os apartou na vida, quando ele ( Deus
bem sabe!) haviam nascido um para o outro e de coração se amavam desde de a idade mais
tenra. Bem o podia contar, se falasse, aquele jardim cheio de flores, na vila, que viu o
primeiro beijo, tão ardente! que o Valério deu na face da sua querida, numa
comoção viva alegre, sendo ela quase menina ainda. E a areia dos areões que ficava
trançada dos dois nomes, ao abrir do dia e ao escurecer da tarde, porque ele, indo campear e voltando, não desejava outro descanso nem maior alegria
que estar pensando nela. E as curruíras das capoeiras que então voavam espaventadas, de moita a moita, ouvindo
a forte voz que ele soltava ao cantar as modas de amor que lhe fazia.
Apareceram, afinal. E houve, junto à mesa, um enlevo:
- Não é que a minha folha tá cada vez mais
sacudida?
- E mais corada!
- E cum rico vestido de xadrez desses finos!
Tudo era verdade: surgira a Doninha vestida de chita
nova, quando as outras irmãs estavam de riscado, muito risonha, muito fresca, muito
feliz. O Valério machucava um parelho de brim de algodão
trançado, tinha um lenço de ramos atado à camisa de morim e quebrara à testa,
vitoriosamente, um chapéu cor de leite com café. Também lhe pagaram algum dízimo:
- Muito vale quem pode! É usar camisa branca, e sua burjaca, e seu lenço cheio de histórias, e seu brim das Minas!
Isso é que é um gosto!
Mas ele respondia sacudindo os ombros, atirando de si
toda vaidade, num largo meneio de modéstia venturosa:
- Qual nada! Petas da vida!
Assentaram-se todos. As pamonhas
de queijo ainda lançavam fumos esbranquiçados, e ostentavam, a cada banda das travessas,
a irregularidade e a esquisitice de seus laços verdes. As batatas cozidas, que iam
passando para o prato de cada um, mostravam o coração roxo e quente, embora enxuto. Os
pires de curau alinhavam-se em duas longas filas, polvilhados
de canela moída, anunciando os nomes dos presentes. A canjica
de amendoim e leite recendia no mistério das terrinas fechadas por então. O arroz-doce e
o furrundum pareciam esconder-se entre os mais pratos, e as
pobres talhadas que se viam entre folhagens de bananeiras e
de pitanga, sumiram como por encanto.
A velha contou que tinha alfanjado um vinho de laranjeira
e um licor de baunilha, às carreiras, mal-e-mal: e que a pinga de craguatá
saíra uma coisa por demais, de boa. Para o vinho e o licor houve canecas de louça: mas a
pinga, para ser bem aproveitada e saboreada, teve purunguinhas
de cuietê. E foi preciso, depois, muito doce e café meio
amargo por cima, senão tudo aquilo brigava, sendo bebida qual mais trepadeira...
O Valério a par com a Doninha, recordava-lhe:
- ... A noite tava uma prata, de crara. Nós fumo
juntos, ca sua mãe, naquela igrejica do arraial, onde paravem umas freiras,
entremos e ajoelhemos. Eu olhava pro presépio e pra você, e
Deus que me perdoe não achava Nossa Senhora mais formosa que você. Rezei, pois
não rezei? mas porém foi só por nós dois e pra nós dois que nunca achei
nada que valesse do que isso, numa igreja. Depois, levantemos e saímos, e inda cheguemos
perto do presépio, dadonde eu tirei um galho piquitito de cambará
do vermelho. E a noite tava uma prata, de crara. Você não se alembra?
Ela bem que se lembrava! Foram-lhe passando diante dos
olhos , como num belo sonho, as meninas de uma escola, todas de branco; o alampadário de
prata, onde uma luz amarela e mortiça tremia e tremia; as tribunas e o púlpito, cobertos
de panos alvos, de que pendiam laçadas de fitas encarnadas e cor-de-rosa, e folhas de trapoeiraba com florzinhas muito azuis, e cachos de parasitas de
flor amarelas, e fruta de pindaíba e galhos de pula-pula. Ouvia bem, cria se não viam. Cuidava sentir nas faces,
como naquele natal de outrora, a tocar de uma asa de andorinha, a que passou por ela,
estonteada e medrosa , logo que caíra de joelhos e principiava a sua oração.
E o Valério continuava:
- Depois nós fizemos um assustado
na minha casa. A sala ficou tiba de povo. Moça, mal
comparando, havia que nem formiga; e moço apareceu ver um bando de sabitus
ansim que acaba de chover. Você tava cum vestido da cor da sua boca, desse
feitio cor de sangue, e engraçadinha feito pomba vevuia,
quando sai da mata virge pra estrada, e senta no chão e levanta a cabeça e
amostra o peito quaje brasino. Eu dancei com você, mas
porém uma coisa de nada, porque andava muito avexado e soronga
das mãos, nas horas que pegava nas suas. Você não se alembra?
Ela bem se lembrava! O baile era da última hora, a poder
de sanfona. Só mais tarde, no amiduar dos galos, é que uma serenata entrou na sala,
pedindo natal, já pedindo ano bom, e até pedindo reis, e levou, desse momento ao
amanhecer, a tocar muitas músicas de dança. Ainda agora lhe parecia escutar uma toada
longínqua, longínqua e enternecida de certa quadrilha que o correr dos anos não pudera
tirar-lhe da memória e dos ouvidos. E o seu vestido era da cor do pavão-do-mato.
E o Valério falava ainda:
- Prove agora deste sossega.
Você não comeu nenhum sonho. Despois, no clarear , você foi pra sua casa, e
eu ainda fui junto, muito tempo, cos olhos, só de guaiais.
Pra mim, aquilo era uma tirania, eu ter que ficar ali sem sua companhia sem alívio
e, a bem dizer, sem consolo. Inda vi bater a porteira que fechava o caminho
pra sua casa, e o meu coiração também bateu
muito rijo: a porteira abriu e o meu coiração ficou fechado. Você foi subindo o morro:
inda vi o seu bulto no meio da poeira, lá em riba; a
derradeira luz da lua e a primeira luz do sol é que fizeram você desaparecer naquela
contravertente. Você não se alembra?
Ela bem que lembrava! De instante a instante, ao subir
daquele morro, voltava-se, e, de cada vez que se voltava, lá o adivinhava encostado à
porta, esquecido de tudo, olhando, ao menos, o rumo por onde ela ia. Teve tamanho nó na
garganta, ao virar do espigão, deixando para trás a vila, que por um és-não-és não
se pôs a soluçar. As codornas piaram tristemente no campo molhado; e diante dela, como
triste por igual, as canoinhas voaram com todo o vagar, de
asas trêmulas e cauda recurvada para as costas.
Na mesa, entretanto, fazia-se alto rumor. E as palavras
encontravam-se no ar, sem resposta:
- Não gosta de bolo de arroz, antão? Pois olhe que
nossa tia nunca deixou de fazer ele nos pagodes que dava. E
nossa tia era carioca da gema!
- Diz que o milho dá pinga também especial: será
verdade?
- O Andrônico ranjou hoje uma estúcia lá na morada dele, e todos tão contando que a
coisa não ficou das piores. Inté tem um maquinismo que fala
como gente!
- Tome outra golada de bonilha,
que é licor da velharia e dá sustância de devéra!
A criançada reunira-se no quintal, armara uma grande
roda, e andava aos giros compassados, cantando:
Surupango da vingança,
Toda a gente passarão...
As vozes pareciam alongar-se, por fracas na continuação
do brinquedo, mais ateavam-se outra vez, quando o estribilho tornava:
Surupango da vingança,
Toda a gente passarão...
O Valério curvara-se para a Doninha, falava-lhe quase ao
ouvido, que nem um namorado à namorada:
- Como eu lhe queria bem, Doninha! E, ansim mesmo, pesar
que eu era tão seu e você tão minha, andemos cada qual pr o seu lado, tanto
tempo! E eu tive tanta sodade! Tal e qual tou tendo,
agora, daquela noite de natal abençoada...
Ergueu-se, porém, saiu à porta. Como saísse, outros se
levantaram de pronto. Com pouco, no terreiro, formou-se uma grazinada,
uma amorosa e comovida. Houve curiosidades e perguntas, sobre o que era, sobre o que não
era: e houve logo respostas:
- É o Valério! É o Valério!
Risos abafados, segredar confuso e rápido:
- mas o que é que aconteceu?
- tá chorando...

Andeja Que anda ou caminha muito.
Assustado
baile improvisado.
Bonilha baunilha.
Brasino cor de brasa no gado vacum:
é o que tem pelo inteiramente vermelho com longes pretos ao fio do lombo.
Bulto vulto.
Burjaca - casaco antigo muito largo.
Cambará arbusto, de que há várias
espécies.
Campear buscar o gado de qualquer
espécie no campo. Procurar alguém ou alguma coisa.
Canjica milho cozido.
Canoinha pequeno pássaro dos campos
banhados.
Capoeira mato ralo que sobrevem á
mata virgem derrubada.
Coiração coração.
Craguatá planta bromeliácea que
cresce em moitas e serve de sebe; também chamada gravatá e registrada nos dicionários
como caraguatá.
Cuitê planta vulgar, de cujo fruto
se fazem vasilhas de vário préstimo. Registrado nos dicionários como cuité.
Curau doce feito de milho ralado.
Curruíra a carriça brasileira,
também chamada cambachirra e garricha.
De guaiaes - de mentira.
Grazinada Vozeria ou
gritaria confusa.
Estúcia corruptela de astúcia mas
significa armadilha , artefato, máquina coisa estranhável.
Furrundum doce de cidra ralada, feito
com rapadura ou açúcar mascavo.
Inté até.
Jurema
trabalho difícil, tarefa penosa.
Juruti pomba silvestre; a do peito
branco tem este nome, e a do peito amarelado chama-se vevúia.
Macota grande.
Mambembe lugar afastado e soturno.
Pagodear andar por bailes e outros
divertimentos ou pagodes.
Pamonha bolo de milho ralado.
Parelho andaina de roupa, composta de
calça e casaco.
Petas Mentiras.
Pindaíba árvore de lugares úmidos.
Pula-pula arbusto cuja semente é
muito redonda e leve.
Purunga vasilha feita de casca de
algumas plantas cucurbitáceas.
Quaji - quase.
Roxa mulher morena.
Sabitu o iça macho, formiga saúva.
Também se diz bitu.
Sodade saudade.
Soronga atoleimado, tonto; mole,
desgovernado.
Sossega biscoito de farinha de trigo
e ovos; espécie de sonhos.
Surupango - divertimento das crianças, em
roda e com canto.
Sustância - força, robustez, coragem.
Talhada rapadura feita com farinhade
mandioca.
Tiba cheio, atestado, acugulado.
Trapoeiraba capim vulgar e rasteiro.
Vevúia juruti do mato virgem.
(In NUNES, Cassiano; BRITO, Mário da Silva (org.). Noite
de Natal) |