
A missa do galo não começa precisamente à meia-noite e não tem a obrigação
de acabar antes de uma da manhã. A missa só, sem galo, o divino sacrifício de que os
casuístas espanhóis do século XII faziam a anatomia talvez tivesse em tempos
remotos uma hora precisa, exata, confirmada pelo dogma. O galo, porém, varia e canta, ou
adiantado ou com atraso. Ora, o chamar a missa do Natal de Cristo missa do galo é ainda
um costume latino. Os romanos contavam as horas com uma certa poesia. Logo depois da media
nocte, chamavam eles ao tempo gallinicium, hora em que o galo começa a cantar.
A missa realizada, assim, após a media nocte, ficou sendo a missa do galo, e é
ainda o velho e desusado gallinicium que se recorda quando os sacerdotes levantam a
hóstia nos altares, e de capoeira em capoeira, sonoro e
glorioso, se propaga o diálogo dos galos: Cristo nasceu! Onde? Em Belém
Eu estava exatamente defronte da igreja de Santana, dispondo de um automóvel possante.
Era a mais que alegre hora da meia-noite que alguns temperamentos românticos ainda julgam
sinistra. Aquele trecho da cidade tinha um aspecto festivo, um estranho aspecto de
anormalidade. Das ruas laterais vindo em fila famílias da Cidade Nova, primeiro as
crianças, depois as mocinhas, às vezes ladeadas de mancebos amáveis, depois as matronas
agasalhadas em fichus; vinham marchando como quem vai para a ceifa, grossos machacares, de chapelão e casaco grosso; vinham gingando negrinhas
do vestido gomado; cabras de bombacha, velhas pretas embrulhadas em xales. Era como
uma série de procissões em que as irmandades se separavam segundo as classes. No adro, repleto, havia uma mistura de populaça em festa. Grupos de
rapazes berravam graças, bondes paravam despejando gente, vendedores ambulantes,
apregoavam doces e comestíveis; todos os rostos abriam-se em fraterna alegria, e naquela
sarabanda humana, naquele vozear estonteante, uma nota predominava a do namoro. Os
rapazes estavam ali para namorar, para aproveitar a ocasião. Os encontros tinham sido de
antemão combinados. Quando um grupo familiar encontrava um rapaz o oh! seu
Antenor! Também por aqui! a resposta: oh! Dona Belinha, então também veio! - soavam
como quem diz: oh! não faltaste
Havia de resto pares de braço dado, meninas que
murmuravam frases ao lado dos mocetões, sob o olhar protetor das mamães
A missa
era um alegre pretexto e, se na classe burguesa o namoro tinha uma cor tão suave, nas
outras irmandades o entusiasmo era maior. Entrei no templo atrás de um grupo de mocinhos
entusiasmados, um dos quais teimava que havia de apertar, enquanto outro, com uma carta de
alfinetes, asseverava estar disposto a pregar alguns pares. O grupo ria, a igreja estava
repleta, quente, ardendo na nave de humanidade pouco crente, ardendo de doçura superior
nas velas dos altares. Mocinhas irrequietas, rindo, abriam passagem; rapazes
lamentavelmente espirituosos estabeleciam o arrocho, empurrando o corpo como quem vai
dançar o cakewalk e pretalhões de pastinhas, erguendo alto os chapéus de palha,
violentavam a massa com os cotovelos para chegar ao altar-mor. No ar parado um sino bateu.
Houve uma interjeição prolongada da multidão. Ia começar a missa. Era a missa do galo
nos bairros
Saí suando, tomei o automével, nervoso. Ao lado da máquina, na aglomeração, uma voz
de mulher fez de repente:
- Ai!
- Que é? bradou um vozeirão formidável.
Cocoricó! cantou um gaiato
E entre gargalhadas da mofa escandalosa, o automóvel rodou.
Parei na catedral. A enchente era tão colossal que havia gente até na rua.
O templo ardia em luzes. De fora viam-se os sacerdotes de sobrepeliz dourada, a
candelária luminosa, os santos, e toda a igreja vibrava das graves harmonias do órgão,
realçadas por um coro abaritonado. A turba tinha outro aspecto. Senhoras de chapéu,
cavalheiros sempre com esse indomável ar conquistador que o homem se arroga nas festas
públicas, de mistura com fuzileiros navais, marinheiros alcoolizados; caixeirinhos do
comércio de roupa nova e com os olhos cheios de sono.
Toda essa gente conseguia entrar e sair, fazer como um torvelinho à porta, onde duas
senhoras vestidas de negro, esticando uma sacola, dizia maquinalmente: - para a
cera!
para a cera! Ninguém dava, ninguém se ralava. O sopro de excitação dos
sentidos parecia recrudescido pelo sopro musical do órgão.
Figuras que saíam da igreja vinham algumas congestas; as que entravam tinham uma
violência aguçada no olhar. Na rua, como que farejando, sujeitos iam e vinham entre os
grupos de malandros ébrios, de negros de capa no braço com um ar de copeiros de casa
rica, de mulheres conversadeiras. Encontro um repórter de jornal.
Oh! Tu também! que pândega, filho! Mas espera
Indagou com o olhar a rua, sorriu, apertou-me o braço, apressado:
- Até logo.
Dou de frente com um bando de gente de teatro. Uma das atrizes assegura:
- Estou com os braços doendo
E logo depois, deixando a atriz, encontro o protetor.
Viste-a por aí? Olha só aquela família com crianças. Só nesta terra! Eu não!
Ceei com meus filhos: às dez horas tudo na cama, e às onze deixei de ser
pai-de-família.
Muito bem.
Era a missa do galo na cidade
Que tinha eu? Desgosto? Tristeza? Dor de cabeça? Sei
lá! Despedi-me do ex pai-de-família, tomei de novo o automóvel que logo deslizou pela
rua da Assembléia para cair numa vertiginosa carreira pela avenida Central.
Que é aquilo?
- É a missa do convento da Ajuda.
Saltei. A rua estava negra de gente. Os focos elétricos da avenida mais de sombra enchiam
aquele canto a porta tão triste onde a turba se acotovelava.
Um sujeito valente pisou três ou quatro pés, barafustou.
Acompanhei-o. Era a missa lá dentro imersa em tristeza infinda. Até os altares pareciam
mais agourentos, até as imagens guardavam na face uma dor mais amarga. E a missa
trespassava a alma, porque, enquanto o sacerdote ia e vinha no altar, por trás, na
sombra, perpetuamente na sombra, morta, enterrada, perdida para o mundo, a voz das monjas
varava o ar como o som de um cristal quebrado, retorcia-se no sacrifício do louvor do
deus que nascera de um seio humano, espiralava como uma contorção histérica, soluçava
cantando
Ia mais adiante, mas na minha frente um latagão bocejou:
- Que cacetada!
- É verdade, vamo-nos, - respondeu a companheira.
Ainda temos tempo de ir à Copacabana.
Consultou o relógio e começou a sair, imprimindo tal movimento à massa de gente, que
eu, com outros mais, de recuar tanto, me achei de novo na porta triste e humilde.
Ó José, vamos à Copacabana?
- Anda daí.
Copacabana devia ser divertido. Tomei de novo o automóvel e disse ao chauffeur:
- Para Copacabana.
Naquele delicioso percurso da avenida Beira-Mar, toda ensopada de luz elétrica, outros
automóveis de toldo arriado, outros carros, outras conduções corriam na mesma
direção. Homens espapaçados nas almofadas davam vivas, mulheres de grandes chapéus
estralejavam risos, era uma estrepitosa e inédita corrida para Cítera. Quando, no fim da
avenida, os automóveis seguiram pelas antigas ruas, cada encontro de bonde era uma
catástofre. Os tramways, apesar de comboiarem três carros, iam com gente até aos
tejadilhos, e essa gente furiosa, numa fúria que lembrava
bem a vertigem de Dionísios, berrava, apostrofava, atirava bengaladas num despejo de
corpos e de conveniências. Entretanto, pelas mesmas ruas, a corrida aumentava e era uma
disparada louca entre vociferações, sons de corneta, tren-ten-tens de bondes,
estalar de chicote. Quando passamos o túnel num fracasso de metralha e demos nos campos
de Copacabana, a velocidade foi vertiginosa, e era apenas vagamente que se divisavam,
fugindo à sanha dos fon-fons, ao estrépito das rodas, a linha de fiéis da
redondeza marginando o capinzal e, à esquerda, num diadema
de estrelas, a iluminação da igrejinha. Recostei-me. O automóvel saltava como um orango
ébrio, no piso mau. De repente fez uma curva e entrou numa rua cheia de gente, de carros,
de outros automóveis. Estávamos no grande sítio.
É aqui?
- É.
Cerca de três mil pessoas pessoas de todas as classes, desde a mais alta e a mais
rica à mais pobre e à mais baixa, enchia aquele trecho, subia promontório acima. E o
aspecto era edificante. Grupos de rapazes apostavam em altos berros subir à igreja pela
rocha; mulheres em desvario galgavam a correr por outro lado, patinhando a lama viscosa.
Todos os trajes, todas as cores se confundiam num amálgama formidável, todos os
temperamentos, todas as taras, todos os excessos, todas as perversões se entrelaçavam.
Quis notar o elemento predominante. Num trecho havia mais pretas com soldados. Adiante
logo, o domínio era de gente de serviço braçal, um pouco mais longe a tropa se fazia de
rapazelhos do comércio e, se dávamos um passo, outro grupo de mocinhas com senhores
conquistadores se nos antolhava. Todo esse pessoal gritava.
Logo na subida encontrei um meninote engolindo uns restos de vinho do Porto pelo gargalo
da garrafa. Em meio do caminho um grupo do Clube dos Democráticos, de guarda-chuva branco
e preto, tocava guitarras e assobios.
De todos os lados partiam cantos de galo. Os cocoricós clássicos vinham finos, grossos,
roufenhos, em falsete: - Cocoricó! Cocoricó!
- Já ouviste cantar o galo?
- Pois hoje não é a missa dele?
- Cocoricó! pega ele pra capar!
- Pega!
A igrejinha estava toda iluminada exteriormente à luz elétrica. Defronte de sua fachada
lateral haviam armado um botequim. A turba arfava aí, presa entre a bodega e o templo.
Quando eu passei, porém, a bodega fora devorada e bebida. Os caixeiros tinham trepado
para os balcões no desejo de apreciar a cena. Fiz um violento esforço para entrar na
igreja. À porta havia uma verdadeira luta e dentro ninguém se podia mexer. Divisei
apenas como indicação humilde do dia um presepe no lado esquerdo, um presepe com
pano de fundo representando fielmente um trecho de Cascadura, e estava assim embebido,
quando de repente estalou o rolo, o rolo rápido e habitual. Um sujeito apanhara uma
bengalada, levantara o guarda-chuva, uma menina gritara: - nunca mais venho à missa! E no
roldão da turba medrosa, de novo caí na ladeira, ouvindo os cocoricós, as chufas, as
graças sórdidas:
- Pega pra capar! Cocoricó! Já ouviste o galo?
No céu cor de chumbo, ameaçador de temporais, espocavam girândolas de foguetes. E todo
aquele trecho, mais aquecido, mais feroz, mais cheio de gente redobrava de deboche, de
frenesi pândego, de loucura, quebrando copos, cantando, assobiando, praguejando, ganindo.
Atirei-me dentro do automóvel, exausto. A máquina disparou outra vez, lutando agora
contra a massa dos carros, dos automóveis, dos tramways que chegavam.
Onde é a Lapa do Desterro?
- Quer ir lá? É uma igreja de gente pobre. É na Lapa.
Pois vamos lá.
O automóvel quebrou pela rua da Lapa, parou defronte da velha igreja. Eram duas horas da
manhã. Havia à porta a mesma matula de homens endomingados
à espera da conquista, a mesma sarabanda de sirigaitas. Entrei. O tapete do templo,
celho, esfarripado, tinha por cima, em alguns trechos, folhas de mangueira. No altar-mor,
dos lados, entre panos azuis, ardiam dois bicos auer, e aquela luz azul como
transfigurava o retábulo, os acessórios, os ouros
despolidos. A concorrência era menor, na nave, mulheres de xale formavam roda
conversando. Andei por ali tristemente. Ao sair, porém, vi de joelhos um homem.
De joelhos? Na missa do galo? Deus! Quem seria aquele pobre coitado? Aproximei-me. Era um
rapaz teria no máximo vinte anos. Ao lado o seu chapelão de coco repousava junto
à grossa bengala. No seu corpo ajustava-se demais um grosso fato de inverno aldeão. De
mãos postas, a face ingênua voltada para o altar, esse ser, numa noite báquica, era tão anormal, tão extraordinário, que eu cheguei
bem perto, olhei bem, fui ao ponto de curvar-me para lhe espiar os olhos. O pobre
sobressaltou-se.
Meu senhor!
- Que está você a fazer aí?
- Que estava? Ah? perdão
Estava a rezar, estava a pedir ao Menino Deus que dê
saudinha aos pais lá na terra e que me proteja.
Donde é você?
- Saberá V. S.ª que do Douro, sim senhor.
Falava de joelhos, a sorrir para mim; pobre alma ingênua e pura da aldeia, pobre alma que
se ia putrefazer na grande cidade, único coração que adorara Deus entre dez mil pessoas
vistas por mim!
Oh! Tive um ímpeto, o desejo de abraçá-lo, a sensação de quem, após uma longa
desilusão, sente viva no abismo fundo a flor maravilhosa. Mas já em torno se fazia roda
de ociosos, já um sujeito surgira com um riso de troça.
Pois faz muito bem. Adeus.
Adeus, meu senhor!
- E continuou ô cousa incrível! de joelhos, voltado para Deus, lembrando a
sua aldeia, lembrando os paizinhos, pedindo o bem enquanto pela cidade inteira as
ceatas e as pândegas desencadeavam os ímpetos desaçaimados

Adro Terreno em frente ou em volta da igreja; Períbolo.
Báquica Orgíaco,
relativo ao deus grego Baco.
Barafustou Entrar
ou meter-se com violência.
Capoeira Mato que
nasceu das derrubadas de mata virgem; Terreno em que o mato foi roçado ou queimado para
cultivo da terra ou para outro fim.
Diadema Coroa,
grinalda; Faixa ornamental com que os soberanos cingem a cabeça.
Endomingados Vestidos
com a melhor roupa; Garridos.
Machacares Plural
de machacaz, homem corpulento, desajeitado, pesadão.
Mofa Zombaria.
Recrudescido Tornar-se
mais intenso, aumentar.
Retábulo Construção
de madeira, mármore ou outro material,com lavores, que fica por trás ou em cima do altar
e que normalmente encerra um ou mais peinéis pintados ou em baixo relevo.
Tejadilhos O teto
dos veículos.
(RIO, João do. A alma encantadora das ruas) |