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Alegria de forasteiro

Depois de três léguas de caminho, encontramos abrigo na fazendo de Matias Vieira. O proprietário, homem idoso e que era ao mesmo tempo juiz do arraial Patrocínio, recebeu-me com extrema benevolência, deu-me um de seus melhores quartos e, embora já fosse tarde, mandou preparar uma boa refeição à moda do país, que consistia em legumes, feijão, uma galinha com arroz, queijo, farinha de milho, bananas.

Muito esquisito para o estrangeiro parece o costume de derramar farinha de milho sobre a mesa para servir, por assim dizer, de base a outros alimentos contidos numa travessa. A gente serve-se logo dessa farinha, em vez de pão, tirando-a do monte com uma colher e levando-a assim à boca. Os naturais tem a habilidade de tirar essa farinha do monte às colheradas e enviá-las ou melhor arremesá-la à boca. Aliás, tinha a mesa um luxo raro no interior do Brasil, isto é, pratos de louça inglesa, guardanapos, talheres de prata, um copo de prata em que era servida a água de beber e enfim uma grande bacia de metal em que depois da refeição se lavava a boca e as mãos.

No meu quarto esperava-me um banho para os pés, uma limpa cama de palha de milho com uma coberta branca e um cobertor de algodão lavrado com flores e cruzes coloridas, sendo este último um produto da indústria doméstica. Davam-me grande prazer essas comodidades de que desde longo tempo me achava privado. E quando, pela primeira vez desde muitos dias, eu me entreguei de novo ao repouso na cama limpa, me senti tão ao meu gosto, poderia dizer, tão feliz, que podia comparar-me com o mendigo do conto popular que subitamente, foi transladado do inferno para o céu.
(Johann Emanuel Pohl. 1817-1821)

O dom dos pobres

Nossos camponeses da França prestam também serviços, com a melhor boa vontade do mundo; mas sabem que serão recompensados; tudo calculam e põem preços às menores coisas, mesmo por um quarto de hora de trabalho. Aqui, o pessoal menos rico dá e serve sem pensar que tem direito a qualquer retribuição; se se lhes oferece alguma, parecem espantados e fazem novos presentes para provar o reconhecimento.
(Auguste de Saint- Hilaire. 1822)

Ontem, hoje

I
Foi o jantar servido com grandes mostras de hospitalidade, mas despido de qualquer exibição de superioridade ou afetação desnecessária. [...] A parte que maior impressão causou em meu espírito foi a sombremesa, na qual serviram-se vinte e nove variedades diversas de frutas nacionais, feitas em compotas e fabricadas nas vizinhanças do lugar.
(John Luccock. 1808-1818)

II
A família Peixoto se mostra envergonhadíssima do pobre almoço que pode oferecer ao ilustre visitante.

O cardápio compunha-se dos seguintes pratos: sopa de ervilha, peixe assado, empadas e pastéis, galinha assada, salada de alface e agrião, carne recheada, lombo de porco com tutu de feijão, arroz de forno, lingüiça, e farofa de torresmo, couve à mineira, angu à mineira, rosbife. Como sobremesa havia: doce de coco, doce de leite, arroz doce, gelatina, goiabada de cascão, melado e várias espécies de queijo. Como bebidas: vinhos portugueses, brancos e tintos, champanha francesa, águas minerais e café.

A família estava envergonhadíssima.
(Marques Rebelo. 1951)

(In ANDRADE, Carlos Drummond de (org.). Brasil Terra e Alma; Minas Gerais)

 

Metades do coração
(Alberto de Oliveira)

Quando a casa deixei, canto de céu tão puro,
Onde tive hospedagem,
Chorei, confesso, em viagem
Vistes-me vós chorar, monte acurvado e escuro,
Arrevaldas colinas,
Terras vermelhas
Da estrada,
Por onde vinha o trem à disparada,
Vales sombrios,
Rio das Velhas,
E outros rios de Minas.
Não me passavam, não, do inquieto pensamento
(não passaram ainda
nem passarão jamais) em visão claras,
os corações que amara
nessa estância tão linda.
Via o meu aponsento
O quarto de hóspede, onde descansava;
Via na sala
A família reunida. Horas divinas,
Como esquecer-vos? Tudo me falava,
E inda fala
De Minas.

Cheguei. Vem me receber o meu filhinho à porta
Dos meus o abraço amigo
Me conforta.
Enfim, no lar! Todos a rir comigo!
Mas ao prazer de agora se mistura
Indefinido
Sentimento. É a saudade!
Saudade, o coração tu me dominas!
E entre pesar e ventura,
Me fico repartido:
Metade aqui, outra metade
Em Minas.

Palhoça

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