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Ir para a página principal A TROPA

I
Só se empregam bestas de carga no transporte das mercadorias que saem da província de Minas e das que os habitantes dessa província importam da capital. Dá-se o nome de tropeiros aos homens que conduzem as caravanas de burros destinadas a empreender essas viagens e outras semelhantes. As tropas um pouco consideráveis são divididas em lotes de sete animais, e cada um é confiado à guarda de um negro ou mulato que, caminhando na retaguarda dos cargueiros de que está encarregado, os incita e dirige por meio de gritos ou assobio bastante brando. Costuma-se carregar cada besta com oito arrobas (120 quilos), e, para não feri-las, iguala-se a carga com o maior cuidado.

Cada caravana que chega a um rancho aí toma o seu lugar; os animais são logo descarregados; arrumam-se as mercadorias com ordem; cada animal recebe a sua ração de milho; levam-nos ao pasto; arranjam-se-lhes as albardas, e se desentortam os cravos destinados a ferrá-los. Enquanto isso o mais jovem da tropa vai buscar água e lenha, acende o fogo, arma em redor três bastões que se unem superiormente, amarra-os, e suspende um caldeirão na tripeça, onde põe a cozinhar o feijão preto destinado ao jantar do dia e ao almoço do seguinte.

Os tropeiros das diversas caravanas se aproximam uns dos outros, põem-se a conversar, relatam suas viagens e aventuras amorosas, e, às vezes, um deles encanta o trabalho dos vizinhos tocando guitarra e cantando algumas dessas árias brasileiras que tem tanta graça e doçura. Tudo se passa com ordem; raramente discutem, e falam entre si com uma delicadeza desconhecida na Europa entre homens de classe inferior.

No dia seguinte levantam-se bem cedo; dão aos burros nova ração de milho. Deixando o rancho saúdam os tropeiros que ainda aí ficam; fazem nova caminhada de três a quatros léguas, e chegam a outra estação pelas duas ou três horas da tarde.
(Auguste de Saint-Hilaire, 1818)

II
À frente ia a madrinha da tropa, um cavalo com o seu cincerro a tinir com o guia dos lotes de sete a oito mulas que seguiam em fila indiana. Guieira, uma besta de cabeçada cheia de guizos e de tiras de baeta e outros enfeites multicores na ponta de couro levantado na parte interior. Vinha em seguida cada lote com o seu tocador ou tropeiro e separado do imediato por distância razoável, para não haver atropelo nos pontos difíceis do caminho. Fechando o cortejo, vinha o dono ou arrieiro cavalgando lindo animal ricamente arriado.

Os tocadores e o cozinheiro acompanham a tropa à pé, descalços, sem paletó, com as calças arregaçadas e um lenço amarrado na cabeça, mesmo quando levam chapéu, em geral de palha.

O arrieiro, não raro dono da tropa, traja decentemente e traz poncho azul-ferrête, forrado de baeta encarnada, caindo sobre as botas de couro.

Além da faca de ponta de cabo de prata, anda sempre armado de pistolas (garruchas). O seu distintivo, porém, é uma toalha branca, de crivo, sobre os ombros. Os tropeiros em geral eram primeiramente índios e depois cablocos, isto é, mestiços de índios.
(Daniel Carvalho)

III
Que alegre tintinabular me canta agora os ouvidos? Que lírico madrigal, cadente e argentino, vem carrilhonando estrada em fora? Ah, é uma tropa. À frente da trota a madrinha, com um colar de campainhas no peitoril. Vem lépida, contente, estimulada pela doce música de suas passadas ferem, orgulhosa talvez dos laços de baeta vermelha que a adornam, como rústica divindade de um culto primitivo. Até ao alto pau do
arrocho, enristado sobre as cargas como uma haste de bandeira, ondula a flâmula ridente de duas tiras escarlates. Embalam-me assim a alma com as suaves toada de minha infância, canta-me essa velha cantiga serrana, simples e sem letra, ó doce aparição das estradas mineiras, poética fantasia de tropeiros roídos de saudades, que, se à noite descantam nos arpejos da viola as suas melancolias de eternos desterrados, de dia sentem que o jornadear é mais suave embalado pelo teu carrilhão sonoro e jovial, doce encantamento para os ouvidos e refrigério para a nostalgia.

E, repicando festiva, com o surdo acompanhamento do patear da tropa, a agreste harmonia perde-se à distância.
(Godofredo Rangel)

(ANDRADE, Carlos Drummond de (org.). Brasil Terra e Alma; Minas Gerais)

 

Ilustração de Percy Lau. In Tipos e aspectos do Brasil

COMETA PASSAVA BEM

Os tropeiros regulares e os cometas esporádicos eram os agentes civilizadores. A chegada de um cometa, então, era causa de rebuliço. O que ele trazia para agradar!... A última música do Rio para as moças, a última anedota para os rapazes, a última novidade para os comerciantes, tudo com oito ou dez meses de atraso. Era esperado nas portas da cidade, vinha com o seu séquito sempre em linha: o secretário, o cozinheiro e dez ou doze mulas da mesma cor, com arreios de prata, conduzindo as amostras. Uma das aspirações dos rapazes monte-clarenses era ser um dia secretário de cometa.

Secretário de cometa era o cidadão ilustre que acompanhava o grande homem pelas casas para tomar notas dos pedidos: "Escreva ai, rapaz, des peças de
cetineta azul para o senhor Veloso." O senhor Veloso reclama: "Não, não, é muita coisa." O homem destru
ía todos os empecilhos: "É coisa nenhuma, isto é que é. Artigo chique, novidade, não há moça que não fique louca por cetineta azul como esta. Artigo superior! Ponha lá, rapaz, dez peças para o senhor Veloso." A família gostava da força do cometa – dez peças! – e o pai querendo fazer sumiticaria. O secretário escrevia: 10 peças. "Escreveu rapaz?" "Escrevi, sim senhor."

... O cometa ia por todas as casas, era recebido por todos, ria, brilhava, promovia festas,
assustados, jantares, piqueniques. O cozinheiro do cometa sabia de pratos finos, pratos do Rio... Cometa passava bem, usava perfumes caros, gravatas vistosas, belos bigodes encerados. Chegada de cometa era período de festas. Havia uns que tinham a maior popularidade. Seu Rodrigão (português), por exemplo. Seu Rodrigão era famoso. Que grande ar, que gargalhadas, que palestra florida! E os lenços de seda que usava! E as mágicas que fazia! Estada dele equivalia a festa dia e noite.

Mas um dia – foi em 1926 – a estrada de ferro chegou a Montes Claros. A cidade acordou entrou num novo ritmo, cresceu, prosperou, ganhou novos hábitos. Acabaram-se os tropeiros, seu Rodrigão sumiu, os habitantes dormiam quando a lua estava no céu.
(Marques Rebelo)

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