Retornar para OficinaRetornar para Oficina
Ir para a página principal O RUÍDO DA CIDADE COLONIAL

Se os nossos avós coloniais não suportaram o neurastenizante ruído da cidade moderna, desconhecendo a buzina do automóvel, o apito da locomotiva ou da fábrica, o piano mecânico, o alto falante e a vitrola, conheceram, pior que isso - o sino que, durante três longos e impassíveis séculos, sobre os seus ouvidos, como sobre os seus nervos, malharam incansavelmente, desapiedadamente, falando-lhes num verdadeiro delírio de impertinência e constância, ora de Deus, ora dos próprios homens.

O Rio era uma feira bulhenta de badalos. E que badalos! Nem sequer em Lisboa, onde eles, à solta, viviam pelas sineiras quais cabras a dançar, tiveram, como aqui, maior função, maior violência e maior prestígio.

Como bateram eles desde que, junto ao morro Cara de Cão, o primeiro bronze descido das naus portuguesas para fundação da cidade alarmou o tamoio, lançando sobre as florestas da Guanabara a voz de bronze da igreja falando em nome dos céus? Bateram muito; batiam sem prudência e sem descanso, e bateram tanto, que até nem sabe a gente como não ensurdeceram, de vez, todos os ouvidos do tempo!

Foi sempre entre nós o sino uma espécie de gazeta de bronze, gazeta da cidade, órgão oficial e provecto da igreja, espalhando, em edições gratuitas lançadas aos quatro ventos, de hora em hora, de minuto em minuto, os mais variados e polpudos informes sobre o que ia aos poucos ocorrendo, até de profano, na urbs colonial.

A botica que se considerava também órgão noticioso e importante, quiçá com melhor literatura e comentário mais sutil, não teve a popularidade, a viva expansão divulgadora do sino.

Contra a botica havia a peia daquele estreito sentimento de parcialidade que, vindo da alma do boticário, transformava-a mais em pasquim que em jornal.

O sino só queria saber do fato.

Existia, além disso, numa concorrência esmagadora, um número muito maior de torres com sinos que de boticas com mexericos, de tal sorte provando que o remédio dos homens, entre nós menos valia outrora que o remédio de Deus. O badalo anunciava as horas principais da vida da cidade.

O homem de capuz enfiado, na sua cama colonial, ouvia logo pela madrugada, cedo, o sino que tocava matinas.

Tem...
Tem...
Tem....


Ajoelhava-se. Persignava-se. Passava a mão larga no olho ramelento, lembrando o versinho do tempo:

Afaste as cortinas
E saia da cama
Que tocam matinas...


Ao meio dia, por uma época em que se jantava antes de uma hora, ouvia o mesmo homem o bronze que cantava:

Meio dia
Panela no fogo
Barriga vazia...


Pela hora do angelus, para que cessasse o serviço dos escravos, para que se preparassem as almotolias de azeite, e se espicaçassem os pavios das velas metidas em altos candelabros, as badaladas da Ave-Maria cortavam o espaço, abemoladas e tristes...

Ave Maria
Mãe de Deus!


Depois disso os sinos repousavam. As sineiras silenciosas enchiam-se de cambaxirras e de rolas. Caía sobre a cidade, com o primeiro clarão das estrelas, um silêncio de morte...

Até esse momento de paz e de alívio, porém, o sino tocava sempre: anunciando a missa, descrevendo-a, anunciando todas as outras cerimônias do culto, ilustrando-as, esmiuçando-as. Publicavam-se tedeuns, laus-perennes, novenas, o mês de Maria, a saída do bispo, o dia santo, a missa, tudo em badaladas vigorosas, cantantes...

Há de se concordar que, como seção religiosa, o trabalho da gazeta era completo.

Muito desenvolvida, porém, era a seção mundana, a mais apreciada de todas.

Blão...
Blão...
Blão....


- Estão a tocar defunto fresco na Candelária, mana; deve ser o filho do provedor-mor que estava nas últimas.

Ia-se ver. Era o filho do provedor-mor.

Pensava-se noutra cousa. De repente, o sino de São Francisco que soava:

Tem...
Tem...
Tem...


Na casa colonial, sobre uma esteira de palha, dona Sinhá, à frescata, só de saia e camisa, mostrando o pêssego dos seios muito morenos e carnudos, conta as badaladas no ar.

Ouve-se uma voz que vem dos lados da cozinha e que diz assim:

- Ora graças que já é pai o senhor Intendente Geral do Ouro! Diziam que era para amanhã ou depois... Olhem a criança aí. E vão ver que é menina...

Dona Sinhá continua, então, muito importante, sem responder, contando as badaladas:

- Seis, sete, oito, nove...
- Menino! Nove! Menino!

Para as meninas as badaladas eram sete.

- Deus que lhe dê boa sorte!

O sino também anunciava a boa nova vinda do Reino, a chegada de maiorais, as festas do vice-rei, os dias de gala...

Por vezes, à noite, ouviam-se os toques violentos, em rebate. Já se sabia.

- Fogo! Ponham as luzes à janela!

A ordem era do Senado da Câmara para que os socorros no labirinto das vielas desprovidas de iluminação não se chocassem, prejudicando o serviço.

Os quadrilheiros, homens do balde e o das carroças d'água, à toda, vinham por sua vez, gritando pelas ruas:

- Luzes! Luzes! Luzes!

E o sino a dançar, nervosamente, na sua saia de bronze, não descansava.

Bam, tam
Bam, tam, bam!
Bam, tam
Bam, tam, bam!


Não fosse ele, e a cidade, talvez, ardesse toda. Incansável e bulhenta sentinela...

Para vingar, porém, a impertinência, a constância quase nevrálgica do sino, o carioca atribuía-lhe, maldosamente, despautérios.

É assim que o da Candelária passava por orgulhoso e grulha:

De todos sou
O sino rei,
Nenhum soou
Jamais, nenhum
Como eu soei
O sino rei
De todos sou.


O sino de Santa Rita diziam que falava assim, pelas Ave Marias:

De Santa Rita fui
De Santa Rita sou.
O senhor capitão-mor
Me reformou.
Me reformou.


E quando batia pelas crianças que iam a enterrar:

Feliz anjinho
Que vai pro céu!
Feliz anjinho
Que vai pro céu!


O do convento de Santa Teresa, que era um sino de freiras algo fanhoso na má língua carioca, por vezes punha-se a dizer para o dos Capuchinhos, na igreja do Castelo, uns frades muito barbados e muito feios:

Me dá um vintém,
Me dá um vintém,
Me dá um vintém,
Vintém,
Vintém,
Vintém,


O dos Capuchinhos, que não queria passar por sino milionário, respondia invariavelmente:

Capuchinho não tem,
Capuchinho não tem,
Não tem,
Não tem,
Não tem...


Por vezes os dois sinos discutiam ao mesmo tempo, nervosos e terríveis:

- Tem.
- Não tem.
- Tem.
- Não tem.
- Tem...


Os sinos da Candelária, Lampadosa, São Bento, São José, tinham vozes, naturalmente, diversas. O mais fino e delicado deles era o de São José, bronze um tanto fraco que, por vezes, se punha a cantar numa voz esganiçada:

O teu nariz tem pílulas,
O teu nariz tem pílulas,
Tem pílulas,
Tem pílulas,
Tem pílulas,


Diante de tão inopinada informação, um pouquinho mais grosso, vinha, por pilhéria, sempre, o sino da Lampadosa:

E eu tiro-las,
E eu tiro-las,
E eu tiro-las,
E eu tiro-las,


O de São Bento, perguntava, então, engrossando mais a voz:

Com
Que?
Com
Que?
Com
Que?


Resposta infalível do sino da Candelária, o mais forte de todos, num som baixo, cavo, profundo, quase subterrâneo:

Com meu
Badalão,
Com meu
Badalão,
Badalão,
Badalão!...


A facecia fomos encontrá-la nas dobras avelhantadas de um manuscrito. Gostosa facecia!

Sinos, gazeta da cidade, de vossa ação meritória, embora insolente, novas que não teve o marquês de Pombal, aquele homem sem entranhas que não queria que do Brasil ou no Brasil se espalhassem notícias.

Ah! que se ele soubesse da vossa ação e vosso ardor, talvez fosseis até destruídos, tendo a sorte daquele prelozinho, o primeiro aqui montado por Gomes Freire de Andrade, conde de Bobadela, governador da cidade, tão grande e tão nosso amigo...

(LUIZ EDMUNDO. O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis)
 

Ilustração de autor ignorado. In Luiz Edmundo. O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis

Oficina

Folhinha | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Catavento | Almanaque
Candeeiro | Mural | Expediente
| Busca | Outras Edições