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QUEM TE
MATOU?
Um homem, certo
dia, saiu da cidade andando a pé, e junto a uma porteira, longe de habitações, deu com
uma caveira feia como só podem ser a morte e o pecado.
Levianamente, deu-lhe um pontapé e caçoou:
- Quem te matou, caveira?
Mas qual não foi o seu espanto, quando, com um estalar dos ossos muito brancos, lavados
de chuva e estorricados ao sol, a caveira respondeu:
- Foi a língua.
O pavor o sacudiu com ímpeto. Saiu por ali afora numa doida carreira, e dentro de pouco
tempo estava novamente na cidade. Na sua excitação, contou a toda gente o que lhe
acontecera.
Não pode ser diziam.
Foi. Juro. Eu vi. Eu ouvi. Junto a uma porteira.
Uma caveira falando? Alucinação, meu amigo.
Verdade.
Alguns acreditavam, outros não. A maioria, não. Mas a notícia correu a cidade,
cercou-a, voou até o palácio do rei.
O rei mandou chamar o moço.
Que história é essa?
O moço contou tudo, ainda se arrepiando de se lembrar do susto.
Ela respondeu, juro, majestade.
O rei se desencostou do trono e, com um dedo em riste, sacudindo-o diante do nariz do
moço, falou:
- Vou lá ver isso. Sou curioso. Mas veja lá, se for mentira sua, e você me fizer bancar
o bobo, eu te mando pendurar na primeira árvore que encontrarmos.
Foi verdade, majestade murmurou o moço.
Aprestara, então, um grande cortejo. Ia adiante o rei no seu cavalo branco, ricamente ajaezado, com aperos de ouro e prata. E depois,
os nobres, suntuosamente vestidos. E os soldados. Tudo aquilo fulgia ao sol. Bem adiante,
caminhava o moço a pé, com as mãos amarradas. Tudo estacou junto à porteira. Parecia
uma festa. Os que riam e caçoavam calaram-se ao ver a caveira, tão maligna parecia.
Trêmulo, o moço perguntou:
- Quem te matou, caveira?
A caveira quieta estava e quieta ficou.
O moço pensou que talvez tivesse faalado muito baixo. Em voz mais alta, mas insegura,
interpelou novamente:
- Quem te matou, caveira?
E a caveira, quieta.
Quem te matou, caveira? gritava agora, com os olhos esbugalhados, saltadas
as veias do pescoço, e um pavor infinito apertando-lhe o coração.
Quem te matou, caveira? Quem te matou, caveira?
E a caveira muito branca, luzindo ao sol, em silêncio. O moço perdeu a cabeça, começou
a dar-lhe pontapés, o golpe soava cavo, e ele ia atrás dela novamente, de um para outro
lado, suando, rugindo.
Quem te matou, caveira?
Apanharam-no, veio o carrasco no seu camisolão vermelho, fez o nó corrediço com dedos
ágeis, e o moço ficou enforcado numa árvore à beira do caminho, enquanto a comitiva
voltava, aparatosa mas sem animação, para a cidade.
Ficou tudo em silêncio, no campo. Não passava vivalma. Decorreram as horas quentes do
dia, anoiteceu. Quando se adensaram as primeiras sombras, aconteceu uma coisa
extraordinária. A caveira, que não parecia dotada de movimento, rolou um pouco sobre si
mesma e veio, aos pulos. Pulou até chegar sob a árvore onde estava o enforcado. E ali,
com o feio buraco das órbitas vazias virado para cima, perguntou:
- Eu não te falei que quem te matou foi a língua?
(In ROMERO, Sílvio. Folclore brasileiro; contos
populares do Brasil) |

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