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LEMBRANÇA DAQUELA NOITE AMIGA

A novidade da missa do galo no sertão deixa de olho vivo até esta hora as duas mais velhinhas, enquanto a irmã pequenina dorme o sono dos anjos, desde as oito.

Por volta das onze, pela calada da noite de integral serenidade, como aquela que há dois mil anos pairava no oriente, sobre a cena da manjedoura, começa a chegar, na asa do vento, a cantiga dos sinos de Natal.

Pela nossa rua, a rua Direita, que é por sinal toda torcida que nem curva de rio, há muito que vão passando os grupos em direção à matriz, não é sem tempo que vamos também tratando de seguir no mesmo rumo.

Do fundo da memória, vem subindo a enternecida revivescência doutra missa do galo de quinze anos passados, quando os enlevos do noivado traziam da Bahia o estudante em férias, aos rebolos da temerosa travessia em barco a vela, como se faz até hoje na zona.

Chegado justamente na madrugada da festa, como me passa ainda pelos olhos o desfile espectral dos mangues do Mutá que a Iolanda vinha renteando desde a boca do rio, dentro da noite. Galhadas leves a copa emergindo da água turva, batida pelas luzes de bordo, com qualquer coisa de afogado no modo de estender até nós alguns dos ramos, a muralha flou do arvoredo anfíbio nos dando guarda até o porto, quando as casinhas das colônias de pescadores do Tento começavam a surgir ao clarão das lâmpadas nuas, tão fraquinhas, no seu resto de sono antes do apito da fábrica. Ao lusco-fusco do amanhecer, os conhecidos recantos de Valença desabrochavam também do fundo da treva, a fileira de barcos ancorados na margem, o grupo de sobrados do cais findando no casarão da Prefeitura, a pracinha da Recreativa estendida para diante. Depois, o alvoroço da recepção familiar, a doce acolhida com que eu via renovar-se a hora doutras chegadas entre a minha gente do Ceará, o breve perpassar das horas leves do eterno engano d'alma ledo e cego.

Acontece que a noite é uma benção de silenciosa e grave beatitude, tal qual no coral da Noite Feliz, cuja melodia nos vem envolta com a lembrança doutros natais europeus tão longe no tempo e no espaço, ainda no ar uma tal sugestão de pureza e de solidariedade cristã, pelo penhor de horas mais felizes, que todos os ressábios desta era de sobressaltos e de iras ferozes se transmudam numa teimosa promessa de renovação, vai conosco, ainda mais, a parelhinha gentil das filhas, abrindo o traço de união mais inefável com o perdido tempo.

A divina presença da criança nascida entre palhas e bichos humildes envolve a humanidade no manto de serenas emoções que são a dádiva melhor do fim de cada ano de cansaço e de penas. Agora mesmo, o pequenino Deus, que é maior neste instante, por ter revestido a figura de homem desamparado, mais próximo portanto da sua gente, lá se acha, docemente reclinado no presepe de ingênua arte que a tradição lhe arma todos os anos, por este tempo.

A matriz, como há um século, recorta no alto da escadaria tosca a fachada simples, ao clarão das lâmpadas de festa, enquanto lá dentro se acotovela desde cedo a multidão de mulheres e crianças, muitas delas arreadas já da longa caminhada dos povoados vizinhos, são às dezenas que dormem recostadas à mãe ou à avó, também cabeceando de sono.

Um fiel, porém, dentre todos, empresta uma nota de profunda emoção ao quadro.

O senhor vigário não chegou ainda, as velas do altar-mor não foram acesas, falta pelo menos meia-hora para o começo da cerimônia religiosa. Então, tendo chegado, sabe Deus quando, com o cansaço do dia gasto no remo da canoa ou no pilão do dendê, um caboclo forçudo subiu os primeiros degraus do altar, recostou-se, com a maior naturalidade, no rebordo de pedra da escada, tomou a posição mais cômoda e se entregou ao melhor dos sonos.

Rola em redor o burburinho do templo cheio, cochichos e resmunfos da meninada, a todo momento roça por ele gente que sobe e desce, e a tudo em total indiferença, como se houvesse tomado para leito, em vez da pedra dura, o girau costumeiro da sua palhoça à beira do rio, o barqueiro nem se move, fundido no sono das supremas canseiras que é, como o da posse, irmão da morte.

fora, do alto da torre, cai de novo a revoada de repiques da última chamada. Um longo remexer de corpos, uma busca melhor de posição para cada um, corre por todo o templo, que a esta hora já se acha lotado duma ponta a outra.

Não tarda que o padre, sob o ouro dos paramentos, suba ao altar, os primeiros acordes do harmônio começam a zumbir, no coro da igreja ensaiam-se as vozes das beatas.

O homem adormecido adquire então para mim a grandeza dum símbolo. Não é mais o caboclo rude, de pés gretados pela areia dos mangues, mordido de caranguejos, afuroado de espinhos do mato. Não vejo mais o lento remador que passa noutras horas, rio acima, rio abaixo, manejando a piroga esguia e lenta como um peixe preguiçoso, nem o feirante que volta à sua roça, na lerda montaria do boi chucro. Quem está ali, com vinte séculos de atraso, é um pastor de Belém, daqueles mesmos que andavam cochilando à beira do fogo, em plena noite do deserto da Ásia, quando viram acender-se no céu a luz da Natividade. Este também tenho a certeza de que há vagar agora em remotos páramos, num tranquilo país de tamareiras que nunca lhe surgira antes, da hora e do berço do Menino Deus, a dois passos do seu sono. Como o pastor do Evangelho, adormeceu igualmente sem sobrosso, ao peso do seu dia de honesta lida, pôs no chão a cabeça de pensamentos simples, esqueceu o coração de bons propósitos e de encontro ao duro recosto, ali se deixou ficar, egresso daquela hora da Bíblia, duma hora nova do mundo. O que espero é que não o despertem antes que o padre anuncie a boa nova, para que ele possa seguir logo mais o rumo da estrela e quando a vir seja sobremaneira grande o júbilo que sinta... (Mateus, II, 10)

Sortilégios do Natal! De fato, estava escrito que a noite não se fartaria de emoções. Daí que, mal a missa comece, vem pela porta de trás e se põe a meu lado uma criatura que é toda simplicidade, beleza e juventude, no seu pobre vestidinho de chita da Coordenação. O coração dá um baque porque há desta vez um recuo, mas na minha própria vida, de um quarto de século, sou de novo um rapazinho desensofrido de certas famosas andanças da margem do Jaguaribe, em pleno sertão cearense. Vejo-a de novo, tão bonita e tão doce, a cabocla do meu sertão do Aracati, com os seus cabelos dum negrume que rebrilha, sedosos e soltos pelas costas até a altura dos quadris, um cacho de jasmins entrelaçando os bandóis, os olhos duma ternura líquida, a cor de mel da pele com mistura de rosa e mangaba, toda cheirosa a água do rio e a erva do mato – tenho a certeza de que vem direta dos meus vinte anos anos ou dum poema de Catlo.

Nada lhe falta ao prestígio de aparição matinal de tão envolvente graça e de tão casto enlevo. Toda a beleza nativa dos rincões nordestinos ainda alheios ao artifício do batom e dos cílios catados à pinça, nem betume de rímel nos olhos que nada conhecem além da água da fonte, o corpo solto no casaco justo que lhe recorta sem propósito o colo tão cheio e empinado que nem duma rola fogo-apagou. Tem sim, para que não dizer, um toque só de novidade nos sapatos mexicanos, mas ainda aí se esbate a intrujice, pelo jeito de tamanco habitual que lhe toma aos pés.

É uma volta de estrada batida de sol que entrou pela igreja, um alpendre de sombra amiga, o caneco de água límpida e fresquinha que vem na mão morena ainda com o gosto da boca bonita que bebeu por ele, antes de o encher.

Vem duma estampa que ficou na memória, cinco lustros, resguardada na sua pureza sem retoques, adormecida para o consolo dum minuto como este, pedaço do Brasil tão bom das fazendas e das casinhas da beira dos caminhos sertanejos, do cair da noite sobre a mata, com todo o esplendor do céu sem lumes de gás neon nem recorte grotesco de pombais de apartamentos. Brasil doce e manso, de fala quieta e macia, de riso claro e sem malícia, gostando de abraços e de ouvir histórias, duro na lida do campo e sóbolas águas do mar, madrugando com as últimas estrelas e dormindo com resto ainda de sol, que a noite foi feita apenas para o sono e para o amor. Brasil de corpo bonito e generoso como o dessa cabocla de braços rijos para o trabalho e tão brandos para a carícia, tão franco e fácil na sua bondade como na hora do descobrimento, quando já o notara o escrivão Caminha. Brasil brasileiro, que a gostosa presença da roceirinha gentil desta missa do galo vem botar de repente outra vez junto do meu coração, na mais envolvente ternura duma hora de aproximação com o passado. Volta imprevista aos meus alvoroços de adolescente e à perturbadora revelação da terra que me fascinou um dia fazendo-me bater mais vivo o coração, mergulho fundo e bom numa vaga de descuidoso enlevo – que me dá assim, como ao homem daquele apólogo da noite feliz, de Álvaro Moreira, o mais feliz dos meus natais.

(LIMA, Herman. Roteiro da Bahia. 1953)

 

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