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SEU CANDINHO BAIXO DE OURO Apresentam-se os presépios no mês da festa do Natal, nesse muito
esperado dezembro em que tudo é sorriso e alegria no nordeste brasileiro
relicário de piedosas tradições e de lendas poéticas do povo.
Armam-se por terreiros, ou mesmo nas amplas salas das velhas casas das
famílias, as "lapinhas" em arco verdejante da folhagem cheirosa da
canela e da pitangueira em flor. Dentro da lapinha, sob o céu de papel azul cravejado de
estrelas prateadas, está o presépio ou presepe, como, geralmente, o chamam, com
as suas casinhas minúsculas grimpando pelas montanhas da
Judéia
em cartolina marrom, vendo-se, ao centro, sob a estrela de Belém, a pobre
majedoura onde nasceu o Menino Deus.
ENFEITES PITORESCOS
Acontece, quase sempre, que os armadores, ou as armadoras da lapinha, com a maior
ingenuidade, sem nunca haverem ouvido falar, sequer, em anacronismos, põem um trenzinho
de ferro ao lado dos pastores, tendo eu visto, certa vez, em um "céu"
de lapinha um minúsculo avião perto de um majestoso balão dirigível sobrevoando uma
elegante torre Eifel
Perguntei por que haviam posto ali o avião, o "Zepelin" e a torre
Eifel. A resposta, dada com a maior simplicidade, foi esta:
- Eles estão ali para enfeitar a lapinha
Completando os "enfeites" se vêem correntes cujos elos são de papel
das cores encarnada e azul, de acordo com os "cordões" dessas cores em
que figuram as pastorinhas chefiadas, respectivamente, pela Mestra e pela Contramestra.
AS VOZES DOS ANIMAIS
Em volta do menino Jesus além das figuras da Virgem Maria, de São José, dos Reis Magos
e dos pastores, estão o galo que, à meia-noite, anunciou cantando: "Cristo
nasceu!" Perto da manjedoura se vê o boizinho que perguntou: "Aonde?"
E o carneiro que respondeu logo: "Em Belém." O pato duvidou
gargalhando: "Quá quá quá quá
" E o porco não gostou, dizendo
que isto era "ruim ruim ruim
"
Finalmente o peru, inspirado, por certo, pelo bárbaro infanticida Herodes, bradava: -
"Degola! Degola! Degola!"
Por isso diz o povo, explicando essas estranhas onomatopéias, que o galo, o boi e
o carneiro são bichinhos abençoados, assim como o jumento que, sendo "muito
burro", não sabia falar, mas se prestou para levar Nossa Senhora e o Menino
Jesus na sua fuga para o Egito. Os outros bichos: o pato, o porco e o peru, são
amaldiçoados, e, por isso, como castigo, são "mortos na véspera" e
comidos no dia do Natal
A "ORQUESTRA" DOS PRESÉPIOS
Se é possível chamar "orquestra" a uma clarineta, um piston, um
trombone, ou bombardino, e um "baixo para fazer a marcação", os
presépios tinham também o seu conjunto orquestral, não se esquecendo o zabumba ou um
bumbo como bateria.
Nesses conjuntos, durante o fim do século passado e começo do atual, era figura
indispensável o seu Candinho baixo de ouro, velho músico popularíssimo naquela
época e que devia sua alcunha de "baixo de ouro" ao carinho com que
tratava o seu of-clyde, antigo instrumento de sopro, hoje em desuso, e que ele
trazia sempre reluzente como se fosse novo, de ouro.
Seu Candinho não precisava de "parte musical" para
acompanhar o canto das pastorinhas nas suas jornadas, loas e demais cânticos dos
presépios. Ele os sabia todos de cor, e, o que é ainda mais: os acompanhava em qualquer
tom no qual as pastoras entrassem cantando, sem combinação prévia com os músicos.
Quando algum dos colegas da orquestra não "pegava" logo o tom em que
as meninas começavam a cantar, seu Candinho dizia logo:
- É fá sutenido maior!
Ou então, se era tom menor, dizia:
- É mi bemol, rapaz!
E jamais se enganava. Sua arte estava, porém, nos contra-cantos, floreios
com que adornava as simples e até ingênuas melodias que as pastoras cantavam em uníssono, pois, apesar de ser um
conjunto de vinte ou mais figuras, não faziam, nem fazem ainda, creio eu, subdivisão
alguma de vozes. Seu Candinho cantava, no seu of-clyde, por todas elas,
improvisando as segundas vozes e os baixos.
A ALEGRIA DAS PASTORINHAS
Quando começa a função é visível a alegria das pastorinhas cantando a
primeira jornada em que dão alvíssaras a si mesmas, cantando e
se acompanhando, ao som de pandeiros
sem o couro, somente com o arco de folha de
flandres e enfeitados com fitas vermelhas e azuis, conforme a pastora seja do "cordão"
encarnado ou do azul:
As alvíssaras, ó pastoras
Haja festa neste dia,
Que hoje é nascido
Jesus, filho de Maria
Pastorinhas vamos à Belém
Que lá é nascido
Jesus, nosso Bem
Que lá é nascido
Jesus, nosso Bem
Não tarda a aparecer o velho, no meio das pastoras, alegrando o folguedo,
não apenas pela sua figura exótica, arrimado a um cajado ou bordão, como também pelos seus
ditos chistosos, ora para com o público, ora para com as próprias pastoras, o que as fez
cantarem reclamando:
Tenha modos, senhor Velho
O senhor é incapai!
Deixe a gente sossegada,
Olhai! Olhai! Olhai!
(o povo, no seu linguajar, abranda o final em az das palavras para ai, dizendo incapai,
atrai, rapai, em ves de incapaz, atrás, rapaz, etc.)
Após várias noites de cantoria e dançarolas em frente à lapinha,
chega a noite do queima, na qual, terminadas as loas e demais cânticos, a lapinha
é levada, processionalmente, pelas ruas até o adro de uma igreja, na frente da qual são
as "palhinhas" queimadas. Geralmente o queima é feito na
véspera ou na noite de Reis, havendo alguns presépios que se prolongam, entretanto, por
todo o mês de janeiro e parte de fevereiro, somente queimando a lapinha nas proximidades
do carnaval.
A TRISTEZA DAS PASTORAS
Se é triste a partida das pastoras para o queima, ainda mais melancólica é sua
volta. A melodia que cantam é em tom menor, tanto na ida como no regresso, e dela
publicamos uma pequena amostra com os seguintes versos:
A nossa lapinha
Vai se queimar
Em brasas de fogo
Se vai transformar
Os partidários do cordão encarnado e do azul acompanham o cortejo das pastoras,
aplaudindo-as, dando-lhe vivas e sempre com o maior entusiasmo.
Queimada a lapinha, regressam todos à casa, ou ao terreiro da casa onde se faz o
presépio, cantando as pastoras, com voz soluçante e entre lágrimas, esta despedida:
A nossa lapinha
Já se queimou
Inté para o ano
Se nóis vivas fô
Aqui a gramática é sacrificada à rima, pois em lugar de dizerem "se nós vivas
formos", cantam, com toda alma, "se nóis vivas fô".
Santa simplicidade e ignorância das pastorinhas, felizes por prestarem sua espontânea
homenagem ao Menino Jesus que, depois de homem, prometeu aos simples e aos pobres de
espírito o reino dos Céus!
E seu Candinho, com a candidez dalma de que seu nome é o reflexo, sofre também,
com as pastorinhas, a saudade dos cânticos que elas cantavam e que ele acompanhava no seu
reluzente baixo de ouro:
Não choreis, pastoras belas
Pastorinhas, não choreis
Ele não merece o pranto
Foi tão barbo o nosso reis
(WANDERLEY, Eustórgio. Tipos populares do Recife antigo.
1ª série, 1953) |

Veja também:
- O baile das
pastorinhas de Piaçabucu, Alagoas. |