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CONCEIÇÃO DA PRAIA Quem desejar conhecer as grandes festas populares da Bahia as mais belas festas populares do Brasil que chegue a Salvador nos últimos dias de novembro e não tenha pressa de voltar. Vai conhecer todo um ciclo de festejos, em que a tradição ainda não morreu, a alma popular se expande com toda sua naturalidade e encontra um mundo dos mais ricos em pureza, em beleza, em poesia, em colorido. A cidade mais bela do Brasil sabe entregar-se ao seu povo, sabe com ele fundir-se num só organismo, tornar-se como um único ser, cheio da mais completa vitalidade, da mais graciosa e perfeita comunhão. Do último dia de novembro até oito de dezembro o dia da Santa temos a festa da Conceição da Praia. Logo após o Natal, Ano Bom, com a festa de Nosso Senhor dos Navegantes. E vem a seguir Reis, com os "ternos"; a festa do Bonfim, na "segunda dominga, depois da Epifania", com o esplendor da igreja aliado aos festejos profanos, indo da lavagem do templo até a "segunda-feira da Ribeira"; a 2 de fevereiro, festa de Iemanjá, em vários recantos do Recôncavo, mas culminando no Rio Vermelho. O Carnaval, a Semana Santa, assistindo antes uma pesca do Xaréu. É programa não somente para o viajante despreocupado, mas também para o estudioso, que aproveitará os largos intervalos para conhecer mais de perto com as intimidades noturnas de suas ruas desertas esta cidade, tão cheia de mistérios e sensualismo. Que não se perca um minuto da estrada na cidade mais cantada pelos poetas e compositores brasileiros. Há muita coisa que a Bahia tem e que não se mostra assim de primeira vista; também esta cidade gorda tem reservas para os eleitos, para os que não a desejam encontrar na primeira esquina, sorridente e fácil. Mas enquanto tal intimidade de amante não se verifica, melhor que o viajante venha à Conceição da Praia, conheça a admirável festa popular, como que cartão de visitas, sala de entrada, para outras festas que se seguem. Defronte da igreja soberba, amostra da tenacidade do homem da colônia, do português que se veio plasmar aos céus da Bahia, uma multidão, de dia e de noite, procura o interior do templo para suas orações mas também procura o seu pátio, suas redondezas, para suas expansões pagãs, onde muitas vezes não falta, porém, o apelo à santa popular do comércio da Bahia. Desde 30 de novembro até a data da celebração da Conceição, é este mesmo movimento, milhares de pessoas procurando suas diversões, irmanando-se nas mesmas alegrias, cantando os mesmos sambas, dançando as mesmas danças. "Que grandeza de igreja!" exclama o viajante admirado, ante a sua fachada majestosa, de cantaria, de pedras superpostas, brilhando ao sol, polidas não somente pela mão do homem, mas pela mão do tempo, do sol e da chuva que se abatem sobre elas como animais feridos. As suas torres, sua ampla fachada, estão dominando com imponência toda a área que se espraia ao redor. A fé e a tenacidade construíram um grande monumento à padroeira de Portugal e do Brasil e é maior a admiração quando se sabe que, pedra por pedra, já veio talhada do Reino, com seu lugar certo de ser colocada, assim como um gigantesco brinquedo de armar. Mas quando alguém disser que a Conceição da Praia foi a igreja que Tomé de Souza fez construir na Cidade Baixa, logo à sua chegada, e que auxiliou mesmo a sua construção, com seu próprio trabalho, carregando material com suas próprias mãos, não se pense que esta é a primitiva igreja de 1549. Só o local. O primeiro governador fez erigir e ajudou a erigir uma pequena igreja de taipa, para que os marinheiros, os comerciantes que freqüentavam o porto da nova cidade, pudessem ali fazer suas preces à Nossa Senhora da Conceição, padroeira do Reino. A imagem ele próprio trouxera no seu navio e conta um dos seus cronistas que logo aumentara o bairro de tal maneira, com o movimento incessante do porto, com o progresso da cidade, a se transformar na maior e mais luxuosa de toda a Colônia, que, no século seguinte, teria a igrejinha de taipa de ser demolida para dar lugar a outra de tijolo, que foi a segunda igreja de Conceição da Praia. Já a grandeza do porto, do seu movimento de cidade rica e próspera, capital da Colônia, se mostrava nas ofertas recebidas pela Conceição. E o cônego Manuel Barbosa, seu atual pároco, diz que "os vários altares, as imagens tradicionais, as preciosas grades de jacarandá, a prataria reluzente, tudo, enfim, que atestava a dedicação, o gosto artístico e a fé dos paroquianos daqueles tempos testemunhavam e em parte ainda testemunham em nossos dias o que foi o segundo templo, verdadeira fortaleza de fé levantada junto ao porto do desembarque." A cidade crescia e crescia também o seu esplendor, seu luxo, de cidade católica, com o barroco do São Francisco espantando o mundo inteiro, como ainda hoje espanta. E diz o cônego Barbosa que "não se concebia que o templo da padroeira de Portugal e seus domínios não rivalizassse com os melhores da cidade. O que é certo é que se levou avante o projeto da construção de nova igreja no mesmo local. E ao apelo do vigário da freguesia, Custódio Rodrigues Landim, acorreram todos os comerciantes, os homens abastados da terra, os que já tinham a padroeira do reino como a sua própria padroeira". E para o exato cumprimento do risco, contratou-se em Portugal o mestre pedreiro, arquiteto Eugênio da Mota que, além de noventa e seis mil réis para as despesas de sua vinda e outra igual quantia para o regresso, percebia mil e duzentos réis por cada dia de trabalho. Do mesmo modo se fez com o mestre Manuel Vicente para lavrar e remeter toda a pedra necessária, a qual deveria ser preparada em Passos Darcos, nos arrabaldes de Lisboa. Com dificuldades e canseiras de toda ordem, tal a magnitude do projeto, querendo-se levantar um monumental edifício, na beira da praia, quando se sabe que no local do pátio da igreja vinha até pouco tempo dar as águas do mar o certo é que somente em 1765, fez-se a transferência da sede da freguesia que estava provisoriamente no Corpo Santo para a nova igreja, ainda inacabada, o que afinal se deu sete anos depois, em 1772. Esta é, em síntese, a história da igreja da Conceição da Praia. E saiba o curioso que sua devoção continua praticamente nas mãos dos comerciantes, continua sendo a padroeira do comércio, a santa suprema da Cidade Baixa. Estas pedras superpostas têm assim cada uma sua história história de um esforço árduo, de dificuldades enormes que eram transpostas, histórias que de tão verdadeiras, tão humanas, tomaram o rumo das lendas. Histórias de navios naufragando com suas cargas de pedras de cantaria para a igreja da Conceição, indo para o fundo do mar, certamente para a construção do reino de Iemanjá, como o cronista lírico já sugeriu, pois que é Iemanjá senão uma Nossa Senhora dos católicos? Este povo que vimos em frente da grande igreja tem sua maneira própria de sentir, de palpitar na sua fé, de comemorar os seus santos católicos ou africanos, é uma gente que plasma o seu sentido de vida, que se orienta pela força vital que nasce, que se propaga por todos os recantos desta cidade mágica e misteriosa. Portanto, quando se comemora a Conceição da Praia, repitamos, abre-se um ciclo de grandes festas populares. Encerram-se as solenidades religiosas, com a pompa e a grandeza da liturgia católica e cá fora o povo se expande nos seus festejos. E se no Bonfim, é o colorido da lavagem da igreja e do carnaval da Ribeira as suas características mais definidas, o Reis tem os ternos, Rio Vermelho a procissão de Iemanjá, Ano Bom a procissão de Nosso Senhor dos Navegantes, Conceição da Praia é a festa da grande padroeira, e também a festa da comida baiana, ali chegando às suas culminâncias, atingindo o seu esplendor, a sua majestade que não cai, que sofre as cicatrizes do tempo, ali se restaura, alcança a mesma plenitude das grandes e misteriosas noites dos candomblés. É o império do azeite de dendê, da pimenta, do camarão. E nestas filas de barracas, com seus nomes os mais belos, desde Tudo com Deus, O que é que a baiana tem, Barraca Vitória, Recreios São Jerônimo, até o africano Cosi odé canifá olorum estas filas de barracas de amplas cortinas de linho, com os mais deliciosos bordados, enfeitadas com palmeiras e folhas de coqueiros, com suas alvas e imaculadas toalhas de mesas coletivas todas estas barracas são como que cada uma delas um templo à cozinha afro-brasileira. É o caruru, com as suas múltiplas variedades; é o vatapá que a cada hora, a cada instante, é profanado em restaurantes de outras terras, mas que na Conceição da Praia é esta maravilha de gosto e de cor; é o acarajé, dourando-se ao calor do óleo fervente; é a galinha de xinxim; é o abará; é o efó e que sabemos mais de tantos nomes, de tantos gostos, de tantos coloridos desta cozinha rica e tão marcante da personalidade de um povo acentuando como uma característica de quem as tem tão definidas pelo que a vida tem de mais bela e digna de ser vivida? Que se sabe da Conceição da Praia se não se senta alguém numa destas mesas da barraca de Maria de São Pedro o gênio negro da nossa cozinha e não se saboreia uma das suas obras primas? É só escolher. Não há cartas nem menus: está a tabuleta com os nomes das mais saborosas comidas, um poema em poucas palavras, um mundo de riquezas em cinco linhas. Dois dedos de saborosa cachaça do Recôncavo, abrem não somente o apetite, mas também um mundo de sugestões sobre esta imensa riqueza que não nos arrebata apenas o sentido do gosto, mas todos eles, fazendo com que tenhamos não somente o sabor mas as cores, os perfumes misteriosos que sobem aos ares, a tentação de passar os dedos sobre esta colina de veludo dourado que é um prato de vatapá. E diante de tão belo conjunto de uma mesa rica de todas as iguarias dos negros baianos, como que se ouve uma música misteriosa, música de um canto que parece palpitar nestas terrinas como que cheias de vida, como que ainda trazendo no seu bojo as canções das geniais cozinheiras que as prepararam, com inspiração e inteligência. Mas tal característica gastronômica da festa da Conceição da Praia não se limita apenas ao império do dendê. É que os mundos da padroeira estendem-se ao Mercado Modelo e sua famosa Rampa. Toda a zona é envolvida pelos festejos, tudo fica sob a influência da grande festa e transforma-se num só pátio. Então as saborosas frutas da terra, expostas na Rampa, tornam-se o refrigério delicioso das tardes e das noites quentes de dezembro. E vemos os bandos de jovens com suas talhadas vermelhas de melancias, ricas melancias, as doces laranjas do Cabula e as grandes e pré-históricas jacas de Mar Grande. Por toda parte, as pilhas de frutas que desaparecem ante a gula dos festeiros, como que amenizando os ardores da malagueta e do dendê. E logo após, cai-se no samba que as rodas são muitas, ali os compositores populares lançam suas últimas produções que talvez nem apareçam no Jornal de Modinhas.. Mas ninguém pode com a denguice da música aliada à malícia da letra. E a mulata impera na roda, mostra a gostosura de seu belo corpo que a Conceição lhe deu para que ela fosse a doidice e o encanto dos saveiristas, dos pescadores, dos marujos que ali estão nos seus famosos dias. E se de fato, se deseja mesmo conhecer de perto o samba em toda a sua grandeza, que não estas ilhas de rodas de samba por toda a parte da festa, que se consiga entrar na pequena dependência do Mercado Modelo, onde se faz a vendagem do peixe. Ali sim; queixas, ciúmes, alegrias, soberba, orgulho, vaidade tudo é cantado na riqueza da música popular. Ali talvez a cachaça já tenha feito seus estragos, talvez que alguma rusga possa perturbar por um momento o entusiasmo da festa. Mas tudo passa e a orquestra bate grosso o samba, uma voz se levanta mais forte, a poeira sobe dos pés dos dançarinos. E se o ambiente torna-se sufocante, saia-se um pouco e procure-se chegar a estas rodas que em torno da festa se formam. A música ali não tem o colorido, a força da música das rodas de samba. Tudo é um pouco monótono, instrumento estranho dominando os outros; o berimbau comanda a capoeira, dança ou luta que sobrevive na velha Bahia. São os alunos do ortodoxo Juvenal ou do eclético Bimba, os mestres da capoeira baiana. São os próprios mestres, em desafio aos seus discípulos mais chegados. A capoeira sempre teve seu ambiente festeiro na Conceição da Praia. Pode-se em qualquer recanto reservado de outras festas, se encontrar rodas de capoeira, mas na Conceição, é uma das suas fortes características. E esta aí esta cantiga, que bem define a perfeita identidade da capoeira com a festa da Conceição: Eu estava na minha casa Quando a corneta tocou Abram alas minha gente Que o mestre já chegou Capoeira da Bahia Não foi feita pra mim só Valha-me Senhor do Bonfim! Valha-me Nossa Senhora Imaculada Conceição! Prevalece uma amizade Do que dinheiro na mão E neste ambiente dominado pela massa imponente da igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, o povo, durante nove dias, renova-se na sua veneração à padroeira do comércio, renova-se também durante nove noites, neste mundo mágico da capoeira, do samba, da cozinha, do esplendor da cozinha baiana. (TAVARES, Odorico. Bahia; imagens da terra e do povo. 1951) |
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