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O CEGO
(Sergipe)
- Sou um pobre cego
Que ando sozinho,
Pedindo uma esmola
Sem errar o caminho
Aqui está um cego,
Pedindo uma esmola,
Devotos de Deus
E de Nossa Senhora
"Minha mãe acorde
Do seu bom dormir,
Que aqui está um cego
A cantar e pedir"
- "Se ele canta e pede,
Dá-lhe pão e vinho,
Para o pobre cego,
Seguir seu caminho"
- Não quero seu pão,
Nem também seu vinho;
Só quero que Aninha
Me ensine o caminho
- "Ana, larga a roca,
E também o linho;
Vai com o pobre cego
Lhe ensina o caminho"
"Já larguei a roca,
E também o linho;
Já me vou com o cego
Ensinar o caminho
O caminho aí vai
Mui bem direitinho,
Se fique aí,
Vou fiar meu linho"
- Calminha, menina,
Mais um bocadinho;
Sou cego da vista,
Não vejo o caminho
"Caminhe, senhor cego,
Que isto é bem tardar;
Quero ir-me embora,
Quero ir-me deitar"
- Aperta as passadas
Mais um bocadinho,
Sou cego da vista,
Não vejo o caminho.
"Adeus, minha casa,
Adeus, minha terra,
Adeus, minha mãe,
Que tão falsa me era"
- Adeus, minha pátria,
Adeus, gente boa;
Adeus, minha mãe,
Que me vou à toa
Valha-me Deus
E Santa Maria,
Que eu nunca vi cego
De cavalaria"
- Se eu me fiz cego
Foi porque te queria;
Sou filho de conde,
Tenho bizarria
Cala-te, menina
Deixa de chorar;
Tu inda não sabes
O que vais gozar
- "Deus lhe dê bons dias,
Senhora vizinha,
Esta meia noite
Me fugiu Aninha"
- "Deus lhe dê os mesmos!
De cara mui feia,
Três filhas que tenho
Vou pô-las na peia" |
XÁCARA DO CEGO
(Ceará)
- Sinhá da casa
Venha ver seu pobre;
Nem por vir pedri
Deixo de ser nobre
"Não pode ser nobre
Quem vem cá pedir;
Não há que lhe dar
Já pode seguir"
- Não useis comigo
Tanta ingratidão,
Deste pobre cego
Tende compaixão
"Eu não sou dona,
Nem governo nada,
A dona da casa
Ainda está deitada"
- Se está deitada
Ide-a chamar
Que o pobre cego
Lhe quer falar
"Acordai, senhora,
Do doce dormir;
Vinde ver o cego
Cantar e pedir"
- "Si ele canta e pede
Dá-lhe pão e vinho,
Para o pobre cego
Seguir seu caminho
Larga, Aninha, a roca
E também o linho:
Vai ensinar o cego
Seguir seu caminho
"Aqui fica a roca,
Acabou o linho;
Marchai adiante, cego,
Lá vai o caminho".
Anda, anda, Aninha
Mais um bocadinho;
Sou curto da vista,
Não enxergo o caminho
"De conde e fidalgo
Me vi pretendida,
Hoje de um cego
Me vejo rendida"
- Cala-te, condessa
Prenda tão querida,
Eu sou este conde
Que te pretendia
"Cala-te, conde,
Não diga mais nada;
Só quero saiamos
Daqui desta estrada
Infinitas graças
Vos dou, meu senhor,
Já ter vencido
Um cruel amor.
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