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NOS SERTÕES

Nos sertões do Ceará não escasseiam as superstições relativas ao prognóstico do inverno, preocupação latente dos cearenses. Chamam-se experiências os fatos ou motivos em que se baseiam tais prognósticos.

Em São Benedito, sobre a terra de Ibiapaba, havia um desses profetas de chuva. Ele costumava fazer novenas a Santa Luzia e do que sonhasse nas respectivas nove noites deduzia se o ano próximo seria ou não de seca. O Juiz de Direito, doutor Apolônio de Barros guardou, em 1920, a seguinte profecia, que, respeitada a redação, transcrevo em ortografia menos ininteligível:

"PROGNOSTICAÇÃO PARA MDCDXXI
VIVA SANTA LUZIA!
13 de dezembro de 1920

1ª novena: sonhei com relâmpagos no nascente e trovão no poente… eu vendo a imagem do Senhor tirada da cruz e eu prometendo retocar de tinta.

2ª novena: sonhei que estava fazendo uma ponte num braço de rio, esperando a cheia quando chovesse.

3ª novena: sonhei lendo o Evangelho, com ordem do bispo.

4ª novena: sonhei sonhos variados.

5ª novena: sonhei que se descobria na terra a osseira dos mortos que há muito tinham morrido.

6ª novena: tornei a sonhar sonhos variados.

novena: sonhei vendo um homem voandoAnúncio publicado em Fon Fon, 26/12/1931 nas asas de um urubu e outro homem atirou no tal urubu e matou só o urubu e não o homem… e eu vendo a hora que o homem morria também se o urubu caísse, mas Nossa Senhora das Graças suspendeu a morte, dando de novo vida ao urubu, até ele cair no chão e o homem se salvar milagrosamente.

8ª novena: sonhei com a terra muito molhada e eu assando milho debaixo dumas fruteiras com grande carrego.

9ª novena: sonhei com muito estrume num curral e eu tirando leite com os pés atolados em lama e estrume.

SOMA: temos inverno, e não é pouco"

Efetivamente, foi excelente o inverno de 1821.

(MOTA, Leonardo. Violeiros do norte)


O ORGULHO DO BURRO

Tendo pintado Dão Francisco Goya
Um burro pertencente à sua tia
Pintou-o com tamanha maestria
Que o quadro burrical era uma jóia

Um célebre amador, famoso e rico
Vinte contos de réis por ele dava,
Mas o grande pintor necessitava
Desse estudo bem feito de um burrico,
e, por isso, a vendê-lo se negava

Mas, afinal, o burro ouvindo um dia
O amador e o pintor fechar o trato
Exclamou, relinchando de alegria:

- Se tal quantia dá por meu retrato,
Por mim, que sou o burro original,
Que colossal tesouro não daria!


(Catulo da Paixão Cearense. Fábulas e alegorias)

Presépio de Barro
(poema de Oliveira Ribeiro Neto, inspirado nas cerâmicas do mercado de Taubaté, SP)

Do céu lavado e da paineira em flor
Vieram o azul e o cor de rosa
Destes anjos de barro. E é tão fina
E suave a pintura que eu não sei
Se é o próprio sol que lhes colore as asas
Ou se eles voaram pela madrugada
Para dourar o sol com purpurina

Um carrega uma trompa, outro um violino;
Outro exibe orgulhoso um pergaminho
Com desenhos bonitos de palavras
Que não têm letras que se possam ler,
Mas contém a mensagem de ternura
De quem quis e não sou e não pode escrever

A Virgem Santa reza. São José contempla
E diante dos anjos o menino louro
E nu como a inocência, que deve ser Jesus,
Adivinha a sorrir as garatujas de ouro
E soletrando AMOR, como um predestinado
Abre os braços em cruz.

(In Intercâmbio; economia e cultura. 1956)

 

alpreg.gif (2704 bytes)

Um verdureiro anunciando sua mercadoria, no bairro do Pari (SP) em 1952:

Verdureiro, verdureiro,
Olha o tomate o pimentão,
Venham todos comprar
Mas fiado eu não vendo não.

 

alditos.gif (3323 bytes)

• Onde o ouro fala, tudo cala
• No fim é que se cantam as glórias
• A necessidade ensina a lebre a correr
• Quando a barriga está cheia, toda goiaba tem bicho
• Quem tudo quer saber, mexirico quer fazer
• Mais vale almoçar e jantar bem do que passar sem ceia
• Para se encontrar com o diabo não carece ter pressa
• Praga de urubu não mata cavalo magro
• O que é de gosto, regala a vida
• No frigir dos ovos é que a manteiga chia.

 

alestra.gif (3134 bytes)

• Sua pressa pode apagar um sorriso
• Não me acompanhe que não sou novela
• Se homem fosse dinheiro, baixinho seria troco
• Olhe para as curvas, mas mantenha a sua direita
• Saiba ir, para poder voltar
• Não sou Sílvio Santos, mas vivo do baú
• A calúnia é como o carvão, quando não queima, suja
• Motorista irritado, perigo dobrado
• Se Brasília fosse boa, Niemeyer morava nela
• Castigo da bigamia: duas sogras

Anúncio publicado em Fon Fon, 26/12/1931

Os animais na boca do povo: BURRO

Ilustração de Percy Lau em Tipos e Aspectos do Brasil, 1949Pessoa ignorante, atrasada, analfabeta.
Cavalo de pau que prende a madeira diante do serrote.
Livro traduzido ao lado do texto original, antigamente usado pelos estudantes.
Número 03 no jogo do bicho.
Tipo de jogo de baralho.
Pequeno motor.
Prensa de mandioca.
Aparelho de torcer fumo em corda.

• Burro: cofre.
• Emburrado: zangado, calado.
• Burrada: ato de "burro" .
• Burrice: mesmo significado anterior.
• Orelha de burro: atrasado, semi-analfabeto.
• Burrinha: figura do Bumba-Meu-Boi.
• Burrica: gangorra.
• Burro de cangalha: homem que trabalha demais, sem reconhecimento.
• Sustenta o burro a pão-de-ló: trata bem gente ruim.
• Burra de padre: mulher esquisita ou amante de padre.
• Cabeça de burro: teimoso.
• Burro de carroça: pessoa explorada no trabalho.
• Rabo de burro: sujeito desclassificado, atrevido.

• Encher a burra de lã: enriquecer.
• Pra burro: em demasia.
• Carro adiante dos burros: o mesmo significado de carro adiante dos bois
• Burra escancarada: mão aberta, perdulário.
• Burro no telhado: coisa difícil.
• Cu de burro: estudante muito dedicado aos livros, também se chama cu de ferro
• Burro sem rabo: carroça manual.
• Caveira de burro: caiporismo, azar, atraso.
• Pai dos burros: dicionário.
• Pé de burro: ponta de cigarro.
• Chá de burro: munguzá.
• Burro como uma porta: cretino
• Cor de burro quando foge: cor indefinida
• Viver como burro: mal humorado, trabalhando muito
• Para trás mija o burro: diz-se de quem fica atrás vendo o jogo de baralho.
• Até lá morre o burro: dúvida quanto ao cumprimento de promessa ou compromisso a longo prazo.
• Dar com os burros n’água: fracassar.
• Queixada de burro: pessoa de queixo e dentes grandes.
• Coice da burra: modalidade de furto.
• Burro de carga: quem faz o seu trabalho e o trabalho dos outros.
• Mata-burro: fosso ou espécie de ponte que impede a passagem de animais.
• Enfeitada como uma burra-madrinha: mulher enfeitada como a burra que antigamente ia à frente da tropa.
• Fazer orelha de burro: dobrar a ponta da folha dos livros, para marcar páginas interrompidas.

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