Jangada Brasil, nº 4, dezembro de 1998: Panacéia – Experiência de Santa Luzia

EXPERIÊNCIA DE SANTA LUZIA

A Manuel Rodrigues de Melo

“Acho muito interessante pela originalidade, e por ninguém saber em que se baseia, a Experiência de Santa Luzia a que o sertanejo liga muita atenção. Todos a conhecemos: consiste em colocar na noite de 12 de dezembro, véspera de Santa Luzia, em um prato, seis pedrinhas de sal, e expô-las ao sereno; as pedrinhas serão dispostas em uma certa ordem: a primeira representa janeiro, a segunda fevereiro, a terceira março, a quarta abril, e assim por diante. Ao amanhecer o dia 13, antes do sol, vai-se examinar o estado das pedrinhas de sal, que devem ter passado a noite expostas ao relento; aquelas que estiverem umedecidas indicam inverno, mais ou menos intenso, segundo o estado de umidade da pedrinha, no mês que representa. Se houver alguma derretida, indica invernão, inundações, no mês correspondente… Se as pedrinhas apresentarem-se secas, enxutas, conte com a seca.

As Experiências de Santa Luzia ainda estendem-se pelos dias seguintes: o dia 14 de dezembro apresentou sinais de chuva? Janeiro será chuvoso. Nada houve, nem relâmpago se viu? Janeiro será seco. E assim por diante; 15 representa fevereiro; 16 março, 17 abril, etc.”
(Felipe Guerra e Teófilo Guerra. Secas contra a seca. p. 9, Rio de Janeiro, 1909.)

Essa experiência de Santa Luzia, que os dois grandes conhecedores do sertão nordestino descreveram, é ainda na região um dogma com seus crentes e fiéis consulentes anuais. De Pernambuco ao Piauí, pelo interior, a Experiência de Santa Luzia reaparece em dezembro em centenas e centenas de provas teimosas.

O registo está na maioria dos nossos estudiosos do folcore, viagens e curiosidades meteorológicas.

A tradição nos veio de Portugal, conhecida por todo o país. O professor doutor J. A. Pires de Lima informou: – “As Têmporas de Santa Luzia. O povo do Minho acredita que, no fim do mês de dezembro, se pode fazer um prognóstico do estado do tempo no futuro ano. As Sortesou Têmporas de Santa Luzia tiram-se deste modo: – Verifica-se no dia 13 de dezembro qual o estado do tempo; assim como ele estiver, seco, úmido ou ventoso, assim correrá o mês de janeiro do ano seguinte. O estado meteorológico do dia 14 de dezembro anunciará o tempo de fevereiro, e assim por diante até o dia 24 de dezembro, cujo estado atmosférico indicará o mês de dezembro do novo ano. Esta superstição está muito arraigada ao povo do Minho. Conheço um proprietário que não se esquece de anotgar todos os anos o estado do tempo nas Têmporas de Santa Luzia. Por sinal que no último ano agrícola sofreu uma decepção muito grande, porque, fiado no prognóstico, orientou de tal modo a sementeira do milho, que teve considerável prejuízo. Não terá esta crença popular origem muçulmana? Na noite de 23 para 24 de Ramadam ficará determinado tudo quanto há de acontecer no ano seguinte (Alcorão, XLIV, 2, 3, nota-5; XCVII, 1-5 e nota-4) foi nessa noite, chamada de Alkadr, que o Alcorão foi revelado a Maomé. Na noite de Alkadr e os anjos e o Espírito (Gabriel) descem ao mundo com permissão de Deus, a fim de regular todas as coisas. Reina a paz nesta noite até romper da aurora”.
(Tradições populares de Entre-Douro-e-Minho, p. 73-74, Barcelos, 1938)

Noutras regiões portuguesas diz-se às Têmporas de Santa Luzia arremedar, indo de 13 a 24 de dezembro, de Santa Luzia ao Natal, doze dias valendo os doze meses do futuro ano. Usa-se então o desarremedar, procurar a confirmação do prognóstico noutra tabela, imediatamente seguida. Contam de 25 de dezembro a 5 de janeiro, doze dias valendo os doze meses. 25 desarremeda o dia 13 de dezembro, , 26 desarremeda o 14, 27 desarremeda o 15, e estão como os outros próximos meses de janeiro, fevereiro, março, etc. Se coincidir o tempo será como apareceu o dia 13. Se 13 foi úmido e 25 seco, valerá o tempo seco, a desarremeda vale em vez do arremeda.

“As arremedas não impedem que o homem faça outras previsões, dentro de cada mês. Por exemplo:

– Assim como quinta pinta,
Assim pinta trinta

Isto é: assim como o dia 5, estiver ou pintar, da mesma forma será o dia trinta; o mês vai igual até o fim, e será em 30 como for em 5. Ou pondo em linguagem e forma correntes: Assim como estiver (pintar) o quinto dia, assim estarão os outros dias até o dia 30. Esta regra tem também, como as arremedas, a sua contra-prova: o mês dá o seu cariz a 5, mas, quando mudar (desquintar) aos 9, já o dia 30 não corresponde ao dia 5.

– Onde quinta, daí trinta
Se aos nove não desquinta

(Luiz Chaves. Páginas folclóricas. p. 32. Porto, 1942)

Em Espanha, as têmporas são denominadas Cabañuelas e vieram para os países de língua castelhana na América.

Em Porto Rico, Dona Maria Cadilla de Martínez, informa da existência de várias Cabañuelas, todas constituindo formas prognosticais do tempo. Uma dessas Cabañuelas é a Experiência de Santa Luzia nordestina brasileira. Escreveu Dona Maria Cadilla de Martínez:

En la vispera del nuevo año, treinta e uno de deciembre, los jíbaros toman una tabla de madera bien seca sobre la cual, en ordens consecutivo, colocan doce granos de sal que dejan durante esa noche al sereno. A la mañana singuinte lo examinan uno a uno, anotando sus apariencias. Dicen encontrar algunos secos, otros húmedos y otros mojados de lo cual concluyen que, de igual manera será la temperatura de los meses que, por turno, corresponden a ellos. Al poner dichos granos de sal al sereno dicen:

– Doce granitos la noche tenía
Que los meses cuentan y también los dias

El primero de enero de cada año empiezan a anotar las variaciones del tiempo durante ese y los siguientes dias pues afirman que ellos regulan los fenómenos atmosféricos del tiempo futuro: lluvia, calor, etc. y durante todo el año. El dia primero de enero, en virtud de tal procedimiento, será igual al mes de enero del mismo año; el dia dos, al mes de frebrero del año, y asi sucesivamente hasta el doce de enero que corresponde a diciembre. Después empiezan las cabañuelas que ellos llaman de ‘vuelta’ o de retorno. Las cuantan empezando el trece de enero para rectificar las observaciones anteriores y de modo inverso. Es decir que, el dia trece de enero rectificará al mes de diciembre del año en augurio y el catorce, a noviembre del mismo; el quince, a octubre y así sucesivamente hasta que el veinte y cuatro corresponda a enero.”
(Costumbres y tradicionalismos de mi terra. p. 8-9. Puerto Rico, 1938)

Um meteorologista de Madri, dom José Maria Llorente escreveu para a minha ilustre amiga dona Maria Cadilla de Martínez opinando pela origem judaica das Cabañuelas. Seriam originárias da Festa dos Tabernáculos, celebrada ao ar livre, nas sinagogas, ao começar da semeadura e findar da colheita. O prognóstico se fazia para o ano seguinte. Em Talavera de la Reina, Toledo, há a ermida de Nuestra Señora del Prado com romarias em agosto em favor das colheitas, reminiscência do reito cristianizado. Essa festa diz-se Las Cabañuelas. No Levante, Andalucía, Castilha, Ilhas Baleares praticam as Cabañuelas que nesse último ponto se chamam Dies de Santa Lucía. “En algumas partes de España hacen los cálculos a partir del primer dia de la luna en agosto o en enero; pero esto último es rarísimo. Hay sitios en que se comienzan a contar las cabañuelas a partir del dia de Santa Lucía, o sea, desde el 12 de diciembre… De esa manera las verdaderas cabañuelas terminan el dia de Nochebuena, empezando las de retorno en el dia de Natividad
(opus cit. 17)

O professor Joaquim Alberto Pires de Lima julga as Têmporas de Santa Luzia uma reminiscência ampliada do Alkadr muçulmana. O professor Llorente decide-se pela Festa dos Tabernáculos, Scenopegia. A festa realiza-se no mês Tischri, setembro-outubro do ano sagrado dos judeus, quando é o sétimo mês. Nesse Tischri, depois da colheita, inicia-se a semana votiva que está regulada no Levítico, XXIII, 39-43. Durante sete dias suspendem-se todos os trabalhos servis, havendo refeições copiosas e os judeus habitam em tendas ou cabanas de folhagens. “Sete dias habitareis debaixo de tabernáculos: todos os naturais de Israel habitarão em tabernáculos: Para que saibam as vossas gerações, que eu fiz habitar os filhos de Israel em tabernáculos, quando os tirei da terra do Egito” (Levítico, XXIII, 42-43). Tabernáculo quer justamente dizer barraca, pavilhão rústico, cabana, tenda.

O prognóstico era tirado da direção da coluna de fumo do altar dos sacrifícios. Franz Michel William (Vida de Jesus. Trad. de frei João José P. da Costa, ofm, 1939) informa sobre o último dia da festa dos tabernáculos: “Este dia, conforme o modo de ver popular, era o dia em que se ia decidir a sorte do ano seguinte: felicidades ou desgraças. Queria a tradição que se considerasse a nuvem de fumaça do altar do holocausto. Se ela se inclinasse para o norte, isto é, se o vento vinha do sul, significava um ano de chuvas e próspero, se, porém, o vento procedia do norte, poder-se-ia esperar tempos secos e maus. Se ela pendesse para o oriente era o sinal de uma colheita normal; mas se ao contrário pendesse para o ocidente, o vento procedente do deserto indicava que sobreviriam a seca e a fome“.

Certamente o fenômeno da condensação aquosa sugerira ao homem primitvo a possibilidade de consultas sobrenaturais. Gedeão expôs um velo na eira, ao relento. Se amanhecesse úmido era indício da proteção de Jeová e poderia enfrentar os Midianitas. O velo amanheceu tão molhado que Gedeão espremeu dele uma taça de água. É o registo bíblico em Juízes, VI, 37-38.

O processo dos prognósticos ocorre ainda na Bretanha francesa. No Almanach des traditions populaires (Paris, 1883, p.3) cita-se o Kompod Brezounek, o calendário bretão, organizado por M. L. Sauvé. No mês de Gwenvem, janeiro, os doze primeiros dias são jours mâles d’aprés lesqueles on peut savoir se le temps sera beau ou mauvais pendant chacun des mois de l’anée.

A reminiscência bíblica do derradeiro dia da festa dos Tabernáculos vive em Portugal, na consulta da direção dos ventos em determinados dias do ano.

No dia de São Vicente (22 de janeiro) vão espreitar os ventos ao alto de um monte, com uma lumieira de palha na mão à meia-noite. Conforme a chama se inclina, assim sabem donde vem o vento. Se vem de baixo, tomam mais um criado para a lavoura, porque há fartura no ano:

– Vento suão
Cria palha e grão

Se vem de cima, mandam embora um criado, porque há esterilidade e a lavoura custa menos. O vento norte não dá chuva, mas:

– Quando Deus queria
Do norte chovia

(Concelho de Famalicão); J. Leite de Vasconcelos, Tradições populares de Portugal, p.  38, Porto, 1882. “Pude então saber… que à meia-noite do dia 22 de dezembro (dia de São Vicente, deve ser engano no mês que é janeiro), se os ventos ficam do lado poente (ventos de baixo), temos, segundo se crê, um ano de chuva e, portanto, uma colheita farta. Se ficam do lado norte, o ano será seco e fraco“, Alexandre Lima Carneiro. ‘Previsões do tempo’, in Douro litoral. Segunda série, I, 55, Porto, 1944.

Identicamente à Experiência de Santa Luzia no nordeste do Brasil, o doutor Alexandre Lima Carneiro registou nos arredores do Porto, em Portugal (opus cit, 56): “Em cima de uma mesa colocam-se, na noite de 31 de dezembro para o dia primeiro de janeiro, doze cascos (escamas) de cebola com a concavidade voltada para cima, e dentro de cada um dos cascos deita-se uma pitada de sal de cozinha. Cada um dos cascos representa um mês do ano: – janeiro, fevereiro, março, etc. No dia seguinte vê-se quais são as escamas onde o sal se liquefez. Estas representam os meses de chuva do ano. As escamas que se mantiveram com o sal cristalizado dizem respeito aos meses secos“.

Havendo essa tradição em Portugal e Espanha era lógico que se passasse para a América Latina. Julio Vicuña Ciguentes regista no Chile: “Para saber cuál será el estado atmosférico en los doce meses del año que comienza, hay que fizarse como se presenta en los doce primeros dias de enero, pues cada uno de estos doce dias tiene relación, respectivamente, con cada uno de los doce meses. Esto es lo que se conece, así en España y Mexico, con el nombre de cabañuelas. En Minho (Portugal) se dice temporas”. Compárese: Academia Española, Dicionario, art. Cabañuela, segunda cep. – Garcia Icazbalceta, Vocabulario de mexicanismos, art. Cabañuela: Cunha Brito, Etnografia Monhota, en la Revista Lusitana, XV, 307; Chesnaye, Croyances et supers. De Noen, en la Rev. des Trad. Pop., XXV, 441; Fra Deuni, Dictions et croyance pop. De Guipel, en la Rev. des Trad. Pop. XXVI; Plat y Peabody, Folklore de la France Méridionale, en la Rev, des Trad. Pop. XXVIII, 459, num. 56, Mitos y Supersticiones, estudios del folklore Chileno recogidos de la tradicion oral, 236, tercera edición, Santiago, Chile, 1947.

(CASCUDO, Luís da Câmara. Superstição no Brasil)

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