Jangada Brasil, nº 4, dezembro de 1998: Almanaque 4/4

 

(Geraldo Pereira)

Bento fez anos
E para almoçar me convidou
Me disse que ia matar um cabrito
Onde tem cabrito eu tou
E quando o comes e bebe começou
No melhor da cabritada
A polícia e o dono do bicho chegou
Puseram a gente sem culpa
No carro da rádio-patrulha e levaram
Levaram também o cabrito
E toda bebida que tinha, quebraram
Seu comissário, zangado
Não tava querendo ninguém despensar
O patrão da sebastiana
É que foi ao distrito
E mandou me soltar

Bento fez anos
E para almoçar me convidou
Oi, me disse que ia matar um cabrito
Onde tem cabrito eu vou, ora se vou
E quando o comes e bebe começou
No melhor da cabritada
A polícia e o dono do bicho chegou
Puseram a gente sem culpa
No carro da rádio-patrulha e levaram
Levaram também o coitado do cabrito
E toda bebida quebraram
Seu comissário, zangado
Não estava querendo ninguém dispensar
O patrão da Sebastiana
É que foi ao distrito
E mandou me soltar

(Vadico/Noel Rosa)

Quem acha,
Vive se perdendo
Por isso agora eu vou
Me defendendo
Da dor tão cruel
De uma saudade
Que por infelicidade
Meu pobre peito invade
Batuque é um privilégio
Ninguém aprende samba
No colégio
Sambar é chorar de alegria
É sorrir de nostalgia
Dentro da melodia
Por isso agora
Lá pra Penha vou mandar
Minha morena
Pra cantar com satisfação
E com harmonia
Essa triste melodia
Que é o meu samba
Em feitio de oração
O samba, na realidade
Não vem do morro nem lá da cidade
E quem suportar uma paixão
Sentirá que o samba, então
Nasce no coração

(Arlindo Marques/Roberto Roberti)

Abre a janela,
Formosa mulher
E vem dizer adeus a quem te adora
Apesar de te amar
Como sempre amei
Na hora da orgia eu vou embora
Abre a janela…

Vou partir e tu tens que me dar perdão
Porque fica contigo o meu coração
Podes crer que acabando a orgia
Voltarei para a tua companhia
Abre a janela…

(Noel Rosa)

Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do Céu!
Que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém
Só quer mostrar que faz samba, também
Fazer poemas lá na Vila é um brinquedo
Ao som do samba, dança até o arvoredo
Eu já chamei você pra ver
Você não viu porque não quis
Quem é você que não sabe o que diz?
Quem é você que não sabe o que diz?…
A vila é uma cidade independente
Que tira samba mas não quer tirar patente
Pra que ligar a quem não sabe
Aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?

(Lupicínio Rodrigues/Felisberto Martins)

Se acaso você chegasse
No meu chatô e encontrasse
Aquela mulher que você gostou
Será que tinha coragem
De trocar nossa amizade
Por ela que já lhe abandonou?

Se acaso você chegasse…

Eu falo porque esta dona
Já mora no meu barraco
À beira de um regato
E um bosque em flor
De dia me lava a roupa
De noite me beija a boca
E assim nós vamos
Vivendo de amor

Se acaso você chegasse…

(Sinhô)

Não se deve amar sem ser amado
É melhor morrer crucificado
Deus me livre das mulheres de hoje em dia
Desprezam um homem só por causa da orgia
Gosto que me enrosco de ouvir dizer
Que a parte mais fraca é a mulher
Mas o homem com toda a fortaleza
Desce da nobreza e faz o que ela quer
Dizem que a mulher é parte fraca
Nisso é que eu não posso acreditar
Entre beijos, abraços e carinhos
O homem não tendo é bem capaz de roubar
Gosto que me enrosco de ouvir dizer…

(Sinhô)

Foi, foi, foi o destino
Que nos quis indicar
A colombina para conosco brincar
Foi, foi, foi o destino…
Burucuntum
Isto dê no que der
Gozar a folia não é pra qualquer
Burucuntum
Venta lá, venta cá
Se há diferença, desmancha-se já

Nessa chula de amor
Que seduz a qualquer
E predomina o riso ideal da mulher
Nessa chula de amor…

Burucuntum…

(Assis Valente/Durval Maia)

Alegria pra cantar a batucada
As morenas vão sambar
Quem samba tem alegria
Minha gente era triste, amargurada
Inventou a batucada
Pra deixar de padecer
Salve o prazer, salve o prazer
Da tristeza não quero saber
A tristeza me faz padecer
Vou deixar a cruel nostalgia
Vou fazer batucada
De noite e de dia, vou cantar
Alegria pra cantar a batucada
As morenas vão sambar
Quem samba tem alegria
Minha gente era triste, amargurada
Inventou a batucada
Pra deixar de padecer
Salve o prazer, salve o prazer
Esperando a felicidade
Para ver se eu vou melhorar
Vou cantando, fingindo alegria
Para a humanidade
Não me ver chorar
Alegria pra cantar a batucada
As morenas vão sambar
Quem samba tem alegria
Minha gente era triste, amargurada
Inventou a batucada
Pra deixar de padecer
Salve o prazer, salve o prazer

(João de Barro/Aberto Ribeiro)

Seu Libório tem três vizinhas
Manon, Margot, Frufru
Saem todas as tardinhas
Carregando o seu lulu,
Ninguém sabe o que elas fazem
Porém todo mundo diz
Que o seu Libório é quem manda
Ah!… Como o Libório é feliz

A Manon é mais lourinha
Que boneca de Paris
A Margot é queimadinha
Pelo sol do meu país
A Frufru tem um sinalzinho
Na pontinha do nariz
E o seu Libório é quem manda
Ah!… Como o Libório é feliz

Seu Libório tem três vizinhas…
Usam todas um v-8
Que lhes deu um coronel
Têm vestidos de alto preço
E perfumes a granel
Vive assim feliz e contente
Com o que o destino lhe deu
Pois seu Libório é quem manda
Ah!… E o seu Libório sou eu!

(Guilherme de Brito/Alcides Caminha                /Nelson Cavaquinho)

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei a minh’alma à sua
O sol não pode viver perto da lua

Tire o seu sorriso do caminho…
É no espelho que eu vejo a minha mágoa
A minha dor e os meus olhos rasos d’água
Eu na sua vida já fui uma flor
Hoje sou um espinho em seu amor

Tire o seu sorriso do caminho…

(Noel Rosa/Vadico)

Quem foi que disse
Que eu era forte?
Nunca pratiquei esporte
Nem conheço futebol
O meu parceiro
Sempre foi o travesseiro
Eu passo um ano inteiro
Sem ver um raio de sol
A minha força bruta reside
Em um clássico cabide
Já cansado de sofrer
Minha armadura
É de casemira dura
Que me dá musculatura
Mas que pesa e faz doer
Eu poso pros fotógrafos
E distribuo autógrafos
A todas as pequenas
Lá da praia de manhã
Um argentino disse
Me vendo em Copacabana
No hay fuerza sobre-humana
Que detenga este Tarzan!

De lutas não entendo abacate
Pois o meu grande alfaiate
Não faz roupa pra brigar
Sou incapaz
De machucar uma formiga
Não há homem que consiga
Nos meus músculos pegar
Cheguei até a ser contratado
Pra subir em um tablado
Pra vencer um campeão
Mas a empresa
Pra evitar assassinato
Rasgou logo o meu contrato
Quando me viu sem roupão
Eu poso pros fotógrafos…

Quem foi que disse…

 

(Ismael Silva)

Ô Antonico, vou lhe pedir um favor
Que só depende da sua boa vontade
É necessário uma viração pro Nestor
Que está vivendo em grande dificuldade
Ele está mesmo dançando na corda bamba,
Ele é aquele que na escola de samba
Toca cuíca, toca surdo e tamborim,
Faça por ele como se fosse por mim

Até muamba já fizeram pro rapaz,
Porque no samba ninguém faz o que ele faz
Mas hei de vê-lo muito bem, se Deus quiser,
E agradeço pelo que você fizer

 
(Geraldo Pereira/Elpídio dos Santos)

É, desde o dia em que passei
Numa esquina pisei num despacho
Entro no samba meu corpo tá duro
Bem que eu procuro a cadência e não acho
Meu samba, meu verso não fazem sucesso
Há sempre um porém
Vou à gafieira fico a noite inteira
No fim não dou sorte com ninguém
É, mas eu vou num canto
Vou num pai-de-santo
Pedir qualquer dia
Que me dê uns passe
Uns banhos de ervas
E uma guia
Esta aqui o endereço
Um senhor que eu conheço
Me deu há três dias
O mais velho é batata
Diz tudo na exata
É uma casa em Caxias

É, mas num dia em que passei…

Príncipe Pretinho

Eu mandei fazer um terno
Só pra chatear
Com a gola amarela
Só pra chatear
Mandei borbar na lapela
Só pra chatear
O nome que não era o dela

Eu mandei fazer um terno…

Comprei um par de sapatos brancos
Pois sei que ela só gosta de marrom
Só pra chatear, só pra chatear
Cada pé de sapato tem um tom
Comprei um bangalô pra chatear
Lá na favela
Mas vou morar na Lapa
Perto dela

Só pra chatear

Comprei um par de sapatos brancos…

(Zé Kéti)

Eu sou o samba
A voz do morro
Sou eu mesmo, sim senhor
Quero mostrar ao mundo
Que tenho valor
Eu sou o rei dos terreiros
Eu sou o samba
Sou natural daqui do Rio de Janeiro
Sou eu quem leva a alegria
Para milhões de corações brasileiros

Mais um samba
Queremos samba
Quem está pedindo
É a voz do povo do país
Viva o samba
Vamos cantando
Essa melodia pro Brasil feliz

 
(Noel Rosa/Kid Pepe)

O orvalho vem caindo
Vai molhar o meu chapéu
E também vão sumindo
As estrelas lá no céu
Tenho passado tão mal
A minha cama é uma folha de jornal

O orvalho vem caindo…

Meu cortinado é o vasto céu de anil
E o meu despertador é o guarda-civil
(Que o salário ainda não viu)
O orvalho vem caindo…

A minha terra dá banana e aipim
Meu trabalho é achar quem descasque por mim
(Vivo triste mesmo assim)
O orvalho vem caindo…

A minha sopa não tem osso nem tem sal
Se um dia passo bem, dois e três passo mal
(Isto é muito natural)

(Bide/Marçal)

Você partiu, saudades me deixou
Eu chorei
O nosso amor foi uma chama
Que o sopro do passado desfaz
Agora é cinza
Tudo acabado e nada mais!

Você partiu de madrugada
E não me disse nada
Isto não se faz!
Me deixou cheio de saudades, de paixão
Não me conformo com a sua ingratidão

(Chorei porque)
Você partiu, saudades me deixou…

Agora desfeito nosso amor
Eu vou chorar de dor
Não posso esquecer!
Vou viver
Distante dos seus olhos, ó querida!
Nem me deu um adeus por despedida

Você partiu, saudades me deixou…

(Sinval Silva)

Adeus, adeus,
Meu pandeiro do samba
Tamborim de samba
Já é de madrugada
Vou-me embora chorando
Com meu coração sorrindo
E vou deixar todo mundo
Valorizando a batucada
Em criança,
Com samba vivia sonhando
Acordava
Estava tristonho, chorando
Jóia que se perde no mar
Só se encontra no fundo
Sambai, mocidade
Sambando se goza neste mundo
E do meu grande amor
Sempre me despedi sambando
Mas da batucada
Agora me despeço chorando
Guardo no lenço
Esta lágrima sentida
Adeus, batucada
Adeus, batucada querida!

(Custódio Mesquita)

Sou doutor em samba
Quero ter o meu anel
Tenho esse direito
Como qualquer bacharel

Sou doutor em samba…

Vou cantar a vida inteira
Para meu samba vencer
É a causa brasileira
Que eu quero defender

Sou doutor em samba…

Só o samba me interessa
E me traz animação
Quero o meu anel depressa
Pra seguir a profissão

Só o samba me interessa…

Sou doutor em samba…

(Donga)

Chora cavaquinho, chora
Chora violão também
Que o nosso amor foi embora
Deixando saudade em alguém

Chora cavaquinho, chora…

Quantas vezes ele cantava
Alegrando o meu coração
O seu cantar redobrava
Fazendo sentir o violão

Chora cavaquinho, chora…

E não tenho
Mais esperança
Na morte vivo pensando
Parece inocente criança
Um pobre cavaquinho
Triste chorando

Chora cavaquinho, chora…

(Herivelto Martins/Heitor dos Prazeres)

Lá em mangueira
Aprendi a sapatear
Lá em mangueira
É que o samba tem seu lugar
Foi lá no morro
Um luar e um barracão
Lá eu gostei de alguém
Que me tratou bem
Eu dei meu coração
No morro a gente
Leva a vida que quer
No morro a gente
Gosta de uma mulher
E quando a gente
Deixa o morro e vai embora
Quase sempre chora
Chora, chorra

Lá em mangueira…

(Ataulfo Alves/Paulo Gesta/Matilde Alves)

Sei que vou morrer não sei o dia
Levarei saudades da Maria
Sei que vou morrer não sei a hora
Levarei saudades da Aurora
Quero morrer numa batucada de samba
Na cadência bonita do samba
Quero morrer numa batucada de bamba
Na cadência bonita do samba

O meu nome não se vai jogar na lama
Diz o dito popular:
Morre o homem, fica a fama
Quero morrer numa batucada de bamba…
O meu nome não se vai jogar na lama…
Quero morrer numa batucada de bamba…

(Pixinguinha/Baiano)

Samba do partido-alto
Só vai cabrocha
Que samba de fato
Samba do partido-alto…

Só vai mulato filho de baiana
E a gente rica de copacabana
Dotô fromado de ané de oro
Branca cheirosa de cabelo louro, olé
Samba do partido-alto…

Também vai nego que é gente boa
Crioula prosa, gente da corda
Porque no samba nego tem patente
Tem melodia que maltrata a gente, olé
Samba do partido-alto…

Ronca o pandeiro, chora o violão
Até levanta poeira do chão
Partido-alto é samba de arrelia
Vai na cadência até raiar o dia, olé
Samba do partido-alto…

E quando o samba tá mesmo enfezado
A gente fica com os óio virado
Se por acaso tem desarmonia
Vai todo mundo pra delegacia, olé
Samba do partido-alto…

De madrugada quando acaba o samba
A gente fica com as pernas bambas
Corpo moído só pedindo cama
A noite toda só cortando rama, olé
Samba do partido-alto…

A boca fica com um gosto mau
De cabo velho de colher de pau
Porque no samba que não tem cachaça
Fico zangado fazendo pirraça, olé
Samba do partido-alto…

(Caninha/Visconde de Picoíba)

Samba de morro
Não é samba, é batucada
É batucada, é batucada, oi

Samba de morro
Não é samba é batucada
É batucada, é batucada, oi

Lá na cidade
A escola é diferente
Só tira samba
Malandro que tem patente

Lá na cidade
A escola é diferente
Só tira samba
Malandro que tem patente

Samba de morro…

Nossas morenas
Vão pro samba bonitinhas
Vão de sandálias
E saiote de preguinhas

Nossas morenas
Vão pro samba bonitinhas
Vão de sandálias
E saiote de preguinhas

Samba de morro…

 

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