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----- Original Message -----
From: Luiz Lemos <luskar@uol.com.br>
To: <velas@jangadabrasil.com.br>
Dia da caça, um conto de Luiz Carlos LemosDIA DA CAÇA
Luiz Carlos Lemos
Caros amigos do Jangada,
Com surpresa e alegria, vi A Lenda da Chuva, por mim recolhida e remetida a este
site, publicada na seção "Colaborações".
Agradeço a atenção e, para demonstrar o meu entusiasmo com a possibilidade de figurar
mais uma vez no Jangada, remeto-lhes agora um conto de minha autoria, inspirado em
estória "verídica" ouvida de um velho caipira chamado Aprígio, na feira livre
de Governador Valadares - MG - onde resido.
Trata-se de um "causo de onça", que tem, no entanto - para nossa surpresa - uma
forte e bela pitada ecológica. Louvado seja!...
Dia da Caça
"...a gata prisunha, a cara de réu.
O pai do chiqeiro, a gata comeu."
(Elomar - in Arrumação)
Meia-noite, na Serra do Timbó. Noite de lua nova. Os escuros de breu.
O casebre, quase invisível na noite sem lua. Na boca da mata, só o silêncio e o calor
sufocante das madrugadas de março. Tudo dorme, ou quase tudo.
Os passos macios da pintada, nas folhas secas de bananeira, espalhadas de propósito, à
guisa de alarme. Os ouvidos experientes de João Pedro captaram, quase pressentiram.
Iscuitô, Manurréi?...
Hum hum!... É ela.
Mbóra?
Mbóra.
Poucas palavras, pobre linguajar. Decisão e coragem, somente. Levantaram-se ao mesmo
tempo dos catres, no quartinho escuro da tapera minúscula. João Pedro foi o primeiro a
achar o fifó. Zemário riscou o fósforo. A luz amarela e tremulante se fez, iluminando
dois rostos idênticos. Irmãos gêmeos, mabaços.
Aa tá chegano. Dimanssin, pé de viludo, mais tá.
Que chegue. Só farta ela mêm. A hora dela já chegô.
Lovado seja Nossinhô Sunscristo!
Lovado seja!...
As mãos tocaram testas, peitos, ombros e bocas. Persignaram-se com o
"em-nome-do-padre", costume antigo do falecido pai, que herdaram.
Do quartinho pra sala, os dois, em silêncio. Da sala pequena, para a cozinha ainda menor.
No fogãozinho de barro, a chaleira com o resto do café frio, de ontem de tarde.
Nun dá é móde isquentá. Ela sente o chêro e vorta, inriba do rasto.
Portança não. Café fri é café. Água é qui nun vira.
Falô certo, Manurréi. Qué cumê?
Mió não. Vomo cuidá dela premêro. Dispois, aí sim, a festa.
Antão, as ferramenta, mano. Sem barúi.
Tá qui.
No silêncio maior que se fez, armaram-se. Primeiro, os facões riscafôgo, antigos,
forjados no Lajedão, beira de Urucuia. Depois os embornais com munição de chumbo e
pólvora. Por último, as espingardas.
A de João Pedro, uma Rossi 28, dois canos, limpa e brilhante, como se fosse nova.
Ferramenta boa, de peso e respeito.
A de Zemário, herança do pai, uma chumbeira, feita em casa, cão grande, um cano só.
Só não tinha o brilho cromado da outra, mas tinha história. Muitas e muitas pintadas
viram, de sua boca, a última luz desse mundo. Merecia respeito e temor. Na coronha de
jacarandá, o nome do fabricante e primeiro dono, entalhado a canivete: Sebastião Dantas.
Pronto, Manurréi?
Mbora. sêo Mano.
A porta do casebre aberta em silêncio. As alpercatas de couro pisando de leve a poeira do
terreiro, barulho nenhum. Os olhos atentos, fitos no escuro. Narinas sorvendo o ar,
cuidadosamente, em busca do cheiro dela. Ouvidos vasculhando tudo, ao derredor, campeando
bulido qualquer, que pista fosse.
Mano, ach qui é no curralin. E ocê?
Tomém. Móde o bizerro novo de Morena. Bicha covarde. Hoje ela tem.
Antão, assunta: ispera um pôco aqui, que eu dõ a vorta, passo no mandiocal e
saio puditrais do curralin. Daí, cê chêga, do ôto lado e nóis cerca ela. Tá dereito?
Iscrito, sêo Mano. Pu lad quela invisti, come fogo. Avia!...
Mais não se disse, não precisava. A experiência faria o resto. Pois não eram João
Pedro e Zemário, filhos de Tião Dantas? Não tinham nascido e crescido aprendendo o
ofício de matar onça com o pai? Aquilo não era mais onça, era mais um couro, tirado,
curtido e vendido caro, pra Zé de Mateus revender em Montes Claros. Só se Deus não
quisesse.
João Pedro tomou o carreiro da esquerda, que saía da frente do casebre, atravessava o
pasto de grama miúda e se perdia no mandiocal. Caminhando devagar, olhos e ouvidos
atentos, pensava:
"Bicha mais covarde e mais besta! Garrá de tucaiá criação justamente adonde? Na
casa de João Pedro e Zemáro, dois caçadô de fama e profissão. Nun sabe que nós dois
véve é de vendê côro de pintada?... Antão, agora aprende, mód largá de sê
sambanga."
Nos olhos, o ódio, a tristeza, a saudade. Ódio da pintada, que arrastara para a mata, na
última lua nova, o bezerro recém nascido de Ametista. Tristeza quase de pai, quando
perde filho, logo depois de nascer. Saudade do boi bonito que o bezerro poderia ter sido,
não fosse a fome e a covardia da fedorenta.
Cuspiu de lado, com raiva, mas em silêncio, que a hora era aquela.
Gata prisunha, cara de réu, ôje ocê tem, cuma hai Deus no céu repetia
baixo, tão baixo que só o coração magoado ouvia.
Fim do pasto, começo do mandiocal. Cuidado redobrado, para não fazer barulho na folhagem
dos arbustos. Passo a passo, pé ante pé, deu a volta e divisou, por trás, o curral onde
estariam, se Deus permitisse, o gado para ser salvo e a onça, para ser morta.
Conferiu a espingarda. Carregada, destravada, pronta. O dedo, no gatilho, esperando, qual
serpente, a hora exata do bote, em que não pode haver erro.
Apurou os ouvidos e esperou. O sinal viria, estava certo. E ele o reconheceria, na fé de
Deus.
No curral, no sítio todo, no mundo todo, silêncio absoluto. João Pedro esperou.
Zemário, por sua vez, dera tempo para que o irmão fizesse a volta pelo mandiocal.
Apoiara a coronha da chumbeira no chão, feito escora, distribuindo melhor o peso do
corpo. Atento olhos, narinas e ouvidos , lendo e interpretando
imperceptíveis sinais. Esperava e pensava, que pensamento é coisa que ninguém sucede
fazer parar.
"Eitha, que só farta êsse côro! Pelo tamanho do rasto, na ôta lua, é onça
erada, das grande. É côro pá mais de dez conto. Cum o qui nóis já tem guardado na
mão de Zé de Mateus, compreta o preço da moto-serra. Vô lá eu mém, compro e trago a
bicha. Aí, vai sê a fartura, se Deus quisé. Boto a mata abaixo e vendo a madeira,
dinhêro muito. Tamo rico, eu mais João Pedro. Quano os home do Guvêrno subé da nutiça
e vinhé, nóis já tá é longe, no Sumpaulo, cum dinhêro no bolso. Aí, vai sê só
farra, só função, regada cum galinha, vin, quêjo e doce!... Ê vidão!... Acha nóis,
que eu quero vê!.."
Sonho antigo, de comprar uma moto-serra para derrubar a mata e vender a madeira, ficar
rico de uma vez e sumir, ir para São Paulo, virar gente. Sonho muitas e muitas vezes
discutido com o irmão, de pleno acordo.
Um dia, Manurréi, um dia!...
No telhado da tapera, um curiango cantou seu canto triste, de mau agouro. Zemário sentiu
de repente um frio esquisito, filho do susto, no cantar inesperado da ave noturna.
Cruz credo!... Sai pra lá, trem ruim. Eu vô é no curralin, que João Pedro já
deve de tê chegado lá. Deus me guia, Deus me potreje, de garra de onça e da mão dos
herege rezou três vezes e começou a caminhar cautelosamente, na direção
combinada.
De onde estava, à beira da cerca, nos fundos do curral, João Pedro viu o irmão chegar,
do outro lado. Se viram, trocaram entre si um sinal de cabeça, à guisa de diálogo:
Nada?
Nada.
Esperaram, armas prontas, dedos no gatilho. Um em frente ao outro. Entre os dois, o
minúsculo curral, feito para abrigar bezerros novos e vacas recém-paridas. No ar, o
cheiro forte da fera. Ela estava ali, em algum lugar, muito perto, esperando também. Eles
sabiam. Era questão de tempo. Pouco tempo.
De repente, a percepção do silêncio total caiu como um raio na mente dos dois irmãos.
E a vaca Morena? E o bezerro novo? Onde estariam, que nada se ouvia? Teriam chegado tarde?
Movidos pelo mesmo pressentimento, como se fossem um só, saltaram a cerca ao mesmo tempo,
cada um do seu lado, para dentro do curral. Não tinham as alpercatas de couro tocado o
chão verde do lado de dentro, o urro da onça se fez ouvir. Urro de ódio, de raiva, de
fazer gelar sangue e paralisar vítimas. O momento mágico e medonho do ataque.
Justamente para isso serve o urro da fera. Paralisa a vítima um segundo, tempo suficiente
para o pulo e a patada fatal. Uma só, morte rápida e certa.
Mas não para João Pedro e Zemário, filhos de Tião Dantas. Urro de pintada era música
para os dois, treinados e experientes. Ainda no ar, mergulhados na escuridão da lua nova,
apontaram as armas e puxaram os gatilhos, ao mesmo tempo, mirando, por instinto, o ponto
exato de onde tinha vindo o berro. Dois tiros, um só estampido, tal a sincronia da
ação.
Há quem diga, e eu acredito, que tem bicho que pensa e calcula, estando a onça em
primeiro lugar, nessa arte. Agachada, tensa, feito mola prestes a se lançar, a Pintada
esperou o salto dos caçadores, para dentro do curral. Saltaram.
Ela também saltou e soltou, no ar, o urro fatal, para atrair os tiros.
As cargas de chumbo grosso se cruzaram a centímetros da cabeça da onça, mas não se
perderam na escuridão. Encontraram, cada uma, o peito do atirador à frente, sempre ao
mesmo tempo. Com o impacto, cada um foi lançado de costas contra a cerca do curral, de
boa madeira, que resistiu. E os corpos dos dois irmãos escorregaram para o chão,
lentamente, mãos no peito, tentando em vão estancar o sangue e a vida, que se esvaíam
depressa.
João Pedro ainda divisou, no escuro, o vulto grande, no meio do curral. Adivinhou serem a
vaca Morena e o bezerro novo, mortos em completo silêncio pela onça, que só depois
fizera barulho, para atrair os caçadores. Louvado seja...
Zemário deixou este mundo ouvindo o som longínquo de uma moto-serra, misturado com
gargalhadas de festa e tinir de copos... Louvado seja...
Quem sumiu na escuridão foi a Pintada, que subiu lentamente a Serra do Timbó para, lá
de cima, soltar outro urro, mais forte, mais terrível, de pura felicidade.
No urro da fera, um grito de vitória. A vitória da Natureza que, embora esteja perdendo,
a passos largos, a guerra contra os homens, contra as máquinas, contra as armas, contra
as químicas, nessa noite tinha ganho mais uma batalha.
Louvado seja!...
Governador Valadares, MG, 16 e 17 de outubro de 2002
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