Sua revista com a cara e a alma brasileiras

Leia também a colaboração dos leitores na edição especial de terceiro aniversário da Jangada Brasil

Ilustração de Marcos Jardim

Voltar Colaborações

JANGADABRASIL
REALEJO
CORETO
EMPÓRIO
PROVÉRBIOS
ARQUIVOS PARA DONWLOAD


Comentários, críticas e
sugestões são sempre
bem-vindas!

 

COLABORAÇÕES: Nesta seção, textos enviados pelos leitores. Para enviar seu texto use o e-mail velas@jangadabrasil.com.br

A MENTIRA E O MENTIROSO NA CULTURA POPULAR

Gutenberg Costa*


O saudoso mestre Câmara Cascudo (1898-1986), em seu Dicionário do folclore brasileiro, página 575, 1972, destacou que: - "As estórias mentirosas, pilhérias, anedotas, casos estupefacientes... são muito populares e constituem em gênero especial, onde a imaginação exagerada e livre se liberta dos limites da lógica...". Para o povo, as duas profissões que são mais acusadas de mentirosas, são inquestionavelmente a dos "pescadores e caçadores". Encontrei afixado nas paredes de diversos bares em que estive, o aviso humorístico: - " Aqui se reúnem os pescadores , caçadores e outros mentirosos..." Particularmente quando criança ouvi muitas estórias de mentiras e conheci vários mentirosos. Em Pendências (RN), contava-se que um certo mentiroso , do tipo "clássico", passando apressado por um grupo de amigos, teria o mesmo sido chamado para contar a mentira do dia e se desculpado com a seguinte estória: - " Amigos, desta vez eu não vou poder parar para prosar, porque o meu canário de estimação fugiu com gaiola e tudo!" Por lá se contava a estória do caçador que teria morto várias ribaçãs com um só tiro. E tinha aquela do pescador que teria perdido o relógio em uma pescaria e em uma outra pescaria cerca de dez anos depois, levando um peixe para casa, teria encontrado ao tratá-lo, o seu relógio ainda funcionando normalmente. Cresci fugindo da mentira, como o diabo foge da cruz, para seguir os conselhos e exemplos que a saudosa dona Estela, minha mãe norteava o viver de seus sete filhos: - "Quem mente rouba ou quem mente ficará de nariz crescido." Minha mãe também costumava contar que a mentira pode acabar matando o mentiroso: "Olhem, certa vez um mentiroso se afogando nas águas do rio de Pendências, não foi socorrido porque ninguém acreditava que o mesmo estivesse falando a verdade!" O nariz comprido é atribuído ao personagem do boneco Pinóquio. O mentiroso é popularmente chamado em algumas regiões de loroteiro, potoqueiro ou conversador. Quando a mentira é muito grande é logo denominada de "mentira cabeluda". As vezes a mentira é aceita, quando ela é contada para salvar uma situação desesperadora ou ajudar um amigo. É a chamada mentira "branca". Aqui em Natal, conheci inúmeros mentirosos "clássicos". Apesar de dizerem que só o homem é quem mente, tive uma vizinha no bairro do Alecrim, que mentia tanto, que até o seu nome, que era na verdade "Francisca", ela insistia em ser dona Sílvia. Outro mentia magistralmente que quase convencia-nos, que fora ele próprio, o único responsável pela segurança total do papa João Paulo II, durante a permanência de sua santidade na capital papa-jerimum. O mentiroso não pode gaguejar, nem dá risadas durante a contagem de sua estória. Enquanto a criança é dita como testemunha da verdade, lamentavelmente o idoso é conhecido como mentiroso, quando fala de seu passado em um banco de praça para os que lhe ouvem. No sertão se diz de quem mente: - Mente que só cachorro de preá. Mente que o cu não sente! Em relação a mentira , já se afirma:- A mentira tem pernas curtas!. A conta do mentiroso sempre termina em sete. O mentiroso costuma começar sua estória com as seguintes palavras: Juro por Deus! Se for mentira Santa Luzia me cegue dos dois olhos! Fulano não me deixa mentir! A mentira já foi tema de concurso em vários festivais de folclore, na cidade paulistana de Olímpia. Existem os que mentem até para si próprio e os que mentem para divertir os que o ouvem. Quem nunca mentiu na vida que atire a primeira pedra!. Meu velho amigo "seu" Chico do Ouro, da cidade de Extremoz (RN) é um caso de mentiroso clássico que conta suas estórias para os ouvintes acharem graça. Ele jura que pesca deitado de sua cama, com o anzol dentro da lagoa e a ponta da linha amarrada no dedão do pé direito. Só que segundo ele, um dia foi arrastado da cama, passou pela porta da cozinha, derrubou duas cercas do seu quintal e só não morreu afogado porque desamarrou em tempo a linha do pé. O peixe, ele jura que era uma baleia... Chico do Ouro evoca o testemunho de dona Nazaré, sua esposa: - Taí Nazaré que não me deixa mentir!. Informa-nos o saudoso mestre e amigo folclorista Mário Souto Maior, em seu livro- A mentira tem pernas curtas, páginas 19-20, 2001, que o dia da mentira, o primeiro de abril, começou por volta de 1564,quando o rei Carlo IX da França, determinara que o ano começasse a partir do dia primeiro de janeiro e não em abril , como era antes. O citado livro tem a parceria dos escritores Renato Phaelante, Manuel Correia de Andrade e Getúlio Araújo. Portanto, historicamente, o dia da mentira teve início na França, depois se espalhando para o resto do mundo. Quem não pregou uma peça com um amigo , vizinho ou familiar no dia primeiro de abril?. São Pedro mentiu três vezes. A verdade tanto quanto a mentira está na Bíblia. Este ano, os agitadores culturais William Collier e Joiram Medeiros estão criando o primeiro concurso de causos e mentiras do Rio Grande do Norte. É tanta verdade, que eu já fui contactado para participar do famoso júri deste certame ao lado de folcloristas e escritores de renome.


Colaboração do autor à Jangada Brasil.

* Gutenberg Costa é pesquisador, escritor e folclorista. Membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN e da Comissão Norteriograndense de Folclore.

Jangada Brasil © 1998-2002