Acredito que o tipo étnico brasileiro, o mestiço, é mais caracterizado como uma cultura
do que como um traço racial. E o Saci de Monteiro Lobato é o símbolo desse mestiço
brasileiro.
Originariamente, o Saci Pererê era uma entidade folclórica da mitologia dos índios
brasileiros. Era um menino ameríndio, de uma perna só e que tinha como função defender
as árvores, a natureza. Era um ecologista. Uma espécie de guarda-florestal. Foram as
negras escravas, as famosas aias contadoras de histórias, as responsáveis pela versão
moderna do Saci que Monteiro Lobato usou nos seus textos. O Saci representa,
simbolicamente, um período social da história do Brasil. Quando os negros fugiam das
senzalas e iam refugiar-se nos quilombos dentro das florestas, os portugueses, armados,
iam caçá-los para levá-los de volta para a escravidão. Então os negros, para se
defenderem, desenvolveram a Capoeira. Quando os portugueses voltavam feridos e derrotados
da busca aos escravos fugidos e contavam como os negros se defendiam, aí simplesmente as
aias desenvolveram o Saci moderno. Foi só tirar uma perna do escravo fugido, o
quilombola, e dar cor negra ao Saci. Tanto um como o outro já tinham uma função de
defesa: o Saci defendia as florestas. O negro defendia a liberdade. Ambos armavam ciladas
para os seus inimigos. Então o Saci passou a ser o quilombola, o negro fugido, arteiro, o
herói das aias e dos outros escravos prisioneiros nas senzalas. Além disso o elemento
português também apareceu no Saci Pererê: o capuz de Papai Noel e também
característico dos Sete Anões. Um elemento europeu, portanto. Toda a miscigenação
cultural que se fortificou no fim do século 19 principalmente, ganhou força arquetipal
no Saci. Na verdade o Saci Pererê é um arquétipo do tipo étnico brasileiro, o
mestiço. Ele é o mestiço culturalmente definido.
* Marco Aurélio Rodrigues Dias, é artista plástico
e carioca. Construiu em São Lourenço, Minas Gerais, uma capela em estilo naif dedicada a
Nhá Chica, uma santa da região do sul de Minas. Editor de um tablóide "Jornal O
DIAS" de quatro páginas que circula no Circuito das Aguas de Minas Gerais.
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