A fim de apresentar mais
dramaticamente as atitudes, idéias e o "mundo mental" de Zé das Cobras, foi
gravada a seguinte entrevista, reproduzida em seu inteiro teor: Amigo, como é o
seu nome todo?
José Cândido da Silva conhecido por Zé das Cobras porque trabalho com a
iarte dada pelo meu avô, me deu a iarte de curandero-de-cobra, mucho conhecido, provava o
que fazia e me dexô alimentando essa força e até o presente venho alimentando.
Cura a ofensa de qualquer cobra ou só de uma espécie delas?
Curo toda nação de cobra, da fração em que nós vemos não tem uma que eu
não beneficie, cavalero.
Me conte o que é que o amigo faz. Ouvi dizer que você pega cobra, amansa,
gostaria que o amigo me ensinasse bem direitinho.
Amanso as cobras, também domestico com as mesmas palavras em Salamão foi na
fé.
Amigo, poderia me ensinar repetindo as palavras que diz?
As palavras são estas, é uma estória que traduz inveja, eu vô contá
toda: Salamão encontrô o doente. Sendo cientista Salamão pela sua força
humana dada pelo nosso pai Senhor Jesus Cristo; agora Salamão sendo irmão de Sansão
invejô mesmo de um para otro a força e a fé. Fé sem força não é nada e força sem
fé não é nada. Salamão beneficiando e sendo prático nas suas ciência humana de
receitá, qualqué um sinhô na sua ciência e seu golpe de vista em querendo encontrá em
Salamão. Sansão sendo reis da força topô dos dois jeitos na ciência. Um estava nas
suas ciências ocultas, Sansão, mas Sansão não sabia que ele tinha força. A cobra,
Salamão domesticando a cobra, trazendo a cobra domesticada, fala para Sansão, a serpente
te mata. Sansão sendo dono da força disse: a mim não. Não tinha medo. Sansão não
tinha medo. Ele vendo amedrontado os outros, por que nenhum era cheio de força, só podia
se amedrontá. Salamão prostô-se pois com seu coração crédulo, sacudiu a serpente em
cima de Sansão. Sansão via, e, pega a serpente. Quando Sansão pegô a serpente que a
serpente foi ofendê ele, ela ficô com a boca aberta, ficô ali parada. Agora, disse
Salamão, e não te atinge não? Não, porque eu sô reis da força, da força humana.
Começô Salamão chamando Sansão para viajá junto. Ele viaja junto comigo, somos dois
ermão, somos dois ermão na iarte e força e im fé e subiu e foro falá com Jesuis, os
dois. Jesuis o ordena a ele que não tivesse inveja de um para outro, não invejasse para
não deixá o globo todo cheio de cercunstância. Vai eles e descero com a licença de
Deus e foro beneficiando como ele mandô. Sansão encontra uma serra e tira. Salamão
encontra uma serra adiante que não subia e nem descia naquela estrada, primitida por
Jesuis, Jesuis butô para vê a opinião dele qual era o coração dos dois. Sansão foi e
pegô a estrada e estapô em cima da serra e foi Jesuis quem butô a serra. Agora Sansão
foi e pegô a serra com sua força, Sansão a retirô e a estrada abriu, Salamão ficou
olhando para Sansão invejô aquilo e disse. ô i eu também não terá essa força, não?
Sansão disse, não tem visto que essa força não pode você pegá. Aí, quando encontrô
doente receitava Salamão no gorpe de vista receitava e Salamão disse eu não compriendo
e cada quá no seu, e não adianta você sê sabido no seu mistério, e nem eu sê sabido
no seu mistério, ele já invejô e ficô o mundo assim, como nois já disse, cheio de
cercunstância. Eu não tenho inveja por isso aprendi a curá com o mesmo gorpe de vista.
Amigo, quando você cura quais são as palavras que diz?
Eu coloco o cricifico do Sinhô São Bento na matéria. A mão do home é uma
carta aberta. Agora ali i eu coloco e elevo estas palavras que ele levava: Pai, Domis,
Sinhô são concorde. Aleluia iá devemus jaculetóris e é jô inte méia ai já devemus,
gemus gérico e afundamento com a lei de Deus, com Deus eu te pego com o
sangue aprecioso na cruiz de Nosso Sinhô Jesuis Cristo e cum este sangue aprecioso de
Nosso Sinhô Jesuis Cristo com ele se banhasse i se matriculasse e dissesse que ficô
livre para todo insensive de veneno, as doze palavras de Nosso Sinhô Jesuis Cristo, são
doze palavras apostólica e inscrito pela Igreja Romana Católica e estava sentado e disse
se matriculasse e se dissesse com o sangue da Santíssima Virge Maria. A Virge Maria por
que Santissima i virge? Por que foi virge no parto e depois do parto ficô ela virge para
sempre virge. Adepois faço o sinal da cruia na mão da pessoa. Eu pego adepois no dedo da
pessoa para ligá força, a minha matéria humana, eu pego e visga, e não tando cum
força posso pegá que nada faiz.
Como o amigo adquire forças e como pode conservá-las?
Arrespeitando o prestígio humano na matéria (abstenção sexual) assim é
que eu obtenho força.
A reza que o amigo me ensinou é para livrar a pessoa antes de ser picada pela
cobra, fechando o corpo, como disse. Como o amigo faz para curar a pessoa doente, isto é,
que já foi picada pela cobra?
É a reza da estrela que eu faço. É assim: Ô minha estrela
gloriosa do mar, assim como fulano, diz o nome que arrecebeu na pia, assim como ela estava
sentada e disse ó meu filho da Santíssima e disse o motivo da Santíssima e que foi a
nossa mãe, virge e sempre virge, apóis e tira o insensive deste veneno e que uma água
se vire para sempre, sem fim, Amém. Cum Deus Padre, cum Deus Filho, cum Deus Espírito
Santo e são treis deus? Não, é um só Deus um finíssimo home e verdadero, e a única
virge no céu, na terra e que o mundo chama por ele apóis ó meu Deus de piedade, assim
como foi um Deus de piedade tivesse compaixão para cum Fulano, assim assim, que im água
si vire, im sempre si vire e im água se sujeite. Amém. Serpente infiliz segue: de uma em
uma, de duas em duas, de treis em treis, de quatro em quatro, de cinco em cinco, de seis
em seis, de sete em sete, de oito em oito, de nove em nove, de dez em dez, de nove em
nove, de oito em oito, de sete em sete, de seis em seis, de cinco em cinco, de quatro em
quatro, de treis em treis, de dois em dois, de um em um. E daí a dô desparece
imediatamente.
Fora as doenças motivadas pelas cobras, o amigo José faz mais alguma cura?
Não sinhô, só de cobra.
E para o amigo José fazer uma cobra amansar tem alguma regra especial, para ela
ficar mansa, tem alguma palavra?
Tenho. Chamo a cobra. Eu domestico. Ela vem como vinhé, sentamo a mão em
cima dela, ela deitô. Eu digo: ó meu sinhô São Bento; vaquero das nossas almas vaquera
do fundo do purgatório, e cumo estava assentada e assim mesmo diz multiplicando a força,
de nosso Pai verdadero. Quem era nosso Pai Verdadero, aquele sinhô é que veio na cruz e
por nóis se aderramô apóis assim serpente humana ficará sem seu valô humano e cum
Deus Padre, e cum Deus Filho, e cum Deus Espírito Santo, que afugentará serpente humana,
o teu insensível para sempre sem fim. Amém. Ela amedronta. Ali ela abaixa. Eu grito a
ela, pára, adomestico. Eu já tenho tado em Instituto, mais de uma veia. Ela pára. Agora
a matéria humana pricisa tá im orde porque sinão tivé, nada feito, porque a cobra é
serpente, é insensive de veneno. Tenho 21 ano de iarte, e observo para guardá a força.
O amigo recebeu a arte de quem?
Do meu avô, passô pra mim. Meu avô era índio, chamava Cândido Viturino,
tá assepurtado em Parmera dos Índios, tudo mundo, de grande a pequeno se beneficiô cum
ele. Agora, ele era cientista em muitas parte. A propósito da cura de cobra, quando
apocava isto, no meio de deis filio ele deu para mim a iarte.
Você não perde a sua força de estar rezando assim nas feiras, todo mundo
vendo e ouvindo?
Não sinhô.
Quanto que o amigo cobra para curar?
Treis cruzeiros.
Só três cruzeiros?
Ele ordenó dois, pois bem, agora, do tempo que eu comecei a curá não havia
imposto: ele me falô pra mim, si algum dia lhe cobrare o imposto, então você cobra deis
tustões mais do que eu ordenei.
Para quem o amigo paga imposto?
Para a prefeitura. Pago na feira, tem feira que pago Cr$ 10,00 e é conforme
a camaradage do fiscal, eu pago para a prefeitura, menos.
Quantas pessoas cura por sua vez que aparece numa feira?
De cada vez curo uma pessoa só. Aquela fica pronta para sempre. Arretira
aquela vem outra. É conforme a quadra o número das que eu curo, às vezes deis, quinze,
outras vezes vinte ou só duas, tudo conforme a quadra.
O amigo vive disso?
Não. Eu sô proprietário. Eu só proprietário, vivo do trabalho da
lavoura, eu ando é abeneficiando o povo. Eu ando só seis meses neste trabalho. Passo
seis meses que não boto a mão im riba de cobra, porque não posso butá. Eu cumeço a
trabaia durante a época de inverno eu estô trabalhando de roça. Ainda não era tempo,
mas eu tô aqui agora por que atrasei dentro dos meus méis. Eu tinha que vim aqui a
negoço cum um primo que tenho aqui, eu atrasei. Eu trabalho de seis a seis, cumeço do
ano e acabo em julho. Dai acabo e vô tocá a roça. Tô aqui, pois bem, tenho uma rocinha
pequena, sô fanático pelo trabalho. Eu tô é fazeno benefiço para a população. A
população me chama me procura para cura. Muita gente me chama, me procura. Eu só
trabalho de janero até o mês de julho. Aí eu paro. Quando eu atraso e tenho uma viage
eu peço a Deus para fazê um atraso, e consegui.
Fora desta época então o amigo perde a força? E como sente que perdeu a
força?
Bem, isto eu le falo muito im particulá. Eu só casado, nesses seis meses
que estô curando eu não encosto im muler. Já cumpriendeu? Eu só casado, tenho dois
filinho, nesses dois meses o senhor sabe, não encosto em minha muler. Durante o meis que
eu não trabalho é meu pai quem trabalha. Por uma pricisão chamam o velho. Ele trabalha
na agricultura também.
Nesses seis meses que você não trabalha e que o senhor seu pai fica
trabalhando o que é que ele faz para ficar com força?
E a mesma oríge que eu falei para o sinhô, o meu pai não procura a vélia
minha mãe, e tem as mesmas palavras que eu tenho.
Quais as feiras onde o amigo trabalha?
Em todas as feira: Propriá, Arapiraca, Igreja Nova, Penedo, Palmeira dos
Índios e outras, vô virando.
O amigo conhece mais alguém que faça benzimento e cura de cobra?
Até o presente não achei positivo, só achei negativo, esses se mete
noutras curas e o serviço naufragô. Esses meu colega se anaufraga, esse culega não tem
respeito pelo prestígio humano, mete-se no alco, nas bebedera, na vida do mundo, ondi a
poco é matéria sem nada e morre. Aqui mesmo tinha, mas foram se acabando já morreu
quase tudo. Fiquei eu, arreservado.
Qual é a religião do amigo José?
A minha religião é a católica romana apostólica. Eu faço as cura por
meio de fé, de fé em Deus.
Que dizem os médicos acerca das suas curas de cobras?
Somente pelo médico? O Dotô Carlos em Propriá, me chamô no consultório,
eu contei o caso pra ele, ele pensô assim, e sendo médico então disse, me pruibiu para
eu não trabalhá dentro da cidade, e me disse porque, eu me convenci e no direito como eu
era, me deu a liberdade para trabalhá longe. Saí fora da rua (cidade) ali por um
quilômetro ou dois eu trabalhava. Adepois ele mudou-se para a Aracaju, e seu Zé Olnias
percisô de um serviço positivo e então ele mandô eu trabaihá por conta própria, e eu
continuei nas feira outra veis, há uns onze ano ou mais, isso aconteceu.
Há. quanto tempo o amigo trabalha?
Tenho 21 ano de iarte.
O amigo faz alguma reza especial para não perder a força?
Faço uma reza, é umas palavras, é uma devoção, mas essa eu não posso
cuntá. Porque si eu contá perdo a força. São umas palavra. O sinhô sabe, tudo pricisa
força, pra sê assim a carne humana, aí não pode.
Essa palavra misteriosa o amigo fala todos os dias? Quando, e há hora especial?
Faço uma veiz, duas por meis. Agora tem dia próprio para fazer. É na
sexta-feira.
Por que na sexta-feira?
Por que, assim se deve. Nosso Sinhô Jesuis Crista foi amortecido de
sexta-feira para sábado. E o homem, seja ele quem fô, é negativo si ele fosse positivo,
como deveria de sê? Positivo só foi Jesuis Cristo, mas desfaleceu, adepois de desfalecê
por sê misterioso, por certo, porque o home que tem mistério às vezes sofre. Eu
tenho visto bastante, mas sem culpa, mas condena. As forças maió combate as menó. Eu
posso tê muita força enquanto o meu prestígio, mas si eu não tenho elemento. Eu quero
está sempre ao lado de quem tem compreensão. Eu só faço benefiço ao próximo. Dizem e
falam o que há e terá os benefiço que atingirá um mal eu nunca alcancei, eu só vejo o
bem. Porém, me falam que tem benefiço para o mal, eu nunca alcancei, eu só vejo a
miséria. Agora me diga uma causa, os espiritistas é positivo.
Não sei, amigo, nada posso dizer-lhe sobre o assunto. Você vai me desculpar.
Quantos anos de idade o amigo tem?
Tenho 36 anos de idade, nasci em 1915.
(Araújo, Alceu Maynard. Medicina rústica, p.279-283)