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Agosto 2002
Ano IV - nº 48

PATUÁ

Em tupi, patuá quer dizer caixa, caixão, designando-se com essa palavra todas as modalidades de magia que dão sorte. Na noite de quinta para sexta-feira santa vai-se, entre as 11 e 12 horas, buscar patuá numa encruzilhada, por exemplo, junto à cruz que fica na estrada que leva a Coxipó. Pode-se, então, fazer um pacto com o diabo e pedir sorte nas cartas ou com as mulheres, talento para tocar violino, certeza no tiro, e outras coisas mais. Os negros vão armados dum grande sabre. Às vezes são assaltados por um animal feroz, mas quando prosseguem no seu caminho, encontram o diabo-mor, em forma de bode, boi, sapo ou rã. Permite que beijem o traseiro, concede-lhes a realização do desejo por determinado tempo, e ordena-lhes que venham uma vez por ano à assembléia geral. Não adianta pedir dinheiro. É proibido proferir o nome de algum santo. Também há mulheres que vão buscar patuá. Uma viu um grande bode preto, perdeu a coragem de fazer seu pedido e gritou "Maria santíssima!" Desde aquele momento, ela julgava sempre estar queimando e sacudia as roupas como se visse fogo, e morreu após pouco tempo.

Patuás são igualmente os amuletos "de santos ou do diabo", os primeiros, na maioria, trabalhados pelos italianos, assim os de Santa Lúcia contra a vista fraca, coração de Jesus, os do Espírito Santo contra todos os males, e a "figa" contra o mau-olhado. Mais preciosas, no entanto são as pedras de sapo, que não se podem comprar a dinheiro. Havia um italiano que tinha um anel com três pedras de sapo, que ele não teria vendido nem a troco duma fortuna; colocando-se na mesa uma série de pratos cheios de comidas, algumas das quais envenenadas, o anel ficava escuro e sujo quando era segurado sobre algum dos pratos com veneno. Com um pano pega-se um sapo que se põe em cima de um poste que esteja exposto ao calor do sol. Em torno da base do poste coloca-se um pano vermelho de bandeira e fere-se o animal por meio de uma vara pontuda. Irritado pelos raios solares e pela vara, o sapo deixa cair da boca algumas gotas de veneno, que se transformam em pedras duras.

Afirma-se ser proveniente dum cigano o seguinte preceito: Na sexta-feira Santa prega-se numa tábua nova um sapo feio e corcunda na posição de um crucificado, e deixa-se o animal ao sol desde de manhã até a noite; o sapo grita horrivelmente e morre. O corpo do animal fica secando ao sol durante mais três dias, permanecendo, em seguida, perto do fogo até que possa ser pulverizado. Soca-se todo o sapo. Tomando-se um pouco de pó, soprando-o, por meio dum tubo, num buraco de fechadura, esta se abre imediatamente.

Havia um negro que tinha o poder de abrir qualquer porta, e servia-se dele para as suas aventuras amorosas. O dono prometeu-lhe uma roupa se lhe desse uma mostra de sua arte; imediatamente o preto abriu a porta da sala, que estava bem fechada. À força de chicote foi-lhe extorquido o segredo. Tinha penduradas ao pescoço, três folhas que recebera do pica-pau, que abre as árvores. Prega-se uma tabuinha no ninho dum pica-pau quando a fêmea está fora, e limpa-se cuidadosamente o chão em derredor. O pica-pau vem, não pode abrir o ninho, desaparece novamente, voltando depois com uma folha no bico; começa a picar e deixa cair a folha, que se deve pegar antes que tenha tocado o solo. Repete-se isso três vezes, e com a terceira folha a tábua se afasta para o lado. Batendo-se com esse "breve" (!) de folhas em qualquer porta, ela logo se abre.

Para livrar-se de quaisquer vínculos ou prisões basta que, na noite da quinta para a sexta-feira Santa, se pegue um jibóia (Boa Cenchria), que se estica entre duas árvores. A cobra não morre, mas desaparece durante a noite. Toma-se a corda com que esteve amarrada, e ata-se esta em torno da cintura. Assim é fácil livrar-se de toda espécie de vínculos.

Para tornar-se invisível, recorre-se a um processo semelhante ao do pica-pau. No ninho dum urubu-rei (Sarcoramphus papa) mata-se o pai ou um filhote quando a mãe estiver ausente, e deixa-se o animal morto no ninho. A mãe busca uma pedra, deixando-a cair do bico sobre o cadáver. Com a mão levanta-se a pedra, que não se pode ver, mas apenas sentir e ouvir. Obtém-se, com isso, patuá. Guarda-se a pedra nalgum lugar, agarrando-a quando se quer ficar invisível. A vista dos que estiverem presentes ficará ofuscada, do mesmo modo como se dá com o possuidor da pedra em relação a esta.

Por meio duma oração dirigida a Deus é possível igualmente, subtrair-se à vista dos homens; também neste caso trata-se de deslumbramento, e não de transformação propriamente dita. Os iludidos vêem, então, um tronco de árvore, um formigueiro ou coisa semelhante mas nunca algum animal. No campo cerrado uma mulher vinha ao encontro de dois cavaleiros; desapareceu subitamente. Os homens apearam-se; um deles pôs-se a carregar seu cachimbo, enquanto o outro fez as suas necessidades junto a um formigueiro que antes não havia visto. Olhando, depois, para trás, viram novamente a mulher, mas o formigueiro desaparecera.

Em São Mateus, na Bolívia, um soldado perdera o seu cavalo. Viu-se obrigado a carregar o arreio na cabeça. Caminhando assim, deparou com um esqueleto de cavalo; o senhor corregedor murmurou algumas frases mágicas, e eis que se levantou, arreado, o cavalo mais lindo que se pode imaginar; o soldado montou nele, não conseguindo apear-se antes que alcançasse o fim da viagem; quando tirou o arreio do animal, este se desfez em pó.


(Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro, p.106-109)

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