Agosto
2002
Ano IV - nº 48 |
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Por ocasião de uma crise
pessoal, especialmente quando se trata de acidente ou doença grave, é freqüente fazer
uma promessa a determinado santo. Em forma de oração, promete-se que, se a pessoa
atingida conseguir livrar-se da dificuldade, será executado um certo em honra do santo. A
promessa pode ser feita pela pessoa atingida, ou por alguém por ela. Pode ser o único
meio empregado para enfrentar-se a crise, ou a precaução suplementar que se toma, além
de procurar-se o auxílio de benzedora ou de médico. "Se a gente num pede pros
santos", disse uma sitiante, "tomano remédio miora, mais munto devagá. Os
santo é que faz os remédio valê."
Se, depois de fazer a promessa, a pessoa doente ou que sofreu acidente não se
restabelece, é devido, pensa-se, ao fato de faltar-lhe fé, ou de seu destino
("sina") ser o de morrer nessa ocasião, e, conseqüentemente, nenhuma
intervenção pode ajudar. "Pra fazê uma premessa", disse uma sitiante, "a
gente percisa tê fé em Deus e nos santo. Se, a gente num tem fé, a premessa num
dianta." "Se num tá na hora de morrê", observou a sitiante, "a gente
fazeno uma premessa com fé, os santo ajuda; mais, se tá na hora de morrê, a premessa
num adianta."
Se o indivíduo obtém o que pediu, o subseqüente cumprimento da promessa é considerado
absolutamente imperativo. Cumprir a promessa diz-se "pagar", forma de expressão
que corresponde bastante a realidade. Não há época especificada em que isto tenha que
ser feito, mas se a promessa não for cumprida dentro de um período que, conforme as
circunstâncias, seja considerado razoável, o indivíduo pode contar que está sujeito a
castigo por parte do santo. "É perciso pagá a premessa", disse um sitiante,
"proquê senão os santo castiga. Já outra veis que percisá pedi, ele num vai
atendê." Se sobrevém a morte antes que a promessa seja cumprida, acredita-se, como
já foi indicado, que o castigo recai sobre a alma, até que, com o auxílio de alguma
pessoa viva, ela possa cumprir a obrigação. "Se a gente dexa de cumpri uma premessa
inté morrê", disse uma sitiante, "sua arma num vai pro céu. É perciso pra
ela vortá, procurá arguém que ajuda ela a cumpri a premessa."
Na comunidade, bem como por toda essa região, o principal santo a quem se fazem promessas
é São Bom Jesus de Pirapora. Tem-se notícia de promessas que foram feitas também a
São Benedito, Santo Antônio, São Roque, São Gonçalo, São José, São Lázaro, Nossa
Senhora Aparecida e a Santa Cruz. A promessa era motivada em cada caso, por doenças,
machucados, dor, perda de algum objeto ou outro infortúnio, sendo nesses casos feitas as
seguintes promessas:
Fazer peregrinação a pé até Pirapora, depois de sarar.
Tirar uma fotografia da pessoa doente ou da parte afetada do corpo, e oferecer a
fotografia a São Bom Jesus de Pirapora, para ser colocada na Casa dos Milagres, perto da
igreja em Pirapora.
Mandar fazer uma reprodução em cera da parte afetada do corpo e oferecer a São Bom
Jesus de Pirapora.
Deixar crescer o cabelo da criança doente, até que atinja certa idade, e, então,
oferecer uma fotografia sua a São Bom Jesus de Pirapora (em alguns casos, o cabelo,
depois de cortado, é oferecido à Casa dos Milagres ou é jogado no rio, em Pirapora).
Pegar as roupas usadas pela pessoa enquanto doente e atirá-las ao rio, em Pirapora.
Carregar uma pedra grande sobre a cabeça, não procissão de São Bom Jesus de Pirapora,
na festa anual em sua honra.
Dar baile em honra do santo (apenas no caso de São Gonçalo).
Tirar esmolas para o santo durante nove dias.
Dar a um filho o nome do santo.
Batizar um filho no altar do santo.
Fazer um filho festeiro numa festa para o santo.
Pedir esmolas para mandar rezar uma missa.
Rezar certas orações.
Dar dinheiro para orações pelas almas do purgatório.
Levantar uma cruz no lugar onde tenha morrido um homem sem confissão.
Não comer carne às sextas-feiras.
Os seguintes relatos de promessas feitos por habitantes do lugar ilustram o comportamento
envolvido, e as idéias, atitudes e sentimentos que o dirigem e apóiam:
Jovem mãe de dois filhos:
"Essa minha criança se chama Benedita por causa de uma premessa que minha sogra fez
de ponhá esse nome se São Benedito [ajudasse] eu tê a criança logo, proquê eu tava
sofreno já um dia e uma noite pra criança nascê. Daí, minha sogra fez a premessa às
quatro horas da manhã, às oito e meia, eu tive a criança. Quano veio a segunda fia, meu
marido ficou com tanto medo que eu fosse sofrê iguar co esta outra, que ele fez uma
premessa pra o Senhor Bom Jesus de Pirapora de levá o retrato dela pra ele, se eu num
sofresse."
Uma sitiante de 23 anos:
"Uma vez eu fiz um premessa pra Senhor Bom Jesus de Pirapora pra este meu menino
aqui. Ele tinha uma ferida no pé que nunca sarava. A avó dele gostava munto dele, mais
num podia quase andá, percisava ficá quase sempre sentada. Ela num podia vê o menino
que queria pegá ele. Uma vez, o menino (ele tinha só dez meis) passô perto dela, foi
agarrá ele. Conforme ela foi pegá ele, o pito dela virou e caiu uma brasa do pito dela
no pé do menino. Como o menino engatinhava, ele arrastava sempre o pezinho no chão de
terra batida e ansim a ferida nunca sarava. Eu antão por fim percisava i buscá um
remédio em Boa Vista e, no caminho, eu fiz uma premessa pro Senhor Bom Jesus de Pirapora
que se ele dexasse o remédio sará a ferida do menino, eu dexava o cabelo dele crescê,
tirava o retrato dele e levava pro santo. O remédio era uma pomada branca. Pois foi como
tirá a ferida co a mão; em pocos dias a ferida secô. Mais nóis nunca tinha tempo de
tirá o retrato, e nóis dexema o cabelo do menino crescê inté quano ele tinha dois ano,
daí um dia arranjemo tempo, tiremo o retrato dele e levemo pra Pirapora pro santo."
Uma moça do sítio:
"Nossa famia percisa fazê uma dança de São Gonçalo. Minha sogra fez uma premessa
pro marido que tava paralítico sará, e ele sarô. Ela queria por munto tempo cumpri,
mais tava fartano açucra, por causa da guerra, e num pode fazê festa sem tratá bem o
pessoar. Despois, tinha açucra, começô a fartá pão. Quano tinha pão, fartô
querosene. Aí meu sogro morreu, e depois ela foi ficano doente e morreu tamém, sem
cumpri. Mais a premessa vale, é perciso cumpri."
Um sitiante de cinqüenta anos:
"Quano eu tava doente, fiz uma premessa pro Senhor Bom Jesus de Pirapora pra i e
vortá a pé da Vila em Pirapora. Eu tenho que i à Vila memo; quarqué dia desse, eu
vou."
Uma sitiante de 38 anos:
"Uma vez eu tinha uma ferida na perna, uma ferida munto feia, tava comeno a perna
tuda. Fez então uma premessa de fazê uma dança pra São Gonçalo. A perna sarô, aí
fez a dança na minha casa."
Uma sitiante de 34 anos:
"Uma vez meu menino pegô a mão no engenho. A madera tava um poco gasta no meio, de
modo que pegô mais estes dois dedo (mostrou o mindinho e o indicador). A mão dele
inchô. Eu passei azeite de mamona quente, arnica e sar. Dei pra ele bebê um poco tamém.
Fiz antão uma premessa pra São Bom Jesus de Pirapora, de levá uma mão de cera pra ele
se a mão do menino ficasse bão. E ansim foi. Pode vê, só ficô poco tortinho um
dedo."
Uma jovem mãe:
"Essa menina tá doente. Eu fiz premessa pra São Benedito pra ela sará de pedi
destão pra primera pessoa que aparecesse pra visitá, amarrá no pescoço dela e i levá
pro santo. Chega na igreja, desamarra e põe no pé dele. Quando minha outra menina tava
doente hai uns meis atrais, eu fiz premessa pra São Roque de tirá esmola pra uma missa
pra ele. Outro dia fui na Vila, tava co ela, num instantinho arranjei treze cruzero. Deis
déis pro padre rezá a missa e mandei treis pro Senhor São Roque."
Um morador da Vila:
"Uma veiz, eu viajei pra Pirapora, tava no ônibus um home cum menino de catorze ano,
vestido de hominho com camisa, gravata, carça. Mais tinha duas trança grossa amarrado no
arto da cabeça, e eu num sabia se era menino ou menina. Na ida eu num perguntei, mais na
vorta, eu sou munto curioso, eu perguntei pro pai dele. Daí, ele me disse que era menino;
que ele nasceu "afogado" (com o cordão umblical preso à volta do pescoço),
fico meia hora sem sabê se tava vivo ou morto. Então a partera num queria que morresse
ali na mão dela, fez uma premessa pro Divino Espírito Santo, que se ele havera de vivê,
memo se fosse hominho ela num sabia ainda se era hominho ou muié num
haveria de cortá o cabelo inté compretá 15 ano."
Uma sitiante de 37 anos:
"Quano nóis viemo de Minas prá cá, eu fiz premessa de mandá rezá uma missa
despois de um ano de nóis está morano aqui se nóis chegasse bem. Se despois de um ano
eu num tivesse dinhero, então eu havera de tirá esmola e mandá rezá. Quano feis um
ano, nóis num tinha dinhero. Então, eu tirei esmola numa festa na igreja de Paratinga,
pra mandá rezá a missa. Premessa, a gente deve pagá proquê se num paga, num
presta."
Uma sitiante de sessenta anos:
Quano minha fia tava pra tê crianças, fez uma premessa pra Nossa Senhora do Monte Serrat
em Santos, de batizá a criança lá, pra Nossa Senhora dá uma boa hora pra ela. Graças
a Deus! Nossa Senhora me ouviu e eu num incomodei de gastá; batizamo as duas criança
lá."
Uma jovem mãe:
"Essa minha menina uma veis ficô muito ruim com febre dos intestino. Tava tão ruim
que do joeio pra baxo ela já tava tudo fria e tuda inchada, parecia que ia rebentá. Num
parava nada no estambo (estômago). Eu antão fiz premessa pra São Benedito pra fazê que
o remédio ajudasse ela. A premessa que eu fiz foi de tirá ela de anjo na procissão e
fazê ela a festera. Pois ansim que ela começô a tomá o remédio, já começô a senti
fome, e daí dois dia comia bem."
Um homem da Vila, de 62 anos:
"Num fais munto tempo, eu vivia cumas dor no estambo, que num podia nem comê. Fiz
uma premessa no Domingo de Páscoa, pra num comê carne nas sextas-fera durante um ano
todo, e agora tô bem mió."
Uma sitiante de 43 anos:
"Tudas coisa que perdo, faço premessa pra Santo Antônio de rezá o Responsório
e logo aparece a coisa. Conto ligero pro meu marido, proquê num pode morrê sem cumpri
premessa e ele num sabe de nada! Eu faço a premessa e ele reza, proquê eu num sei lê e
ele sabe."
Uma sitiante de 48 anos:
"Minha mãe fez uma premessa quano eu tinha treze, catorze ano. Tava muito doente, e
num sabia que ela fez. Era pra eu ir a Pirapora, trocá um santo, São Bom Jesus
num percisa se munto grande saí co ele presses sítio, pedino esmola e despois
levá pra Pirapora e dexá o santo lá co a esmola. Minha mãe que fez a premessa, mais eu
que tenho que cumpri. Se eu num cumpri, ela num tem nada cum isso, para ela num acontece
nada. Se eu num cumpri inté morrê, a arma vem fazê fusquinha nos parentes que ficá;
inté arguém cumpri. Outro dia minha mãe tava me dizeno: Ocê percisa cumpri
aquela premessa. Mais, eu acho munto difícir."
Alguma pessoas nunca fazem promessas porque acham difícil demais cumpri-las, e grande
demais o risco de não as cumprir. Acham que a fé, se suficiente, vale pela promessa.
"Quano eu perciso munto de uma coisa", disse uma mulher que tem 4 filhos,
"eu só peço a Deus cum fé. Eu num costumo fazê premessa, proquê é difíci de
pagá. E premessa é perciso pagá, pois se num paga, o santo castiga. Despois, se
acontece uma coisa ruim, a gente fica pensativa, garrano maginá que o santo
castigô."Premessa eu num faço pra fio", observou outra mãe. "Só peço
pra Deus cum fé, e Deus ajuda, proque o que vale é a fé."
Também para os animais, ocasionalmente, se fazem promessas. "O sinhô qué tirá um
retrato do meu cachorro?" perguntou um morador da Vila a um dos pesquisadores que
trabalhou neste estudo. "Quano meu cachorro ficô doente, eu fiz premessa pro Senhor
Bom Jesus de Pirapora de levá um retrato dele pro santo. Ele sarô e agora é perciso
cumpri a premessa."(Pierson, Donald. Cruz das
almas, p.356-362) |
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