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Agosto 2002
Ano IV - nº 48

NEGRAS BAIANAS

A negra baiana ou simplesmente a "baiana", como é vulgarmente mais conhecida, é figura das mais características da pitoresca e tradicional capital do estado da Bahia – a cidade de Salvador, dentre os diversos tipos humanos lá ocorrentes, desde o elemento branco até o negro puro, através de vários graus de mestiçagem.

Sua origem é africana, como africanos eram todos os negros que vieram povoar a nossa terra. É difícil determinar com precisão quais as "nações" do continente negro introduzidas no Brasil pelo tráfico negreiro. O critério cultural permite-nos, porém, saber, deste ponto de vista, qual o elemento afro predominante na Bahia. Aí aportaram indivíduos pertecentes predominantemente ao grande grupo cultural sudanês, com grande influência maometana, a qual é refletida na religião e no vestuário. Desse grupo sudanês faz parte a preta baiana, cujo traço mais característico é sem dúvida a indumentária – composta principalmente do turbante muçulmano, compridas e largas saias, vistosos xales e mantas listradas, lembrando o traje marroquino – de indiscutível origem islâmica. "Na indumentária da escrava baiana", escreve Pedro Calmon, "ficou característico o traço bérbere. O turbante e o xale da baiana recordam-lhe as populações muçulmanas do Sudão. Confirmando-lhe a procedência sudanesa, Gilberto Freyre acrescenta: "São em geral pretalhonas de elevada estatura – essas negras que é costume chamar de baianas. Heráldicas. Aristocráticas. A elevada estatura é aliás um característico sudanês, que convém salientar".

É pelo vestuário que a baiana se tem celebrizado, sugerindo belas fantasias para os folguedos carnavalescos; seu turbante, pelo arranjo original, já entrou na moda feminina. A graciosidade e faceirice brejeira que possuem quando moças, exteriorizadas pelos requebros da sua coreografia bárbara nos batuques dos "candomblés", bem como o gosto pela música e canto, tem servido de motivo para inúmeras composições populares. Daí sua influência enorme no folclore nacional.

Nas grandes festas do catolicismo (que adotaram, apesar de originariamente fetichistas, por meio de curioso sincretismo religioso), principalmente nas tradicionais procissões e romaria do Senhor do Bonfim, ostentam indumentária riquíssima e extremamente complicada pela variedade enorme de peças e multiplicidade de adereços. Nesse dias exibem saias de beca plissadas a mão; batas rendadas; "camisas de tecido finíssimo, primorosamente bordadas"; compridos xales multicores de pano da costa. "Por cima das muitas saias-de-baixo, de linho alvo" (gastam cerca de dezesseis metros de fazenda na confecção das mesmas), "a saia nobre, adamascada, de cores vivas". Na cabeça "torsos de seda" (a rodilha ou turbante muçulmano) "de gorgorão preto", tecido branco ou de cores gritantes; "chinelinhos de veludo, lavoradas a canutilho de ouro" na ponta do pé. Quantos aos adereços e pingentes trazem atravessados nas orelhas argolões de ouro; no pescoço, colares de contas brilhantes, de miçangas, de búzios, com a indispensável e mística figa de guiné, amuleto contra o "mau-olhado", nos dedos, nos pulsos, nos braços, "até quase nos cotovelos... uma profusão incrível de jóias custosas. Além do molho volumoso de balangandãs – berloques, tetéias, bugigangas de ouro, de prata, de azeviche... – pendurado à cintura", como descreve Silva Camões.

É realmente uma figura singular e pictórica, Na gravura vemo-la no desempenho da sua atividade principal: o comércio de quitutes. Sentada diante do seu tabuleiro transportável, é encontrada vendendo os seus preparados saborosos, feitos segundo a receita africana que trouxe da terra natal ou lhe foi transmitita pelas gerações: guloseimas, nas quais a pimenta e o azeite de dendê são os condimentos mais freqüentes. O "acarajé" e o "abará" figuram, no tabuleiro, como pratos principais, seguidos do "vatapá", do "caruru", da "canjica", do "tutu", do "cuscus" etc. etc. Doceiras exímias, aí também são encontrados a "cocada", o "pé-de-moleque", o "doce-de-gengibre" etc. etc., sem esquecer o bolinho de tapioca assado na grelha, ao lado do tabuleiro.

A baiana nem sempre foi assim livre, independente, alegre e jovial, tal como a apresentamos. Ela tem longa e triste história; a adversidade somente há meio século deixou de a acompanhar com o seu cortejo de amarguras. Sua raça, seus hábitos e costumes, sua indumentária e atividades nos evocam o sombrio e doloroso episódio da colonização – a escravidão negra.

Com a Abolição passou de vez da "senzala" para a "casa-grande", onde então continuou a exercer somente os misteres maternais de "ama-de-leite", de segundas mães dos filhos do "senhor-de-engenho".

Com a gradativa transformação dos nossos costumes familiares a velha mucama "veio para a rua", onde, gozando a liberdade "embora tardia" que lhe fora dada, passou a viver por conta própria, ganhando a vida, independente, mercar diante do clássico tabuleiro os saborosos quitutes e guloseimas. Antes mesmo da libertação, conseguida a "carta de alforria", já se dedicava a esse gênero de vida autônoma, quando não preferia, mesmo "forra"... trabalhar para o antigo "senhor", o que acontecia na maioria das vezes.

Quando na casa-grande, influi bastante nos costumes da família baiana, ora introduzindo na sua culinária pratos africanos ora assistindo, desde o berço à formação dos novos membros da grande família patriarcal e ora atendendo a mil reclamos diversos como serva solícita.

Hoje em dia, a popular negra baiana é uma sobrevivência da carinhosa "mãe-preta", da prestimos e utilíssima "ama-de-leite", dos nossos pais e avós.

(Em Revista Brasileira de Geografia, ano 3, nº 4)


(Soares, Lúcio de Castro. Em Tipos e Aspectos do Brasil. p. 205-206)

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