Agosto
2002
Ano IV - nº 48 |
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O carreiro "Entra Limoeiro!
Fasta Laranjeira!" E o carro vai gemendo sob o peso da carga que a junta de bois mais
afamada do lugar vai puxando. Bem combinados, são "espaços", com chifres de
volta e argolas nas pontas para as chifradeiras. O carreiro conhece-lhes as manhas, todos
os pequeninos segredos que o fazem estar sempre alerta contra qualquer acidente, numa
previdência instintiva ou então aprendida pelo contato, constante, diário, com
diferentes juntas. Estes são mansos, não escoiceam, não apertam contra o cabeçalho no
momento de encangá-los, não investem ao pôr o cabresto. Conhecem o caminho e não
precisam de guia. O cabresto por cima dos canzais, a cabeça baixa, os passos lentos, mas
seguros, remoendo os olhos quase fechados numa doce sonolência que o cantar do carro,
rolando atrás de si, embala.
O carreiro impa-se de contentamento, de orgulho mesmo, numa felicidade sem limites. O
mundo nada significa para ele senão a força dos seus bois, o seu "cantador" e
todos os seus pertences anexos. Roda de Tamboril manso, braúna ou jatobá, com meião de
grossas almofadas; chedas e cambotas bem ajustadas nas arreias de pau-darco, madeira
que serve, também, para as outras peças da mesa; eixo de amargoso, com chumaceiras nos
cocões de umburana macho para fazer o carro cantar sem necessidade de calços, as
cantadeiras de mandioca brava ou árvore-de-São-João. Tudo muito bem ajustado, muito bem
trabalhado, pelo Joaquim Lopes, o mais afamado carpinteiro na especialidade.
Ontem esteve puxando milho do roçado, com o carro envarado até as pontas dos frueiros de
mocambo. Hoje vai à vazante buscar arroz que os meeiros bateram e vem ensacado em grandes
sacos improvisados com cobertores de riscado, os bitus, tecidos com fios de
algodão, de diferentes cores: branco, marrom e azul. As duas primeiras obtidas com as
cores naturais do algodão: maranhão e foba e a terceira com a tintura de anil,
nativo da região. Amanhã continuará puxando os milheiros de achas de aroeiras, rachadas
de empreitada por João Pretim, com cunhas de ferros, batidas com pesados macetes de
madeira, empilhados à beira do corredor, para uma nova cerca divisória. Carregador
sinuoso e longo pela mata adentro, cortado pelo rastro comprido das rodas. Aqui e ali um
umbuzeiro, demorando a marcha do carro se é tempo de umbu maduro que o carreiro descansa
em "S", ou acelerando-a, se está florido e por isso um martírio para os bois
devido à grande quantidade de mutucas que agasalha.
Ontem, hoje, amanhã e sempre: "Entra Limoeiro! Fasta Laranjeira!".
(in Revista Brasileira de Geografia Ano 28, nº 4)
(Souza, Rosalvo Florentino de. Em Tipos e Aspectos do Brasil. p. 133) |
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