Ir para a página principalRetornar para Oficina

Agosto 2002
Ano IV - nº 48

PROFISSÕES: SERRADOR, FERRADOR, BARBEIRO E TROPEIRO

No artesanato do interior do Brasil se destaca com inusitado destaque o serrador, artífice que serra as toras de madeira, transformando-as em tábuas. As toras são colocadas em cima de uma sustentação de quatro paus fincados no chão; em cima da tora coloca-se o serrador, que a manda a serra e, em baixo, fica um auxiliar que puxa a serra. E assim a serra se movimenta horas a fio: rãs, rãs, rãs! À tarde, a tora sumiu-se e no seu lugar estão muitas tábuas, tudo a muque. O que é a serra? É instrumento cortante cuja peça principal é uma lâmina dentada de aço; adaptada à serra estão os puxadores onde o serrador e o auxiliar seguram. O serrador e seu auxiliar são bem remunerados: ganham pelas tábuas serradas por dia. Eles mesmos são fiscais de si mesmos... Em regra, o serrador e seu auxiliar serram cantando modinhas peculiares:

"Serra, serra, serradô;
Que esta tora é dura,
Mas com esta serra desabusada
O nosso muque desafia!...

"Serra, serra, serradô;
Que a chuva tá armando!
Mas que importa pra nóis,
Se a tarefa tá no papo?...

"Serra, serra, serradô;
Que esta tora é dura,
Mas com o nosso muque
Já serramo dez tábuas!"

* * *

Outro artífice destacado no sertão brasileiro é o ferrador, que é o homem que se encarrega de ferrar as cavalgaduras, isto é, calçando-as com ferraduras. A ferradura conserva os cascos dos animais e evita a derrapagem. Na ferradura intervêm o ferrador e o segurador. As ferramentas usadas são o puxavante, que corta e acerta o casco; o martelo, que martela os cravos, pregando a ferradura no casco; e a torquês, para rebater as pontas dos cravos. O ferrador assiste nos "pousos", onde as tropas e os cavaleiros descansam. Aí, ele faz a sua féria...

* * *

O barbeiro do sertão brasileiro é uma criatura gozada e desfrutável. Não me refiro ao barbeiro profissional dos grandes centros. Não. É o roceiro que durante a semana trabalha no roçado; e, aos domingos, faz-se de barbeiro e atende aos vizinhos da comunidade, barbeando-os e fazendo-lhes o cabelo, na sala de sua habitação transformada em barbearia. Aí se reúnem os "fregueses" e estabelece-se um bate-papo gozado entre os "fregueses" e o barbeiro: fala-se da vida alheia; discutem-se os problemas da lavoura; fuma-se; e, clandestinamente, vende-se ali uma cachacinha gostosa; sendo que o barbeiro, também, toma, de vez enquanto, uma "lambada" ou um gole. À tarde, o barbeiro ganhou as suas "pratas" com boa féria. Essas barbearias improvisadas, em última análise, são um centro social da comunidade rural.

* * *

O tropeiro é figura curiosa nos sertões brasileiros. Sua missão é conduzir as tropas de burros. Geralmente, cada tropa compõe-se de doze burros selados com cangalhas e antolhos. Cada burro carrega três sacos de sessenta quilos: feijão, arroz ou café. Esta carga é coberta por um couro-de-boi esticado e seco. Na tropa, distingue-se a madrinha, que é o burro que vai na frente, trazendo ao pescoço um jogo de guizos, que dão um ritmo cadenciado; e na cangalha prendem-se fitas de várias cores. Os burros caminham em fila indiana. O último da fila é que marcha perto do tropeiro; este leva à mão um cacete grande. De vez em quando, o tropeiro dá uma cacetada no couro da cangalha, dando a impressão de uma bordoada barulhenta: é para ativar a marcha. Há até um provérbio gozado: "dá na cangalha para o burro entender..." As tropas ainda são utilizadas nas zonas serranas onde as conduções são difíceis. As tropas descem a serra levando café em grão e cereais; e regressam trazendo querosene, sal e charque. A tropa, quando chega no povoado vinda da serra, é um espetáculo de admiração. O tropeiro é ainda um artífice da integração entre as populações sertanejas: das serras e das planícies.

[1966]


(Carvalho, Hernani de. No mundo maravilhoso do folclore, p.102-104)

Topo

Jangada Brasil © 2002