Agosto
2002
Ano IV - nº 48 |
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Entre os mitos populares pode ser destacado
o bicho papão. Aliás, o seu prestígio se restringe às rodas burguesas da sociedade. O
menino filho de pais abastados ou não, aqueles remediados (o bruxo não é muito
relacionado aos meios pobres, aqueles que vivem retraídos pela miséria), sentem a
influência do bicho papão através do pessoal de casa. É sempre à hora de dormir que a
sua presença se torna indispensável. Invoca-se o duende que alguns não sabem que forma
venha a ter. Coisa imprecisa. Porém, um detalhe não se modificou até agora: ele vem no
momento crítico com o fim de impor a sua autoridade. Vem de ponto feito. Assim é que
alguém está pondo na cama a criança e esta não quer dormir, deseja brincar mais um
pouco e, então, faz-se a invocação terrível:
O bicho papão vai pegar você.
O suficiente para o insone se sentir oprimido. E o caminho que encontra ainda será o de
evitar a vinda do intruso. De fato, quando ele acontece chegar, carrega a criança não se
sabe para onde. Mas que carrega, carrega ah, isso não deixa a menor dúvida.
Carrega quando o menino está mais descuidado da vida. Fala-se até que de certa feita
aconteceu uma coisa impossível de revoltante Pois é. O menino deixou de ligar à
próxima chegada do bicho papão, nem se incomodou com a ameaça da criada e foi o
bastante: ele veio, pegou o garoto, amarrou-o as pernas e mãos, entupiu-lhe a boca com
algodão e, após, conduziu a presa para uns lugares desconhecidos.
Dizem que eram ou traziam esses lugares a idéia de praia enfeitada de coqueiros lindos,
com rosas pelo chão e perfumes silvestres embriagadores: panorama de paraíso perdido em
sonho.
Atentai nos jardins, vede os coqueiros,
Falange heril de vegetais guerreiros,
Cujos cocares verdes fremem no ar.
Foi serviço para o menino regressar salvo e são. Salvou-se, afinal, é bem verdade, mas
não veio são: ficou mutilado em alguma parte do corpo. Espalhou-se a notícia pela
cidade. Os pais ficaram indignados com a crueldade do fantasma. Esquisito, desde a vida
toda que jamais o bicho papão fora acusado sob tal aspecto, sendo sua exclusiva missão
amedrontar os pequeninos que resistem ao berço, querem é continuar na brincadeira por
mais horas - Como explicar o caso? Ninguém podia aceitar a hipótese de que se tratava de
mutilador sanguinário. Porém os prejudicados, os pais da criança, teimaram e
provaram a malvadeza sofrida pelo filho inocente.
Qual, por mais que sustentassem a realidade, quem era que iria acreditar naquilo?
Conversas. Invenção de quem nada tem que fazer. A prova estava ali, provadinha - Venceu,
pelo número, a corrente que desacreditava na história, enquanto os vencidos. não
queriam contestação. E diziam à maneira dos caboclos:
Cesteiro que faz um cesto,
Achando cipó e tempo,
Faz um cento.
Por outro lado, há quem sustente que o bicho papão tem formas definidas. Talvez por
causa do "papão", entendem alguns que o bruxo veste camisolona preta, coisa
parecida com batina, da cabeça aos pés. E isto infunde pavor nas suas visitas noturnas a
domicílio. Tem nariz de tamanho fora do comum, muito comprido e, acrescentam, tomou tais
proporções em virtude do faro extraordinário de que é dotado. Antes, o seu nariz era
até pequeno, igual ao dos outros homens; agora, entretanto, se encontra elasticido por
causa do vício esportivo: mete o nariz no berço para exame local.
E fica por trás da porta, escondido, à espera do instante propício para agir, tomar
decisões supremas e, de ordinário, há razões para o que asseguram: carrega a
criança para lugares desconhecidos com o fim de fazer incisão no aparelho nasal e
também na garganta, arrancando as amídalas e as adenóides afetadas, O certo é que a
meninada meio taluda, se não acredita, pelo menos fica desconfiada, não querendo maiores
detalhes; nem muito menos experiências. Ainda porque o bruxo entende de dores de dente,
dores de ouvido e, dispondo de material ofensivo, gosta de pôr seu líquido amarelo que
forma boqueira. Ou os olhos ficam remelentos.
Propalam também que "papão" tem outra procedência muito diferente. O próprio
nome indica: é bicho que come por demais E tanto come como bebe. Ao penetrar nas
casas, antes de ir aos quartos fiscalizar a criançada, passa pela copa, abre os armários
e procura, sequioso, alguma coisa para saciar a fome, limpando os pratos que encontra e
secando as jarras e, por cima de tudo, carregando nos bolsos do roupão garrafas de
vinho verde para os almoços largos que costuma fazer - Não achando essas facilidades,
então fica irado, prevenido com o menino, e, tendo de levá-lo para as suas operações
benéficas, talvez não seja muito delicado nos modos - Se estiver, porém, com a pança
cheia, aí se torna calmo e carinhoso, não consente nos sofrimentos prolongados.
Bicho papão tem suas complicações. É tal e qual como os demais bruxos.
(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros.
p.93-95) |
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